Lula rateia entre partidos, os mais altos cargos da República, o BC e o Ministério da Fazenda se desmoralizam ou se contradizem. Dona Dilma assiste tudo em silêncio.

Helio Fernandes

Ninguém levou em consideração a afirmação de Dona Dilma: “2013 será totalmente administrativo, política só em 2014”. Como as afirmações, as ações e os compromissos da presidente não são levados a sério, continuaram e até aumentaram as artimanhas e o malabarismo “ético” da politicalha e do que se convencionou chamar de “toma lá, dá cá”.

Assistindo a tudo, sem parecer participar de coisa alguma, mas arquivando o que acontecia, a presidente mudou rápida e completamente de posição e de caminhada, o que é trivial no seu comportamento. Mas nesse caso há uma visível justificativa, a mudança (e a provocação) não partiu direta ou inicialmente dela. Não tem nem cacife para enfrentar o cacique da sua vida política e eleitoral.

Sem qualquer respeito ou constrangimento, o ex-presidente e grande eleitor de Dona Dilma e não apenas em 2010, retumbou ostensivamente: “Posso disputar a presidência em 2014”. Dona Dilma percebeu que estava obrigada a abandonar 2013 como “ano administrativo”, aumentou a ação política que havia limitado para 2014, decretou: “A partir de agora, todo dia é dia de política presidencial”.

Lula apressadamente e desmentindo sua reconhecida habilidade nos bastidores da baixa política, afirmou com grande repercussão: “Posso ser candidato a presidente em 2014”. Foi surpreendente, embora rigorosamente verdadeiro: se confirmar essa intenção, o PT lhe dará a legenda e a preferência. Para Dona Dilma restará o vácuo e o vazio.

Compreendendo que Lula não estava brincando, Dona Dilma disse para si mesma e para os dois ou três assessores ou ministros nos quais pode (?) confiar: “Diante do lançamento da candidatura Lula, não tenho chance de vitória. Assim, completamente perdida e antecipadamente derrotada, tenho que enfrentá-lo publicamente”.

Estava mais ou menos atritada com o governador de Pernambuco, isso não tinha a menor importância, chamou-o ao Planalto. Também sem assunto para conversar, esse Eduardo Campos (PSB) já havia sido publicamente contraditório, impenetrável e incompreensível: “Estou firme com a Dilma em 2014, mas depende de 2013”.

Como está valendo tudo na política brasileira, Dilma e Eduardo Campos conversaram no Planalto, 30 minutos se passaram, nenhum dos dois tinha alguma coisa para dizer ou para ouvir, o encontro parecia encerrado, Dona Dilma se levantou para levar o governador até a porta.

Como o gabinete é enorme, no meio Dilma parou e disse para Campos: “Tenho uma revelação. Sou candidatíssima à reeleição em 2014”. Deram mais alguns passos, Dilma terminou: “Mas isso é confidencial”. Se despediram, os dois satisfeitíssimos. Ela sabendo que ele divulgaria tudo, ele convencido de que a revelação da “confidência” era obrigação sua.

Consumada a publicação, Lula perplexo, também usou da confidencia, só que para o pessoal do seu Instituto: “Não sabia que a Dilma tivesse a coragem de me enfrentar dessa maneira. Temos que recolocar a casa em ordem”. O que Lula quis dizer: “Vou falar que me interpretaram mal, minha candidata para 2014 é a Dilma”.

E também colocou um adendo para os companheiros ou funcionários-empregados-apaniguados-subordinados: “Faltam dois anos, o quadro pode mudar, ou poderemos mudá-lo”. Vannuchi, ex-ministro de Lula, por contra própria acrescentou: “Se a crise aprofundar, Lula terá que ser chamado e voltará, ele não foge”.

Duas conclusões óbvias. 1 – Quer dizer que Lula considera que o país está em crise? 2 – E que, se essa “crise” se aprofundar, Lula tem que ser chamado? Dona Dilma é apenas uma suplente (como os 21 do Senado que votaram no elefante branco que é Renan Calheiros) para tempos de bonança ou de calmaria?

Lula então mergulhou na identificação de nomes para os cargos mais importantes. O primeiro a ser premiado foi Renan. Estava a perigo, Dona Dilma não queria apoiá-lo. Chegou a sugerir: “Renan, por que você não concorre a governador? Tem o meu apoio”. Renan não quer se isolar no estado agora, lembrou que já foi derrotado para governador e para prefeito. Lula falou com Dilma, ela apoiou, mas contabilizou politicamente. Com isso, sofreu forte desgaste eleitoral e popular.

A seguir Lula envolveu Eduardo Campos no jogo, para se vingar da “confidência” revelada. O sonho de Campos é ser vice de Dilma (ou de Lula, tanto faz) em 2014. Sabe que como cabeça de chapa em 2014 só pode aparecer em 2018, e além do mais, com todas as incertezas.

Para colocar o governador de Pernambuco na vice, Lula tem que tirar Temer, quase impossível. Eleitoralmente Temer é um poste (não tem votos nem para deputado), mas politicamente quase invencível. Renan e Eduardo Alves (e podem acrescentar o outro Eduardo, o Cunha) saíram de sua cabeça maligna. Que Temer tenta impingir como “veia poética”. O final da palavra lembra ÉTICA, nada a ver.

Lula também trata da eleição de São Paulo, escolhendo “candidatos” fora do PT. Sabe que no PT (além dele mesmo, se Dilma for inarredável) sobraram Dona Suplicy e Mercadante. Ela, agora Ministra da in-Cultura sem dar um voto a Haddad, já perdeu duas vezes para prefeito. A primeira, no cargo, a outra no segundo turno, mesmo com apoio de Maluf.

Mercadante estava no auge em 2002. Eleito senador, o suplente se preparava para assumir, Mercadante seria Ministro da Fazenda. Não foi nada em oito anos, pediu demissão IRREVOGÁVEL da liderança, teve que se desdizer, Lula obrigou-o a dizer que a palavra IRREVOGÁVEL tem que se interpretada.

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PS – BC e Ministério da Fazenda sempre brigaram. Agora a briga é pessoal. O presidente do BC diz que a crise cambial “afeta a inflação”.

PS2 – Mantega responde: “Se o câmbio não se comportar, a gente vai lá e acerta”. Ha!Ha!Ha! Vou cobrir atentamente os devaneios de Lula e os receios do BC e Ministério da Fazenda. Deixa tirarem as máscaras do carnaval.

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