Magia negra contra Tancredo Neves?

Carlos Chagas

Os 25 anos da morte de Tancredo Neves continuam fazendo aflorar na memória uma série de episódios fundamentais para a compreensão da Nova República. Uns claros, outros ainda cercados de mistério. Vai o relato de um deles.

Naqueles idos,  entre março e  abril de 1985, com o presidente eleito internado num hospital de São Paulo e já submetido a seis operações, diminuía a expectativa de que pudesse recuperar-se. Mesmo assim, as esperanças continuavam.

Em  Brasília, José Sarney governava interinamente, com  o ministério antes escolhido por Tancredo.

Francisco Dornelles era ministro da Fazenda, nossa amizade vinha de longe. Quase todos os dias trocávamos informações sobre a saúde do presidente.  Certa manhã recebo dele uma intimação: “Venha imediatamente ao meu gabinete, aqui na Esplanada.”

Fui. O gabinete estava vazio mas logo surge o ministro, de uma pequena porta ao lado. Pegando-me pelo braço, entramos numa pequena sala onde, sentados num sofá, estavam dois senhores de aspecto modesto, paletó sem gravata e  camisa abotoada no colarinho.  Meias brancas com sapatos pretos.

Dornelles  apresentou-me  como amigo, dizendo tratar-se de dois monges que há dias tentavam comunicar-se com ele. Recebeu-os naquela manhã, quando disseram pertencer a um mosteiro no interior de Goiás. Tinham vindo à capital federal  informar o ministro e sobrinho do presidente que Tancredo estava sob os efeitos de um forte trabalho de magia negra.  Como eram cultores da magia branca, punham-se à disposição para desfazer o mal.

Na presença dos monges, o ministro falou não haver acreditado numa palavra daquela história e já ia mandá-los embora quando um deles atalhou, pedindo para demonstrar o que diziam. Disse que no apartamento particular de Tancredo, numa das superquadras do Plano Piloto, estavam as provas do tal “trabalho”.  Como se estivesse no ministério outro sobrinho do presidente, Gastão Neves, primo de Dornelles, foi pedido que acompanhasse os monges.

Nessa altura do relato que o ministro me fazia, ele aproximou-se de uma pequena mesa redonda, coberta por um lençol,  que abriu e acentuou: “Veja o que eles acharam dentro do travesseiro do Tancredo”.

Um dos objetos era um boneco rústico, desses que a gente vê em filmes de vudu, todo espetado por alfinetes.  O outro era um terço, tão a gosto das beatas, mas formando o perfil de uma cabeça humana.

Não entendi nada. Dornelles contou que na presença do Gastão os monges haviam ido pouco antes ao quarto de dormir de Tancredo e logo,  com um canivete, abriram o travesseiro e retiraram as duas peças, que levaram ao ministério.

Fazer o quê?  Foi quando um dos monges explicou estar ali a evidência do falavam. Havia apenas uma forma de desfazer o malefício: levar os dois objetos e colocá-los debaixo de uma queda d’água natural, o mais próximo possível de Brasília, e serem levados, os dois, ao quarto de Tancredo, no hospital paulista, para orações.  Junto com o primo Gastão, encontraram pequena cachoeira de água límpida, nos arredores do entorno da cidade.

Enquanto isso, quando ainda estávamos na salinha, Dornelles tomou a decisão. Disse que continuava não acreditando em nada, mas, por via das duvidas, tomaria providências.  Telefonou para o delegado Romeu Tuma, encarregado da segurança de Tancredo, no hospital de São Paulo, dizendo-lhe estar enviando dois amigos no jatinho particular do ministério. Encareceu a Tuma que os  recebesse no aeroporto e fizesse o possível para atender-lhes os pedidos.

É claro que era proibido entrar no quarto de Tancredo, transformado em UTI. Os monges contentaram-se em ficar o mais próximo possível do ilustre doente. Tuma encontrou a solução colocando-os um andar acima,  num quarto exatamente sobre o quarto de Tancredo. Lá, passaram a noite rezando.

Todos os dias a equipe médica que atendia o presidente divulgava um boletim, lido pelo professor-doutor chefe das operações hospitalares. Naquela tarde, um dia depois da passagem dos  monges por Brasília, o país inteiro teve suas esperanças renovadas. Depois de anteriores e seguidas informações pessimistas, o médico anunciou que Tancredo havia tido sensível melhora, na pressão sanguínea e outros exames.

Eu estava em meu local de trabalho quando o telefone toca. Era Dornelles, que emocionado comenta: “Você viu? Não acredito, mas como desconhecer o que aconteceu?”

Semanas depois Tancredo morreu. Os monges sumiram, internando-se  no mosteiro misterioso, tendo destruído o boneco e o terço. Concluí, apenas, que entre o céu e a terra existem coisas que nossa vã inteligência não explica…

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