Mais histórias da política

Sebastião Nery       

Em 30, Julio Prestes e Costa Rego foram exilados para a França. Encontraram-se, numa tarde de neve, à beira do Sena. Costa Rego inconsolável:

– Olhe, Julio, eu entendo que você esteja aqui. Afinal, foi o candidato à presidencia da Republica, a oposição se rebelou e tomou o poder. Eles não iriam querer deixá-lo lá. Mas eu,  pobre jornalista e político de Alagoas, não era ameaça nenhuma. Não me conformo. 

– Não se conforma, por quê? Todos diziam que você ia ser meu ministro da Justiça. É verdade que eu nunca tinha pensado nisso.

– Ora, Julio, por que você está dizendo isso, nesta tarde tão fria, tão triste? Não custava nada ser amável agora.

E a neve continuou caindo à beira do Sena e dentro dos dois.

***
MANGABEIRA

Exilado em 30, o ex-ministro do Exterior Octavio Mangabeira estava na Bélgica, e lá encontrou  ex-chanceler da China, também exilado e vivendo como monge em um mosteiro.

Velhos conhecidos de conferencias internacionais, a conversa espichou. Mangabeira não se conformava com o exílio e  estava surpreso com a tranquilidade do chinês :

– O que se deve fazer quando a política vira e a gente perde o poder e o direito de viver na própria terra? 

– Rezar.

Quinze anos depois, Mangabeira voltava ao poder. O chinês, nunca mais. Continuou rezando.

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GILBERTO AMADO

Gilberto Amado, o escritor magnífico, antes de ir para a ONU era embaixador do Brasil no Chile em 37. Em um jantar, uma mulher chamou o Brasil de “paíszinho”, ele lhe deu um tabefe, teve que voltar logo, escoltado. Perguntaram-lhe por quê:

– O pais é muito bom. Mas não tem calado para Gilberto Amado.

De punição, Macedo Soares, ministro do Exterior,  deixou-o muito tempo sem posto. Ele não se conformava :

– Qualquer dia desses, entro no Itamaraty com uma metralhadora debaixo do braço, vou ao gabinete do ministro e tatatatatá tatatatatá, Macedo para um lado, Soares para o outro.

***
PRESTES

Siqueira Campos, chefe da conspiração em São Paulo, em 30, chamou Oscar Pedroso Horta, redator do Estado de S. Paulo:

 – Preciso renovar meus códigos de comunicação com  Prestes, que está em Buenos Aires, levar uma mapas para ele organizar os planos do levante e trazer de lá um aparelho de radio mais possante. Mas não esqueça : são mapas de guerra, privativos das Forças Armadas. Você vai cometer um crime de traição à Patria. Topa?

Pedroso Horta topou. Pegou um avião da Nirba numa praia de Santos, dormiu em Porto Alegre, desceu em Montevidéu e voou para Buenos Aires, com aquele rolo enorme de mapas debaixo do braço. Foi para o hotel, de manhã procuraria Prestes no endereço marcado.

De repente, batem na porta do quarto. Era um homenzinho muito magro, com botinas de elástico :

– Sou o comandante Luis Carlos Prestes. O senhor não é Oscar Pedroso Horta? Trouxe uma encomenda de São Paulo para mim?

– Não o conheço. Vim a negócios, não trouxe nada para ninguém. 

O homenzinho foi embora. Pedroso Horta trocou logo de hotel, pegou um táxi e foi ao endereço de Prestes. Bateu na porta. Alguem abriu. Era exatamente o homenzinho muito magro, Prestes.

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