Mario Palmerio e os asilados

Sebastião Nery

Mario Palmerio, embaixador do Brasil em Assunção, escrevendo seus romances e compondo belas guarânias (“Saudade” só não é mais popular lá do que o hino nacional do Paraguai), fez da embaixada um refúgio de políticos e intelectuais da oposição. Uma tarde, chega o então ministro do Exterior Sapeña Pastor :

– Senhor embaixador Dom Palmerio, nosso pais deseja e precisa manter as melhores relações com o Brasil. Mas o senhor tem aqui na embaixada, exilados, mais de 40 inimigos do governo paraguaio e isso está causando os maiores problemas para nós. O senhor não podia tomar uma providencia para ajudar nosso governo?

– Pois não, senhor ministro, já estou tomando. Vamos lá em cima, no segundo andar, para o senhor ver a beleza de apartamentos que estou preparando para asilados de luxo.

– Mas, Dom Palmerio, esta é uma brincadeira de mau gosto.

– Não é não, Dom Pastor. O general Stroessner, hoje seu presidente, em outros tempos já foi hóspede da nossa embaixada. O senhor, em qualquer eventualidade, seja nosso hóspede.

O ministro continuou preferindo as guarânias de Palmério.

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JANIO

Cassado na primeira lista do golpe de 64, Jânio passou longos períodos no exterior, sobretudo na sua Londres querida. Tinha horror de encontrar brasileiro. Estava caminhando na rua com a filha Tutu e o assessor Ruy Nogueira Neto, um eleitor brasileiro o viu:

– Presidente, o senhor sabe quem sou eu?

Jânio ficou com ódio, arregalou os olhos :

– Ora, meu caro, se você, que é você, não sabe quem você é, logo eu é que teria de sabê-lo?

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JURACY

Embaixador do Brasil em Washington no governo Castelo Branco, em 65 Juracy Magalhães recebeu telegrama chamando-o urgente para assumir o ministério da Justiça. Telegrama na mão, Juracy recebeu os jornalistas e um fotógrafo, para deixar uma foto na galeria dos ex-embaixadores. Mas que foto? O fotógrafo sugeria :

– Com a mão no peito, embaixador.

– Não. Napoleão já tirou assim.

– Então, com a mão no bolso.

– Não quero. Olhe o Joaquim Nabuco. Com a mão no bolso.

– De braços estendidos.

– Também não. O Amaral Peixoto já tirou assim.

– Então, embaixador, sem nada. Só o rosto.

– E você pensa que meu rosto é nada? Me respeite!

O fotógrafo bateu. A foto está lá. Só o rosto. A foto do nada.

 

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