Mais genialidade de Millôr Fernandes, o livre-pensador

Em boa hora, o comentarista Luis Paulo Azevedo nos envia mais pensamentos do genial Millôr Fernandes, um mestre multifacetado que está fazendo muita falta nesse deserto de homens e idéias em que o Brasil está se transformando.

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DICIONÁRIO DO MILLÔR

• Abacate: Com açúcar, é considerado a fruta mais doce do Brasil.
• Academia: Organização fundada, dizem, por Platão e seus amiguinhos filósofos, quando encontraram um jardim (de Academus, claro) onde podiam ensinar, sobretudo à garotada, altas ideias, e gostosas marginalidades. (Vide Sócrates. Ou não vide.)
• Ano: Trezentos e sessenta e cinco dias. E seis horas de lambuja.
• Antropometria: Se Protágoras estava certo quando dizia (num desvairado antropomorfismo) que o homem é a medida de todas as coisas, então o pênis dele era o sistema métrico.
• Crase: “A crase não foi feita pra humilhar ninguém.” (Ferreira Gullar) A crase não existe no Brasil. É uma invenção de gramáticos. Nunca ouvimos ninguém falando com crase.
• Descrente: Indivíduo que crê piamente na descrença.
• Especialista: O que sabe cada vez mais sobre cada vez menos. Com a descoberta da nanociência, infinitamente menos sobre infinitamente mais.
• Fé: Está bem que você acredite em Deus. Mas vai armado.
• Grafite: “Eu odeio grafites!” (Grafite em Roma)
• História: Uma coisa que não aconteceu contada por alguém que não estava lá.
• Ideologia: Bitola estreita para orientar o pensamento. Não existe pensador católico. Não existe pensador marxista. Existe pensador. Preso a nada. Pensa, a todo risco. A ideologia leva à idolatria, à feitura e adoração de mitos. E, finalmente, ao boquete ideológico.
• Justiça: Sistema de leis legalizando a injustiça.
• Lapidar: Verbo antigamente usado para atirar pedras em mulheres adúlteras. Hoje, desmoralizado no ocidente como punição, serve como prêmio e alto elogio: “Teu artigo, escritor, é lapidar”. Também usado nos cemitérios (nas lápides) para elogios fúnebres. Não há canalhas nos cemitérios.
• Medida: “Todo homem nasce duas doses abaixo do normal.” (Humphrey Bogart)
• Meyer: Bairro do Rio de Janeiro. Quando nasci, o Meyer era o umbigo do mundo. Vivíamos com a consciência, inconsciente, de que nunca teríamos que abandonar o bairro e a cidade (como muito mais tarde eu iria aprender que era o normal na maior parte das cidades pobres e tristes do Brasil) para sobreviver.
• Ofensas: “O perdão às ofensas é uma grande virtude.” (Moralismo tedioso de Machado de Assis. Do livro Pensamentos e reflexões de Machado de Assis)
• Pão: O pão que o diabo amassou. Expressão incompreensível pois em nenhum lugar da Bíblia ou da História se diz que o Diabo era padeiro.
• Propaganda: A madrasta da prostituição.
• Televisão: Maravilha tequinológica que levou ao extremo o barateamento da popularidade. Criando a glória prêt-à-porter.
• Variante: O gay põe sempre o carro adiante dos boys.

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