Mandela: os elogios dos sem-vergonha

Georges Gastaud

Lenine dizia que a maneira com que a burguesia consegue sujar os grandes revolucionários consiste em incensá-los a título póstumo depois de os ter perseguido durante toda a sua vida. É o que acontece hoje. A burguesia mundial incensa Mandela depois de o ter aprisionado durante 27 anos. Ela quer esconder que os grandes estados capitalistas, França inclusive, se desinteressaram de Mandela durante décadas. Sem vergonha, o grande patronato do nosso país importava os diamantes e as laranjas sul-africanos manchados com o sangue do apartheid.

Eis porque, não dispondo senão de dois minutos, recordarei três verdades censuradas por aqueles que não veem em Mandela senão o grande conciliador que, a seus olhos, teria impedido a transição democrática na África do Sul de voltar-se para o que a burguesia mundial mais temia: uma África do Sul socialista. Esta está infelizmente por realizar, para reduzir as enormes desigualdades que subsistem hoje entre a burguesia branca ou negra de Pretória e o proletariado miserável de Soweto.

Primeira verdade censurada: a luta antiapartheid foi conduzida de A a Z pelo Partido Comunista da África do Sul e pelo sindicato de classe Cosatu. Mandela foi membro do PC sul-africano que, pela primeira vez, levantou a bandeira da revolta negra e anticolonial. Honra a Mandela, mas honra também a Chris Hani , dirigente negro do PC sul-africano, assassinado pelo regime racista no princípio dos anos 90. Quando haverá uma praça Chris Hani em Lens e nas cidades dos arredores?

Segunda verdade: o regime do apartheid e todos os regimes gorilas que o cercavam, o colonialismo dos fascistas portugueses em Angola e Moçambique, países reduzidos ao estado de ghettos na Rodésia e na Namíbia, nunca teria caído, dado o apoio que recebia de Reagan, de Thatcher e de Israel, se Fidel Castro não houvesse enviado à África um contingente militar internacionalista. Foi em Cuito Cuanavale , em Angola, que o exército cubano esmagou o exército do apartheid e foi só a partir desta data que a parte menos bárbara do regime racista aceitou tirar Mandela da sua prisão. O objectivo era sacrificar o apartheid para salvar a propriedade capitalista dos meios de produção, que continua hoje sempre em vigor, apesar de certos progressos democráticos evidentes mas frágeis. Honra a Cuba socialista cujo presidente era hoje o dirigente mais autorizado a prestar a Mandela uma homenagem sincera.

Terceira verdade: em França foram os comunistas, a começar por Georges Marchais, que apoiaram a luta antiapartheid enquanto outros não se interessavam senão pelo anticomunista Walesa ou apresentavam os talibans, atacando o regime laico de Cabul, como “combatentes da liberdade”.

VITÓRIA INCOMPLETA

Termino dizendo, com Marwan Bargouti, dirigente do Fatah aprisionado em Israel, que a vitória de Mandela permanecerá incompleta enquanto o povo palestino, com o qual Nelson era solidário, for oprimido. A luta antiapartheid não terá sido vitória senão no dia em que, na África do Sul, a polícia do regime atual cessar de atirar sobre os mineiros negros em greve e quando, em França, o poder instituído cessar de derramar lágrimas de crocodilo enquanto expulsa crianças sem documentos à saída das escolas com o único objetivo de fazer esquecer a renúncia a mudar a sociedade.

Mandela, Chris Hani, vosso combate é mais vital do que nunca em vossa pátria, mas também, infelizmente, na nossa!

(artigo enviado por Valter Xéu, do site Pátria Latina)

8 thoughts on “Mandela: os elogios dos sem-vergonha

  1. Quanto ao assassinato do Chris Hani, pessoalmente não creio que tenha sido o regime institucional racista que se preparava para deixar o poder, porque o imigrante polaco que o assassinou e seu cúmplice eram indivíduos racistas fanáticos e manjados que utilizaram automóvel legalizado que uma branca “boer” identificou o número e relatou à polícia. Um cara como o Chris não devia estar exposto e sem segurança naquele período de transição. Viveu anos na clandestinidade e abriu a guarda no finalzinho. Foi o que se pode chamar um vacilo imperdoável dele e dos seus íntimos. Gente do sistema repressivo anterior não usaria um carro quente. Seria muito primarismo e arriscado naquela altura dos acontecimentos. Os dois tiveram as penas de morte convertidas em perpétua e seguem presos desde 1993.

  2. Acredite se quiser: Fidel é um amor.

    Quanto ao apartheid, o comunismo, desde o começo, como sempre, aproveita-se daquilo que é óbvio e aproveita de tudo aquilo que toda a sociedade condena.
    Apossar das causas é o primeiro passo para depois apossar do governo para sempre. Tática velha.

    E, os próprios comunistinhas daqui sabem o que é isso, por isso morar em Cuba, aquela maravilha, nem pensar.

    O dia em que nenhum cerumano acreditar no outro, o mundo vai melhorar.

    Enquanto isso, valter cheú …..

  3. Melhorando o parágrafo: Quanto ao apartheid, o comunismo, desde o começo, como sempre, aproveita-se daquilo que é óbvio e de tudo aquilo que toda a sociedade condena.
    Sequestrar causas humanitárias e apossar delas é o primeiro passo para depois apossar do governo para sempre. Tática velha comunista. Depois, dá no que dá. Sabemos.

  4. É Jango, é Jango, é Jango
    É o Jango Goulart!
    Foi exatamente Jango quem deu novos rumos para o Brasil. Depois de Jango, e graças a ele, o nosso país é hoje socialista. Uma nação esquerdista.
    Não fosse a grande coragem de Jango, ainda estaríamos nos tempos da famigerada UDN.
    O Brasil pode ser avaliado em duas fases: Antes e depois de Jango. Não tem volta.

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