Marketing sem conteúdo não funciona na política

Pedro do Coutto

Reportagem de Cassio Bruno e Cristina Tardáguila, O Globo edição de segunda-feira, 8, com base nos dados armazenados pelo Ibope e Datafolha, revela a forte queda registrada na popularidade da presidente Dilma Rousseff, que foi parar numa aprovação de 12% e numa rejeição de 64 pontos. Em junho de 2013 o índice positivo de seu governo atingia 55 pontos e o negativo situava-se em 13%. Basicamente era exatamente o contrário no panorama de hoje. Isso prova mais uma vez que o marketing, por si só, não funciona campo político, tão pouco influi no julgamento da opinião pública. Porque se funcionasse não teria havido o declínio que ocorreu, sobretudo depois da sua reeleição em outubro de 2014.

Marketing não faltou. Faltaram, isso sim, ações concretas voltadas para o interesse e os anseios coletivos da sociedade. Recuperar o prestígio perdido não será resolvido com atitudes simpáticas como a de andar de bicicleta em Brasília. E sim com a mudança de rumos que possa produzir reflexos positivos para a sociedade.

O fenômeno do declínio não se restringe somente à presidente da República. Não. É o caso também do governador Geraldo Alckmin que desceu de uma aprovação de 52 para a atual de 38% . É o caso também do prefeito Eduardo Paes que recuou de 50 para 37 pontos. Maior que a de Eduardo Paes foi o recuo de Fernando Haddad cuja aprovação recuou de 31 para 20% e cuja rejeição subiu de 14 para 44 pontos.

DIVULGAÇÃO POLÍTICA

Repito: se a publicidade oficial funcionasse isoladamente Datafolha e IBOPE não teriam chegado aos índices destacados pela reportagem de O Globo. Fundamentalmente é essencial não confundir publicidade comercial com divulgação política. A publicidade tem base, é claro e natural na compra de espaços na comunicação. A divulgação política é gratuita e depende da qualidade dos fatos que levam à sua geração.

A população, por intuição ou interpretação, sente que se alguém paga pela veiculação de determinada mensagem e determinado espaço, claro que só poderá destacar pontos a seu favor. Este aspecto descredencia, para o poder público, aquilo que a publicidade representa de apelo para as compras comerciais. Não pode haver isenção em mensagens pagas, pois ninguém será capaz de veicular algo contra si próprio, daí a força da divulgação espontânea em torno dos fatos políticos e econômicos, na qual não existe interferência de nenhuma parte.

Neste caso não se pode incluir sempre matérias divulgadas nas redes sociais , pois estas não estão sujeitas à apreciação de editores. Cada um é editor de si mesmo. Para se ter ideia da importância seletiva dos editores, vou contar um caso ocorrido comigo no antigo Correio da Manhã. Na fase final do jornal, antes de seu arrendamento ao grupo Maurício Alencar, vinculado na época ao ministro dos Transportes Mário Andreazza, eu editava as páginas políticas. Estávamos em dezembro de 68 quando da edição do trágico ato Institucional nº5. Um repórter, que trabalhava também no setor da Alfândega da Receita Federal, não sei por que, detestava o então ministro da Fazenda Delfim Netto.

Então no meio da crise político militar que se ampliava, ele me apresenta uma matéria dizendo absurdamente que o governo, que havia lançado às favas os escrúpulos da consciência, iria decretar a cassação do ministro Delfim Netto e a suspentão de seus direitos políticos. Ora, se eu publicasse tal matéria, obviamente o repórter e eu seríamos demitidos no dia seguinte. Daí a importância do trabalho dos editores para impedir ataques assim à veracidade dos fatos. Ao contrário de ser cassado, Delfim Neto foi mantido no posto pelo general Garrastazu Médici que sucedeu a Costa e Silva no poder militar.

DECLÍNIO DE DILMA

Mas retomando o tema central do artigo, deve-se observar não faltarem motivos para o declínio de Dilma Rousseff. Ela assumiu compromissos na campanha vitoriosa nas urnas e não os cumpriu a partir logo do início de seu segundo mandato. Disse uma coisa e passou a fazer outra. Tenho certeza que grande parte de seu eleitorado passou a sentir o impulso de buscar de volta o voto que lhe destinou. Porém, como isso é impossível, eleitores e eleitoras transferiram esse desejo para projetá-lo no campo da rejeição. De promessas a população já está repleta. Deseja avanços concretos. Muito mais conteúdo e menos marketing. Sozinho, o marketing não é nada em matéria de política. Ele pode destacar o que é feito, mas não tem capacidade para hipnotizar o senso coletivo e trocar a lógica pela mágica.

3 thoughts on “Marketing sem conteúdo não funciona na política

  1. O grande e experiente Sr. PEDRO DO COUTTO nos mostra que o Marketing Político sem conteúdo não funciona na Política, e eu ouso acrescentar porém, que mal não faz, sempre ajuda um pouco.
    O PT-Base Aliada, optou claramente por uma Política Econômica KEYNESIANA INTERVENCIONISTA, na qual o motor principal da Economia é a DEMANDA AGREGADA ( crescimento do Mercado Interno via CRÉDITO e aumento da MASSA SALARIAL), que se traduz por BAIXO DESEMPREGO ou DESEMPREGO MENOR QUE ANTES. Ficam como variáveis secundárias o Deficit, Dívida Pública e até a Inflação. Esgotado esse Modelo por saturação do CRÉDITO e SALÁRIO MÍNIMO no limite em relação a PRODUTIVIDADE, em DILMA II, teve que mudar para o Modelo Econômico que os Jornalistas chamam Neo-Liberal, mas que na verdade é o NEO-CLÁSSICO onde o objetivo principal é o EQUILÍBRIO MACRO-ECONÔMICO ( TRIPÉ), (redução dos Deficits Fiscal e do Balanço de Pagamentos, redução ou contenção do Endividamento Público, etc), ficando como variável secundária o DESEMPREGO. Só que quando se esgota o Modelo KEYNESIANO INTERVENCIONISTA e se parte para o MODELO NEO-CLÁSSICO, cujo objetivo é fazer a Economia voltar a crescer, antes de “melhorar” ainda “vai piorar”, e nessa fase que dura +- 2 anos, não há Marketing Político que dê jeito. Abrs.

  2. IBGE divulgou hoje cedo a inflação (IPCA) do mês de maio: 0,74%.

    Pelo histórico em 2015 temos:

    janeiro:……….1,24%
    fevereiro:…….1,22%
    março:………..1,32%
    abril:…………..0,71%
    maio:………….0,74%

    Então a inflação acumulada em 2015 é de: [(1,0124 x 1,0122 x 1,0132 x 1,0071 x 1,0074) -1] x 100 = 5,34%.
    A inflação acumulada em doze meses, isto é, anualizada está em 8,47%. Ou seja, 1,97% acima da banda superior de controle do BACEN que é de 6,5%.

    O preço da energia elétrica cuja variação foi de 2,27% em abril, continua sendo um dos destaques do IPCA. No ano a energia elétrica acumula inflação de 41,94% e em doze meses 58,47%.

    O IPCA acumulado em doze meses (anualizado) e segmentado em grupos ficou assim:

    GRUPOS DE DESPESA………..PARTICIPAÇÃO PERCENTUAL
    ————————————————————————————-
    Alimentação e bebidas……………………………………2,20%
    Habitação………………………………………………………2,52%
    Artigos de residência………………………………………0,19%
    Vestuário……………………………………………………….0,22%
    Transportes……………………………………………………1,31%
    Saúde e cuidados pessoais……………………………..0,83%
    Despesas pessoais………………………………………….0,86%
    Educação……………………………………………………….0,39%
    Comunicação………………………………………………..-0,05%
    ————————————————————————————-
    Índice geral……………………………………………………8,47%

    O IPCA também pode ser decomposto de outra forma, por exemplo em três grupos: o de bens, o de serviços e de preços monitorados.

    Neste sentido a variação de preços acumulada em doze meses e segmentada por estes três grupos ficou assim:

    Grupo de despesa………….Variação Individual x Peso…………Variação Agrupada

    Bens Duráveis (1)………………………..3,09% x 8,98%………………0,27%
    Bens Semiduráveis (2)…………………..3,77% x 8,03%……………..0,30%
    Bens Não duráveis (3)……………………7,27% x 23,61%…………..1,71%
    Serviços (4)…………………………………8,22% x 35,61%……………..2,92%
    Itens monitorados (5)…………………….14,11% x 23,77%…………3,35%
    ————————————————————————————————
    Variação total……………………………………………………………………8,55%

    Na decomposição do IPCA que em doze meses atingiu 8,47% de alta (8,55% na distribuição estatística do Banco Central), a inflação do grupo serviços acumulou alta de 8,22%. Destaque para psicólogos com alta de 11,84%, tratamento de animais com 12,96% de alta, alimentação fora de domicílio com alta de 10,50%, clube com alta de 11,80%, revelação e cópia com 11,11% de alta, entre outros.

    Já os preços monitorados (elementos de despesas com preços administrados pelo governo) a alta acumulada chegou a 14,11%.

    Esta seria a nossa inflação (14,11%), caso o IPCA fosse formado apenas por preços administrados.

    Destaque para a energia elétrica residencial com alta acumulada de 58,47%, metrô com alta de 15,40%, jogos de azar com 16,45% de alta, óleo diesel com 12,25% de alta, gasolina com alta de 10,92%, ônibus urbano com 13,32% de alta, trem com alta de 13,71% e ônibus intermunicipal com 10,85% de alta, entre outros.

    Fonte: IBGE e Banco Central do Brasil.

    (1):Mobiliário, aparelhos eletroeletrônicos, jóias e bijuterias, automóveis novo e usado, motocicleta e outros.

    (2):Utensílios e enfeites, cama, mesa e banho, roupas, calçados e acessórios, tecidos e armarinho, óculos e lentes e outros.

    (3):Alimentação e bebidas, artigos de limpeza, produtos farmacêuticos, higiene pessoal, fumo, leitura e outros.

    (4):Consertos e manutenção, pintura de veículo, serviços de saúde, serviços pessoais e cursos.

    (5):Serviços públicos e residenciais, transporte público, combustíveis, plano de saúde, pedágio, licenciamento.

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