Maior ameaça ao país não é a Previdência, é a dívida pública descontrolada

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Charge do Cicero (ciceroart.blogspot.com)

Carlos Newton

É uma omissão criminosa. O governo, os empresários e a mídia atribuem à Previdência Social a origem da crise do país, mas decididamente isso não corresponde à verdade. A situação está complicada, é claro, exige sacrifícios de todos, inclusive reforma da Previdência, mas o governo está agindo com evidente má fé, ao tentar desconhecer e ocultar a importância do descontrole da dívida pública. É o mais ameaçador problema do país. Dele derivam todos os outros, mas não é discutido e a grande mídia o despreza.

EM PRÉ-FALÊNCIA – Em fevereiro, a dívida avançou 2,66%, atingindo espantosos R$ 3,13 trilhões, informou a Secretaria do Tesouro Nacional, e a inflação foi de apenas 0,33. Ou seja, é como se fossem aplicados à dívida juros reais de 2,33% em apenas 28 dias. No governo Dilma Rousseff, a farra fiscal fez a dívida pública saltar de 53% para quase 70% do Produto Interno Bruto (PIB), com a maior recessão da história.

Se o país fosse uma empresa (em termos contábeis, não há maiores diferenças, é tudo “deve” e “haver”), estaria em situação de pré-insolvência, de pré-falência, qualquer estudante de Contabilidade em poucos minutos chegaria a essa conclusão, se tivesse acesso aos números, pois em 2018 o rombo nas contas públicas passará de R$ 79 bilhões para R$ 129 bilhões, vejam a que ponto chegamos.

CORTINA DE FUMAÇA – A questão é justamente essa – por que não se dá à população o acesso a essas informações, que são claramente escamoteadas pelo governo e pela mídia. O presidente da República acaba de gravar um vídeo e lançar nas redes sociais (não se exibe em cadeia na TV por medo do panelaço) para explicar a reforma da Previdência. No entanto, jamais fará o mesmo em relação ao maior problema do país – o descontrole da dívida, E nenhum jornalista se dá ao trabalho de entrevistá-lo a respeito, porque é assunto “fora de pauta”.

Essa importantíssima e aflitiva situação não foi destaque em nenhum dos portais dos jornalões – Globo, Folha e Estadão. Um dia depois de a Secretaria do Tesouro anunciar os números, não foi possível encontrar nenhuma matéria a respeito. O problema da dívida só foi noticiado nos sites do G1, onde recebeu apenas 5 comentários, e no Valor, com escassos 3 comentários.

A expectativa do Tesouro Nacional é de um assustador aumento na dívida pública em 2017, que pode chegar aos R$ 3,65 trilhões. Se isso acontecer, a elevação, neste ano, será de R$ 538 bilhões, ou seja, 17,28%, para uma meta de inflação prevista em apenas 4,5% e que deve ser até menor. Isso significa crescimento real de quase 13%. É uma farra do boi, mas não vai durar para sempre, é claro.

Na vida, tudo tem limite, mesmo nesse capitalismo financeiro sem risco, praticado pelos rentistas a partir do patriótico governo FHC. Aliás, rentista foi um termo criado por Karl Marx para denominar aqueles que lucram sem produzir e esculhambam o que há de melhor no capitalismo – a vontade de empreender, de criar empresas e gerar empregos.

RUMO AO ABISMO – Em tradução simultânea, com a economia controlada por um financista chamado Henrique Meirelles, ex-presidente mundial do BankBoston e ex-presidente do Conselho de Administração do grupo JBS, maior exportador de carne do mundo e que deve mais de R$ 2 bilhões à Previdência Social, o Brasil está caminhando para o precipício e fingindo que há uma ponte para o futuro. É uma irresponsabilidade absurda. Mas quem se interessa?

Aonde estão os economistas, os contabilistas, os acadêmicos? Por que esse silêncio absoluto. Nas páginas de opinião dos jornais, não sai uma só linha a respeito. No entanto, em relação à reforma da Previdência, os artigos abundam, e sempre defendendo esse pacote de maldades que atinge os trabalhadores.

Quase todos estão se omitindo, criminosamente. A própria oposição foge do assunto, não quer discuti-lo, porque os sucessivos governos do PT agravaram o problema criado na Era FHC. É bom lembrar que até o governo de Itamar Franco a dívida interna era ridícula, mas cresceu a um ritmo médio de 24,8% ao ano no primeiro mandato de FHC. Subiu de R$ 43,5 bilhões, em 1995, para R$ 188,4 bilhões, em 1998, e nunca mais parou, até chegar a esse clímax apocalíptico.

HÁ QUEM SE INTERESSE – Felizmente, ainda há quem se preocupe com a dívida, como o comentarista Luís Hipólito Borges, que instiga a Tribuna da Internet a insistir nesse tema árido e negativo. Para os jornalistas, é muito mais agradável criticar as posturas escalafobéticas de Gilmar Mendes ou Renan Calheiros, porque é mais fácil e rende leitores.

Mas logo surge Luís Hipólito Borges a nos lembrar que a PEC 55, que congela os gastos públicos por 20 anos, estrategicamente esqueceu de limitar os pagamentos da dívida, e os encargos dela já se aproximam de 50% do Orçamento Federal. E o comentarista questiona como funcionará a economia em déficit nos próximos anos. “Como serão remunerados os credores dessa dívida? O resultado prático, além do aumento do desemprego e da precarização do emprego através da terceirização, será também o aumento explosivo da violência generalizada”, diz Borges, acrescentando:

“Esse assunto do déficit primário e da dívida pública e seus efeitos no cotidiano da sociedade precisa ser mais explorado aqui na TI, pois é o que realmente nos interessa”.

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PS –
É claro que logo surgirá um defensor dos banqueiros e rentistas, para alegar que o país tem cerca de R$ 1 trilhão em reservas, como se isso fosse desculpa para o flagrante descontrole da dívida. E pode-se responder que o Brasil, além das reservas, tem Gisele Bündchen, Neymar, Bernardinho, Caetano, Gal e Gil, mas infelizmente não tem nada que se pareça com um governo que defenda o interesse público (do povo e da nação).  (C.N.)

10 thoughts on “Maior ameaça ao país não é a Previdência, é a dívida pública descontrolada

  1. A melhor definição do que querem fazer com a previdência que vi até agora:

    Querem que ela deixe de ser previdência social e passe a ser só econômica (em favor dos bancos).

    Não podemos permitir, dia 28 de abril todos na Greve Geral, vamos parar o Brasil !!!

  2. Carlos Newton,
    É importante destacar que quando se está reduzindo a Taxa de Juros SELIC, a maioe paete da dívida contraída está contratada com juros pré-fixados, ou seja baixando os juros da dívida futura se baixa a inflação, AUMENTANDO o ganho real na remuneração do principal já emprestado.
    E isto não é sorte. É tudo planejamento financeiro dos banqueiros que controlam o sr meireles, digo, o governo federal.

  3. E jamais algum governo defenderá os interesses do país e se preocupar com o povo, complementando o PS ao final do artigo.

    O Brasil se tornou a mina de ouro para governantes e parlamentares, que se locupletam ilicitamente e deixam a nação e seus cidadãos à mercê de crises econômicas, políticas e sociais.

    A quadrilha que deixa o poder critica aquela que a substitui; depois, a criticada assume o poder de novo, e critica a sua antecessora.

    Curiosamente, o povo idiota e imbecilizado, inculto e incauto, analfabeto absoluto e funcional, sem consciência cívica e senso crítico – o povo brasileiro na sua maioria -, vota nos mesmos ladrões, razão pela qual este círculo vicioso de uma política fraudulenta e sistema de eleição inconfiável jamais conseguirão resolver nossos problemas porque são eles mesmos os seus autores!

    Desta forma, uma vez instituída uma democracia relativa e a gosto de uns e outros, a população condenada à miséria, desemprego recorde, inadimplência em patamares nunca antes registrado na história, uma recessão econômica sem fim, e crise política sem precedentes pela falência ética e moral do Legislativo e Executivo, o país se encontra à deriva, além de parado no meio do oceano pela falta de impulso, de ar, de vento, que se traduz em empreendimentos e investimentos em áreas cruciais ao povo.

    A quadrilha petista nos conduziu durante 13 anos para este local, o Mar de Sargaços econômico e político e, Temer, sabia deste destino porque foi o Imediato do comandante petista do navio, a insubordinada e incompetente Dilma, corrupta e desonesta capitã de uma embarcação que não soube conduzir.

    Se Temer sabia onde íamos encalhar, agora não sabe como nos tirar desta imobilização, pois não pensou na hipótese de que o navio um dia não se movimentaria mais sem que fosse devidamente planejado o rumo que deveria seguir, ou seja, sem que tivéssemos um plano de governo, menos planos de poder e de vários tipos ou, o mais grave, apenas estratégias e táticas para preservar os cúmplices de serem julgados e condenados porque envolvidos na Lava-Jato!

  4. Considero muito válida a discussão acerca do crescimento da dívida pública, no entanto, não creio que os banqueiros sejam a principal causa do problema hoje enfrentado pelo país. A causa, todos sabemos, é a má gestão.

    Mas, voltando à dívida pública, a taxa SELIC tem caído, assim como a inflação. Isso não é um bom indicativo?

  5. Essa caricatura chamada Temer disse no início que iria controlar os gastos governamentais diminuindo a máquina pública. Não vi e não li uma única atitude deste meliante a favor de diminuir gastos públicos. A previdência é interessante, mexem apenas com aqueles que estão na base, deixam de fora políticos, judiciário e militares que são os que oneram a previdência. Judiciário e políticos é uma farra do boi, tem aposentadoria com 4 anos de trabalho. Realmente, o país está em estado terminal financeiramente e moralmente. Onde vamos chegar?

  6. Caro Newton, assino mil vezes, o artigo e NR, bem como dos demais comentaristas, que mostram a verdade verdadeira da situação falimentar, desse governo incompetente, está a mergulhar mais fundo o Brasil nesse oceano de lama.
    Os 3 poderes estão podres, e o o trabalhador empregado, se danando, e 13.500 milhões desempregados.
    Dia 28, greve geral, é preciso, para salvar o Brasil.
    2018, não reeleger, é preciso, vote com Dignidade.

  7. Para a Banca, tanto faz se a SELIC, está aumentando ou diminuindo.
    Pois, quando está subindo ela contrata Dívida Pública com juris pós fixados.
    E quando a SELIC está baixando – caso presente – ela contrata a Dívida Pública com juros pré fixados.
    E aí….
    A Banca ganha sempre neste cassino de cartas marcadas chamado Títulos da Dívida Pública.
    Haja corte ba Seguridade Social para bancar este “joguinho” trolóló.

  8. Bancos e outras instituicoes financeiras certamente financiando campanhas eleitorais . Que o Judiciario faca cumprir a constituicao e se realize uma auditoria desta divida .

  9. A dívida pública continua firme, seguindo uma trajetória insustentável. Não é por outra causa, senão, pela contínua e crescente expansão dos gastos públicos fundada na escalada da despesa com a folha de pagamento dos servidores públicos, que fomenta, por sua vez, crescente rolagem da dívida.

    O estabelecimento do teto dos gastos melhora o quadro, mas, vai continuar dependendo da reforma da Previdência e do enxugamento da máquina estatal.

    Em 2016 o Tesouro Nacional emitiu R$721,7 bilhões em títulos e resgatou R$732,5 bilhões dos títulos anteriores, restando um resgate líquido de R$10,8 bilhões em títulos públicos, devidamente abatidos da dívida pública federal.
    Registro gráfico da emissão e resgate de títulos públicos federais feitos pelo Tesouro (2016):
    (+) Total de emissões………….R$721,7 bilhões
    (-) Total de resgates……………R$732,5 bilhões
    ———————————————————–——–
    (=) Resgate líquido……………..R$10,8 bilhões*
    (*) devidamente abatidos da dívida pública federal.

    Fonte: Tesouro Nacional

    Os juros incorridos no ano de 2016 foram de R$330,7 bilhões. Assim a dívida pública federal passou de R$2,793 trilhões em 2015 para R$3,113 trilhões em 2016; resultado da incorporação dos juros e abatimento do resgate líquido.

    Registro gráfico da gestão da dívida pública federal (2016):

    (=) Dív. púb. fed. em 2015…R$2.793 bilhões
    (+) Total de emissões………… R$721,7 bilhões
    (-) Total de resgates……………R$732,5 bilhões
    (+) Total de juros………………..R$330,7 bilhões
    ———————————————————–——–
    (=) Dív. púb. fed. em 2016…R$3,113 trilhões

    Fonte: Tesouro Nacional

    O custo da dívida pública (taxa implícita) em 2016 foi de 12,02% ao ano. Em 2015 o custo de manutenção da dívida pública tinha sido de 16,05% a.a. Caiu, portanto, mais de 4% de um ano para outro. O BACEN informou que a queda desse custo esteve fortemente atrelada à apreciação cambial do real frente ao dólar, com efeito sobre a estatística de custo da dívida pública federal externa. A redução da selic também foi um componente desse processo.

  10. Sr. Carlos Newton,

    Agradeço-lhe profundamente ter respondido a minha solicitação de um artigo nesta Tribuna que é o site mais isento e independente do Brasil, principalmente pelo fato de que a minha preocupação com a dimensão de nossa dívida e seus encargos tem procedência. Estarei sempre aqui comentando. Um grande abraço!!!

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