Lula torna-se ator de um escândalo que constrange Dilma Rousseff

Pedro do Coutto

Ao tentar (em vão) influir no rumo do julgamento do mensalão, reportagem sensacional de Rodrigo Rangel e Otávio Cabral, revista Veja que circulou sábado e se encontra nas bancas, o ex-presidente Lula, além de causar o efeito inverso daquele quê pretendia, ainda por cima, de forma indireta, deixou a presidente Dilma Roussef em situação de constrangimento. Claro. Porque não pode politicamente ser outra sua reação. Não poderá desautorizar seu antecessor e grande eleitor, tampouco endossar seu procedimento.

Lula, de fato (explicação lógica é difícil), protagonizou um dos maiores escândalos da história do Brasil dos últimos sessenta anos. Encontra-se numa escala em que se destacam o atestado da Toneleros e suas consequências, em 54, a tentativa de Carlos Lacerda, em 55, de impedir as posse de Juscelino, a renúncia de Jânio Quadros, em 61, e os atos institucionais produzidos pelo arbítrio militar de 64, 65 e 68, principalmente este último pela brutalidade de que se revestiu.

As fotos que acompanham a matéria da Veja são de Cristiano Mariz, Wagner Campos e André Duzek. Acrescentam fortes elementos visuais à trama descrita. Onde Luiz Inácio da Silva estava com a cabeça? Impossível supor. Avistar-se com o ministro Gilmar Mendes no escritório de Nelson Jobim visando a influir no rumo do processo é ato completamente absurdo.

Em primeiro lugar, só tenta influir quem está sentindo um rumo adverso ao desfecho que deseja. Em segundo lugar, é evidente que Gilmar Mendes iria procurar um órgão importante da imprensa para se defender previamente de qualquer hipótese de ilação negativa a si mesmo. O ministro Gilmar Mendes talvez tivesse temido que a conversa pudesse estar sendo gravada por alguém.
Preveniu-se. Como também se preveniu o ministro Ayres Brito que revela à Veja ter recebido insinuação de Lula em jantar recente no Palácio Alvorada.

O ex-presidente criou, com tudo isso, um panorama horrível para si próprio e para os 36 réus do mensalão. Defendeu, o que não lhe cabia, a participação de Dias Toffoli no julgamento. Criticou a conclusão do voto revisor do ministro Lewandowski. Acusou o ministro Joaquim Barbosa, relator da matéria, de complexado. Deu a entender, indiretamente, que deseja livrar os acusados de punições pelo STF. Absurdo total.

Principalmente quanto a José Dirceu, que, segundo ele, está em desespero. Mas como pode Lula defender Dirceu? Em 2005, quando explodiu o mensalão, em decorrência de entrevista de Roberto Jefferson à repórter Renata Lo Prete, Folha de São Paulo, Lula o demitiu da chefia da Csa Civil. Em seguida, por ampla maioria de votos secretos, o ex-ministro teve cassado, pela Câmara dos Deputados, seu mandato parlamentar.

Se o demitiu do cargo é porque teve razões para tal. Caso contrário, teria cometido grave injustiça. Mas Lula nunca confessou isso. Jamais se arrependeu de seu gesto. Além disso, vários outros acusados por Jefferson, que dramaticamente acusou a si mesmo, sofreram as consequências da caneta presidencial.

A contradição de Lula é flagrante. Pois, além de Dirceu, como pode ser absolvido o publicitário Duda Mendonça? Espontaneamente confessou à CPI dos Correios e do Mensalão ter recebido 10 milhões de dólares em um paraíso fiscal. Configurou sonegação do Imposto de Renda e evasão ilegal de divisa, através de doleiros. Figuras aliás responsáveis pela evaporação de volumosos recursos nacionais.

Num panorama assim, de conhecimento geral, como classificar a saída de Lula dos bastidores da memória e se apresentar no palco da consciência do país. O ex-presidente se expôs e agiu desnecessária e absurdamente.

This entry was posted in Sem categoria. Bookmark the permalink.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *