Mangueira, absoluta na emoção, arrebatou o povo no desfile

Pedro do Coutto

Mangueira, absoluta na emoção, arrebatou o povo no desfile. Escrevo este artigo na noite de terça-feira, antes portanto do julgamento oficial das escolas de samba. Não importa para o que vou dizer. Em matéria de emoção, nenhuma outra superou a estação primeira de Cartola, de tantas tradições e vitórias.

 Todo mundo te conhece ao longe, diz o samba de 56, pelo som de teus tamborins, pelo rufar de seu tambor. Estou à vontade para falar porque desde a década de 60 torço pelo Salgueiro. Mas a Mangueira conseguiu em 2012, o que o Salgueiro tentou, sem êxito, em 72. O povo cantou junto com a escola, na parada de dois minutos da bateria, sem atravessar o samba. Bela e marcante atuação da rainha da bateria, Renata Santos, naquele momento comandando o espetáculo com sua dança segurando o ritmo e o devolvendo à arte, num dos grandes instantes da noite encantada.

Espetáculo encantado, sim. Porque cada escola acrescentou muito à sua história narrando a história dos outros, do país e do mundo. Ficará para sempre na memória do carnaval carioca. Do nosso carnaval só não. Do carnaval brasileiro. Dos carnavais do mundo.

A televisão lança as imagens e os sons para todo o país e para diversos outros países. Vale acentuar a cobertura de qualidade excepcional da Rede Globo.Este aspecto é responsável é responsável tanto pela nacionalização quanto pela internacionalização das noites mágicas. Pela tela, o espetáculo ganha uma conotação universal. Daí, claro, de forma lógica, ele, de ano para ano, vem se transformando num show de 50 mil figurantes no palco, além da presença de 70 mil nas arquibancadas e camarotes de Niemeyer.

Qual espetáculo, em todo o mundo, reúne em cena 50 mil protagonistas? Nenhum. Cinquenta mil rostos na multidão e faces consagradas passaram pelo sambódromo do Rio. A emoção veio junto com todos eles. Mas a proporcionada pela Mangueira tornou-se insuperável.

Toquei no tema no início, acentuando que ela conseguiu, exatos 40 anos depois, o que o Salgueiro do grande Fernando Pamplona tentou, sem êxito, em 72. O samba, romântico, era muito bonito, de autoria de Zuzuca: em noite linda, em noite bela. Homenageava inclusive a Mangueira, responsável pelo batismo da escola da Tijuca. Pamplona que, junto com Arlindo Rodrigues, Maria Augusta e Joãozinho Trinta, que na época integrava a equipe, mudou o carnaval com a deslumbrante Chica da Silva, em 63, confiou na plateia. Mandou desligar o som na Presidente Vargas, certo de que o povo cantaria o samba. Enganou-se.

O povo, geralmente, não volta para o refrão no andamento. Foi um desastre. O Salgueiro atravessou a música.Quatro décadas depois, com a Mangueira 2012, foi completamente diferente. Desligado o som durante dois longos minutos, as arquibancadas ergueram a voz, não saíram do ritmo, e substituíram os instrumentos pela voz, romantizando ainda mais a poesia da letra. Foi um momento altíssimo, inesquecível da arte e de sua tradução coletiva. Coletiva. Porque, claro, nem todos os que cantaram eram torcedores do mundo de zinco de Wiliam Batista, composição de 53, mais uma entre tantas que cantaram eternizando a primeira Estação da zona norte do Rio.

Entre os que falaram de amor a Mangueira estão Noel Rosa, Cartola, Paulinho da Viola. Não é preciso dizer mais nada. Sua história – bela história – é eterna. Primeira campeã do sambódromo, em 84, a saga de Arlindo, Viola, Cartola e Nelson Sargento (este permanece entre nós), a Mangueira iluminou o carnaval de 2012. Pode não ter conquistado o título – não sei – mas conquistou a emoção e o povo.

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