Mais lembranças da atuação de Lacerda como governador, e depois sua prisão e cassação na vigência do AI-5

Diante do enorme e satisfatório volume de comentários sobre o que escrevi a respeito do melhor governador que o antigo Distrito Federal, (depois Estado da Guanabara) já teve, mais alguma coisa importantíssima. Inicialmente, ficou concentrado na “compreensão do que era mais importante fazer”, e fez mesmo. Mas logicamente não foi apenas o Guandu e o Rebouças, embora sejam obras eternas que mostram a visão e a obstinação de quem exerce a função de governador.

Falei em visão e obstinação, lembro logo de Lota Macedo Soares, extraordinária nessas condições. O Parque do Flamengo, chamado depreciativamente de ATERRO, na verdade, inicialmente foi apenas isso. O prefeito Alim Pedro precisava de um local para o Congresso Eucarístico, aterrou aquela parte. Que ficou abandonada até a posse de Lacerda em 1960.

Dona Lota conversou com Carlos Lacerda, obteve seu apoio incondicional, perguntou, “posso contratar o arquiteto, o paisagista Burle Marx?”, (nome nacional). Lacerda estava sentado atrás da mesa, levantou, abraçou Dona Lota, afirmou e perguntou: “Faça o que quiser, ficará pronto no nosso governo?”.

Ela e Burle Marx não saíam de lá, fizeram o “reflorestamento” arquitetônico do Rio, obra para sempre, presente que os cariocas devem a Lacerda. Pulando do Flamengo para a Quinta da Boavista, onde morou o Imperador, um dos lugares mais bonitos do Rio, que estava totalmente abandonado.

Em 2 anos passou a ser o “nosso” Central Park, uma das minhas admirações. Sempre que ia a Nova York (fui muito, não vou mais desde o 11/09) cumpria a obrigação (satisfação) de correr lá, admirar suas belezas. Entrava pela rua onde fica a estátua, (naturalmente enorme e de mármore negro) do grande José Marti, herói de Cuba, que derrotou a Espanha em 1898, conseguiu a independência do país.

Nessa luta, Cuba teve os EUA como aliado. (Ou aliados, também é válido). Os americanos construíram então a Base de Guantânamo, que mais de 60 anos depois serviria para afrontar a própria Cuba, a “guardar” prisioneiros que não podiam ser mostrados, torturadíssimos no Iraque. E de “quebra”, no Afeganistão.

A Quinta ficou admirável, um lugar para visitar e mostrar a quem quisesse conhecer as belezas do Rio. Agora, apenas 45 anos depois de Lacerda, é uma vergonha, sujeira por todos os lados, os carros que passam por lá, têm que se desviar de obstáculos e aumentam a velocidade, por causa da multidão de desocupados que vivem ali. Nenhum, nenhum governador mesmo, sequer sabia onde ficava a Quinta que servia a toda a população.

Agora, no plano (?) para a Copa de 2014 e a Olimpíada de 2016, a Quinta será transformada em local de estacionamento, fica perto do Maracanã, os que estacionarem serão transportados em minivans. Espero que realizem obras para recuperar a belíssima Quinta e revivê-la, transportá-la para a glória do passado.

Falei em trânsito, tenho que registrar e ressaltar uma das maiores realizações do seu governo: a normalização e tranquilidade das ruas. Foi o fim do abuso, do caos no trânsito, o engarrafamento de tal maneira que afetava a coletividade. Ninguém conseguia se transportar da casa para o trabalho e voltar depois de um dia cansativo.

Lacerda entregou tudo ao coronel Fontenelle, que não fez milagre, apenas trabalhava dia e noite, e principalmente CUMPRIA A LEI. Acabou com todos os ESTACIONAMENTOS PRIVATIVOS (proibidos por lei), deixou as ruas para os carros e os ônibus. Sendo que estes, só podiam andar na sua faixa, não faziam fila dupla ou tripla, como hoje.

Nem se incomodou com o protesto da Fetranspor, (o órgão mais poderoso do Rio, que manda em tudo e em todos), nem com ameaça, “o senhor não ficará muito tempo”, (ficou até o último dia do governo). As ruas, da Zona Sul a Santa Cruz, o ponto limite do rio, uma tranqüilidade.

Apenas um exemplo da capacidade de trabalho de Fontenelle, sua independência, e o apoio que recebia do governador. A Rua do Acre, (e adjacências) inferno em matéria de trânsito. Centro do Rio, engarrafado 24 horas por dia, prejudicando toda a população. Pois no Rio, “imprensado entre o mar e a montanha”, qualquer empecilho no trânsito logo se multiplica.

Os atacadistas, poderosos, carregavam e descarregavam caminhões o dia inteiro, dominavam tudo. Fontenelle chamou os diretores do órgão desses “atacadistas”, comunicou: “Os senhores têm 72 horas para se organizarem. A partir daí, carga e descarga, só entre meia noite e 6 da manhã”.

Saíram dali, pediram audiência ao governador, queriam que anulasse a determinação do Diretor do Trânsito. Resposta do governador: “Ele cumpre ordens minhas, os senhores também cumpram o determinado, que é para o bem da cidade e da população, que é o que, estou certo, os senhores também querem”.

Não houve o menor prejuízo para ninguém. Fontenelle mandou rebocar carros de vereadores parados em locais proibidos, em frente à Câmara Municipal. Não perdoou diplomatas, que tinham imunidades, mas não para burlar a lei.

Um dia Lacerda me disse, sem protesto e com satisfação: “O Fontenelle está atento para rebocar meu carro”. Pouco depois rebocava o carro de Dona Letícia, mulher do governador, nenhuma concessão ou privilégio, mesmo ou principalmente para os que estão no Poder.

Não podendo viajar para o exterior, ia muito para o interior. Como disse que tinha estilo próprio de trabalhar, fazia o seguinte. Mandava comprar 4 passagens no avião em que viajaria, (oficial nem existia), levava em média 100 processos, que precisava despachar. Com ele, a competentíssima secretária, Ruth Alverga.

Ia lendo os processos (não assinava nada sem ler, como hoje é moda ou desculpa), ia citando os processos, decidindo, gravando. Depois, Ruth Alverga “desgravava” tudo, o governador assinava, tinha ganho tempo e se livrado da chatice da viagem sem fazer nada.

Mesmo antes dele, os hospitais do Rio, considerados entre os melhores do Brasil, todos chamados de “hospitais públicos”, quer dizer, estatais. Lacerda cuidava atentamente deles, hoje estão completamente abandonados.

Os governadores que vieram depois, “não tinham tempo ou interesse” de cuidar de hospitais. Com uma ressalva: chegou a época dos “planos de saúde”, que colaboraram para o fim dos “hospitais públicos”, pois assim aumentavam o círculo e o tamanho dos seus “clientes”.

Lacerda teria lutado contra esses “planos”, que só pensam (?) em enriquecer. (Vejam o filme de Michael Moore, sobre os “planos” nos EUA, e a luta de Obama para aprovar no Congresso, a reforma dos “planos”, incluindo 50 milhões de pessoas, no mínimo).

O mandato de Lacerda acabava em 5 de dezembro, não admitia passar o cargo a Negrão, foi embora dias antes. O “vice” não quis assumir, ficou na vez o presidente da Assembleia Legislativa, que pretendendo a reeleição, não pôde assumir. O cargo ficou então com o presidente do Tribunal de Justiça, desembargador Vicente Faria Coelho.

Surgiu a Frente Ampla, manifesto lançado pelo próprio Lacerda na redação da Tribuna, o grande acontecimento da época. Mais de 400 pessoas, jornalistas do mundo todo. Eram três inimigos, (ele, JK e Jango, mais do que adversários), que se encontravam no presente, esqueciam o passado, mas seriam perseguidos no futuro.

Lacerda foi o que mais sofreu em matéria de represália. Rompido com a cúpula ditatorial, manteve a admiração da oficialidade. Mas com a Frente Ampla, mesmo esses romperam com ele, passaram a hostilizá-lo. Escreveu então um dos seus melhores artigos, que está inteirinho no título: “CARTA A EX-AMIGOS FARDADOS”.

***

PS – No dia 13 de dezembro, 8 e meia da noite, comecei a me vestir, Rosinha me perguntou: “Você chegou do jornal, vai voltar?”. Disse a ela, “você ouviu esse Ato amaldiçoado, serei preso, preciso deixar muitas coisas para amanhã”;

PS2 – Ia saindo, Rosinha me chamou, era o governador, atendi apressado, disse logo para ele: “Carlos, não posso falar muito, serei preso, você talvez fosse a única pessoa que eu atenderia”. Pergunta: “E eu?”. Resposta: “Você também será preso e cassado, eu já estou cassado”.

PS3 – Do outro lado um rugido: “Você está acostumado a adivinhar tudo, não serei preso nem cassado”. E eu respondendo e desligando: “Carlos, aconselho que enquanto não for preso, releia esse AI-5 e constate que a ditadura verdadeira começa hoje”.

PS4 – O primeiro a ser preso não fui eu, e sim Osvaldo Peralva, editor do Correio da Manhã, maravilhosa figura, comunista de morar na União Soviética, rompeu, escreveu um livro lancinante e inacreditável, “O Retrato”.

PS5 – No dia seguinte, bem cedo, chegava um novo preso, Carlos Lacerda. Me abraçou, disse, “você acertou mais uma vez, só que pela metade, não serei cassado”. E este repórter: “Prenderam você, estavam com saudades”. Foi cassado no dia 30 de dezembro, viajou para a Europa no dia 2 de janeiro, arranjou um jeito de, generosamente, ir se despedir de Mario Lago, Peralva e este repórter.

PS6 – Tenho que terminar. Viajou para a Europa, onde ficou anos, sendo que 2 em Milão. Voltou, se confinou na “Nova Fronteira”, não aparecia, não falava com ninguém. Morreu inesperadamente, numa “barbeiragem” médica. Mas não deixou de pensar, esperar e acreditar que seria presidente.

Não deixem de ler amanhã:
Mais uma análise corajosa, elucidativa (clara)
de Jorge Folena, sobre o assunto do momento, royalties
do petróleo e do pré-sal. Com comentários
e bastidores deste repórter.

This entry was posted in Sem categoria. Bookmark the permalink.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *