Mais de 70% dos brasileiros ganham até 3 mínimos

Pedro do Coutto

O jornalista Clovis Rossi, Folha de São Paulo de 19 de setembro, colocou com exatidão adequada o tema que tanto envolve a concentração quanto a distribuição o de renda no Brasil. Este segundo aspecto enfatizado pelo IBGE e pela Fundação Getúlio Vargas com base na PNAD 2008 que acaba de ser concluída. Rossi sustenta, com objetividade, que a Pesquisa Nacional por Amostragem de Domicílios restringiu-se à renda proporcionada pelo trabalho, não a confrontando com a produzida pelo capital. O que seria indispensável, já que o próprio IBGE revela que a participação da massa salarial no PIB é de 39%. A do capital, portanto, 61%.O PIB brasileiro situa-se em torno de 2,4 trilhões de reais.Difícil assim avaliar-se a redução das desigualdades sociais levando em consideração apenas a fração minoritária do PIB.

Mas é difícil avaliar-se não só por isso. Se examinarmos atentamente a divisão populacional de acordo comas escalas salariais, vamos constatar, segundo o próprio IBGE, a seguinte realidade: até um salário mínimo 29,1%.De 1 a 2 mínijos 31%. De 2 a 3 pisos 11,6. Dessa forma, 71,1% dos que trabalham ganham até 3 mínimos. Uma faixa social enorme para tão pouca renda. Se incluirmos o segmento dos que recebem mensalmente entre 3 a 5 níveis básicos ( o piso é de 465 reais), chegamos à conclusão que 80,6% da força de trabalho brasileira ganha até 2325 reais. A renda média domiciliar foi calculada em 1041 reais. Ligeiro avanço em relação a 2007, pois nesse ano foi de 1024 reais. Mas cabe a pergunta: como entrou no cálculo comparativo a inflação de 4,5% ao longo dos doze meses em confronto?

Há outra indagação importante: por que o período cotejado é o de setembro de 2007 a setembro de 2008? Distorce o quadro atual. Simplesmente porque não inclui os efeitos da crise financeira internacional sobre a economia brasileira, pois a exploração, com desemprego, se deu em outubro do ano passado. Por que não comparar todo o exercício de 2007 com o de 2008? Assim, a fotografia da realidade de hoje fica para ser revelada em setembro de 2010. Em matéria de números e datas todo cuidado é pouco. A lógica é insubstituível. Existe também a questão demográfica. Pois de um ano para outro nossa população cresce 1,2%%. Nascem 2 milhões de pessoas em doze meses. Este índice deve ser acompanhado pelo mercado de emprego, na proporção de 1 para 2, já que  a força de trabalho do país é de 95 milhões, metade da população global. O país precisa de um milhão de empregos novos a cada ano. O panorama é este.

Certamente explicações e interpretações adicionais vão ser oferecidas à opinião pública através da imprensa, canal insuperável de comunicação. Mas uma coisa é certa: como destacar a queda das desigualdades sociais se 71,7% ganham de 1 a 3 mínimos? Não é fácil Além do mais, 29,1% ganham somente o mínimo legal. O governo Lula tem, na verdade, reajustado o mínimo acima da inflação oficial. Mas o processo de redistribuição de renda tem que ser global. Caso contrário, aumenta a faixa dos que recebem o piso, porém diminuem logicamente as demais. Está havendo uma transferência de renda, isso sim, do trabalho para o trabalho. Não –como deveria ser- do capital para o trabalho pela via da produtividade. Não se pode colocar em prática um processo de nivelamento por baixo. É um erro. Inclusive desestimula os mais capazes. Para concluir, 9,4% dos brasileiros não tem renda alguma. Que dizer?

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