Mano Menezes entre a teoria tática e a realidade prática

Pedro do Coutto

O seminário promovido pelo Globo sobre a Copa de 2014 montou segunda-feira, no Hotel Windsor Copacabana, painel de debates reunindo o atual treinador da Seleção Brasileira, Mano Menezes, e os ex-técnicos Zagalo e Carlos Alberto Parreira. Ótima reportagem de Ary Cunha conduziu o tema ao alto da primeira página da edição do dia 10. Mas debate não houve.
Menezes expôs esquemas táticos, dois previamente traçados no papel, Zagalo e Parreira concordarem em todos os pontos. Um colocado pelo veterano ponta-esquerda não foi rebatido nem endossado: Ronaldinho Gaúcho não tem condições de integrar a equipe. Inclusive não só em relação a daqui a três anos, mas agora mesmo, 2011, na Copa América, julho na Argentina. Mas esta é outra questão.

Mano Menezes teorizou de forma tão acentuada a respeito das alternativas que deseja colocar em campo, que me lembrei da frase clássica do velho senador de Minas, Benedito Valadares. Eis a frase: a teoria na prática é outra coisa. Totalmente certo. Sob o ângulo da ponta-direita, a frase, da década de 40, seria repetida em 58, dez anos depois, por Garrincha na Copa da Suécia, em que Zagalo desempenhou papel tático da maior importância, tornando-se o terceiro homem no meio campo ao lado de Zito (do Santos) e Didi. Estou fazendo a ressalva para que leitores mais jovens não confundam Zito com Zico, do Flamengo. Ao ouvir instruções táticas do técnico Feola, Garrincha, o grande herói do esporte brasileiro, presença decisiva nas jornadas de 58 e 62, indagou: o senhor já combinou tudo isso com o adversário?

De Valadares a Garrincha, realidade balança entre a teoria e a prática. Não apenas no futebol. Sobretudo na economia no caso da inflação e das soluções (no papel) para contê-la. O técnico disse que o escrete ou vai atuar na base 4-3-1-2, ou então a partir de um esquema de 4-3-3. Sempre portanto, uma linha de quatro zagueiros. Mano Menezes fez a firmação para concordar previamente com Zagalo e Parreira. Pois – frisou – na verdade Menezes arma sempre 4-4-2. Quatro atrás, quatro no meio, dois na frente. Júlio Cesar, aliás, como não pode deixar de ser, na meta para operar os milagres que só os goleiros são capazes de fazer.

O fato essencial é que a armação tática é complexa. Depende da forma de jogar dos adversários. Vamos supor que nossa armação seja 4-4-2. Uma armação defensiva. E o time contrário venha com 5-4-1, atestando ser tecnicamente inferior. O que irá suceder?

Espaços vazios enormes no gramado, transformando o desequilíbrio em equilíbrio. Menezes, diante da alternativa, teria que mudar o esquema e avançar. Portanto, a hipótese, bastante viável, e que antes já sucedeu inúmeras vezes no futebol, demonstra que estilos táticos não podem ser rígidos, tampouco imitáveis ou inflexíveis.

Quantas vezes nas histórias de bola as partidas começam de um jeito e terminam de outro? Quantas vezes craques extraordinários em suas equipes não repetem suas atuações na seleção? Eis, por exemplo, os casos de Zico do Flamengo, Cristiano Ronaldo no time de Portugal, de Lionel Messi na seleção argentina. Há muitos outros na estrada da história. É só iluminar o caminho e a memória. A diferença de jogar num time e num selecionado oscila no meio de um abismo. Nesse abismo os projetos táticos desaparecem. No papel, na teoria, são uma coisa. Na realidade passam a ser outra. Até porque o futebol é dinâmico e os projetos arquitetados não se movem. Ficam nas pranchetas.

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