Memórias de correspondente de guerra

Sebastião Nery

Queríamos ver o deserto do Saara, mas a guerra estava terrível.  Era na Argélia, ainda colônia da França. No começo de 58, a Frente de Liberação nacional, que comandava a luta pela independência argelina, já tinha lançado a “Batalha de Argel”, levando os combates para dentro da capital, e o governo francês não deixava que os jornalistas saíssem de Argel.

Depois de muito pedir, conseguimos um jipe, um jipão de guerra, para ir ao interior, dar uma volta pelo deserto. Com menos de 50 quilômetros, um vento morno, quente, começou a soprar furioso, com as ondas amarelas da areia enlouquecida batendo nos cinco e mais o motorista, empilhados no jipe aberto, sem lona e sem capota. Um horror.

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PASCAL E A GUERRA

Pascal, do ‘‘L’Humanité,” Jornal do Partido Comunista Francês, onde eu fazia um estágio de férias e de bagrinho, era bem mais velho, vinha da Guerra da Coréia e sempre xingava “os árabes” e “os franceses”. Achei injusto.

Para mim, a culpa da guerra estúpida era do governo francês e não dos dois povos. A França sustentava uma guerra perdida, que a FLN argelina acabou ganhando e mandando o exército francês de volta para Paris, contra a vontade de seus generais insubordinados, numa decisão valente de De Gaulle.

Pascal explicou, com ar de professor cansado de guerra.

– Nery, na guerra não se xinga no particular. Só no geral. Não podemos saber se este jipe é mesmo francês ou argelino. Pode haver um gravador enfiado aqui dentro e não voltarei nunca mais para Paris.

Voltou. Voltamos. Mas só depois da perna voadora.

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O VINHO DO MEDO

Como fazia toda manhã e toda tarde, Pascal ficava no hotel lendo os jornais, comunicados e relatórios da guerra, bebendo vinho (conhaque só de noite, muito conhaque), telefonando para a redação, em Paris, e escrevendo.

E me mandava “ver o povo, as ruas, o que estava acontecendo” e, às vezes, pegar informações reservadas com jornalistas comunistas de Argel, amigos e companheiros dele de Partido Comunista, e outras guerras.

Mas ninguém é de ferro, muito menos numa guerra. O perigo nos rondava a cada minuto. Não era coisa longe, dos outros, nas manchetes dos jornais, como hoje nos flagrantes das televisões. Todo dia havia uma loucura, por ali, onde estávamos, no centro de Argel, bem perto de nós.

O medo é alcoólatra. Por isso Pascal bebia tanto vinho. Aprendi. Quando o coração batia mais e as pernas tremiam, entrava em um bar, tomava um “demi-see”, copinho de vinho branco, ou um copão de tinto forte argelino.

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A PERNA VOADORA

Um dia ia saindo do bar, ouvi um estrondo fantástico, escureceu tudo, faltou ar, tive a impressão de que ia cair, encostei na parede. Pessoas voaram jogadas da rua, como sacos, deslocadas pela explosão, caíram a meus pés.

E, de repente, vi uma coisa estranha, longa e amarelada, voando em voltas. No céu. Veio vindo, descendo e rolando e caindo, até bater no chão, bem em frente. Era uma perna. Longa perna voadora, com bota e tudo.

A perna era de um dos principais generais franceses na guerra da Argélia. Os argelinos haviam feito uma proeza, um ataque sensacional. Quando o jipe do comando francês, com toda segurança, com outros jipes na frente e atrás, passava ali em frente, o chão se abriu e uma bomba poderosa jogou tudo para o alto. Morreram todos do jipe.

Corri para o hotel e Pascal, alegre, feliz, eufórico, me deu um abraço e argelinamente emocionado e comunistamente vingado, embora fosse francês, escreveu tudo com uns goles a mais, contou tudo, com todos os detalhes.

Afinal, ele tinha ‘‘visto” tudo. O bagrinho é os olhos do redator. No dia seguinte, Pascal interrompeu sua guerra e eu a minha. E voltamos para Paris, onde Deus, que mora no céu e trabalha em Roma, passa os fins de semana.

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