Memórias de um tempo em que Brasília ainda era apenas um sonho de JK

Construção de Brasília custou US$ 1,5 bilhão em valor de 1960 ...

Kubitschek  e Lúcio Costa, o urbanista que projetou a nova capital

Sebastião Nery

No dia 18 de abril de 1956, um ano depois do comício de Jataí, em Goiás, em que prometeu fazer Brasília e transferir a capital para o centro do país, Juscelino, presidente, ia para Manaus com mais de 70 pessoas em dois aviões. Estavam o presidente, o marechal Lott ministro da Guerra, e outros ministros. Ele anunciou que ia descer em Goiânia para assinar a mensagem ao Congresso propondo a construção da capital.

No aeroporto, o governador Juca Ludovico e uma multidão. O avião não conseguiu descer. Rodou uma hora e não desceu. Contou nas memórias: “De repente apareceu uma nuvem branca, densa,com cara de ameaça”.

ASSINOU NO BOTEQUIM – Desceram em Anápolis, ali perto. A única coisa aberta era um botequim. E às 4h30 da madrugada, no botequim, presentes 25 pessoas, Juscelino assinou a mensagem propondo a criação de Brasília.

Diz-se por aí, inclusive na TV Senado, que a aprovação foi unânime. Nada disso. Uma pauleira. De 5 de abril a 16 de setembro de 56 – cinco meses – a imprensa do Rio fez uma campanha brutal contra. O “Globo”, o “Correio da Manhã”, o “Diário de Notícias”, até o “Jornal do Brasil”, que a apoiou na constituinte de 1891, e o “Estado de S. Paulo”, combateram muito. E a Light, o “polvo canadense”, financiando a campanha.

A votação no Congresso foi dura. Nas comissões da Câmara, nunca houve mais de três votos de diferença. No plenário, quem desempatou a favor de Brasília foi o PSP de Adhemar de Barros, graças ao trabalho de seu líder, o bravo e universal deputado Neiva Moreira, depois do PDT do Maranhão.

ENCHEU DOIS AVIÕES – Aprovada a construção no Congresso em 19 de setembro de 56, JK não perdeu tempo. No dia 2 de outubro, encheu dois aviões da FAB com Lucio Costa, Oscar Niemeyer, Israel Pinheiro, o ministro da Guerra marechal Lott, o chefe da Casa Militar Nelson de Mello, o ministro de Obras Públicas Lúcio Meira, outros, desceram no aeroporto improvisado do marechal José Pessoa, onde hoje é a rodoferroviária.

E Juscelino fez o histórico discurso, escrito pelo poeta Augusto Frederico Schmidt, cujo começo está gravado em mármore na praça dos Três Poderes:

– “Deste Planalto Central, nesta solidão que em breve será o cérebro das decisões nacionais … Estamos aqui para construir a capital administrativa do país e o novo pólo de desenvolvimento do Planalto Central e do Centro-Oeste”.

EM CIMA DO NADA – Perdi a cena. O “Jornal do Povo”, por pobreza, não me mandou. Mas, duas semanas depois, no dia 18, fui com outros jornalistas em um aviãozinho do governo de Minas. Juscelino começava a plantar Brasília em cima do nada. Apenas o cerrado verde sem fim e o horizonte infinito. O marechal Lott ficava de braços cruzados olhando o planalto imenso:

– Como é que vai ser, general?

– Não sei.

Juscelino, Lúcio Costa, Oscar Niemeyer, Israel Pinheiro, sabiam.

Nos meses de outubro, novembro, dezembro, no mínimo cinquenta voos saíram do Rio ou de Belo Horizonte levando senadores, deputados, jornalistas, empresários. Queriam ver para crer. A maioria, para não crer.

UISQUE NA CABANA – Quando cheguei no dia 18, Niemeyer estava lá. Tinha ido no dia 2, cheio de medo. Não gostava de avião. Trabalhavam como mouros. À noite bebiam uísque numa cabana do Núcleo Bandeirantes, que depois virou o Hotel Rio de Janeiro, onde tantas vezes nos hospedávamos.

Niemeyer e Juca Chaves, dono do lendário Juca’s Bar, no hotel Ambassador, no centro do Rio, do pai do saudoso Márcio Moreira Alves, fizeram um empréstimo de 500 contos no Banco Minas Gerais, com Maurício Chagas Bicalho, e construíram o Catetinho, para hospedar JK.

Em novembro, Juscelino voava com um grupo de jornalistas e falava sobre o lago Paranoá, a ser represado. Um jornalista mineiro não acreditou:

– Presidente, não há água para encher esse lago de que o senhor fala.

– Não tem importância. Se não houver água, encheremos com cuspe.

FRASE DE BALBINO – Alguns iam, se empolgavam. O governador da Bahia Antonio Balbino foi nos primeiros dias e fez uma frase manchete da “Última Hora”:

– “Brasília vai ser construída porque Juscelino quer e porque o povo brasileiro quer, apesar dos que não querem”.

Outros não iam, não viam e não gostavam. O “Jornal do Brasil” dizia que não ia acontecer nada, que era “uma paranóia de Juscelino”. Roberto Campos deu entrevista ao “Globo” dizendo que era uma irresponsabilidade e que os americanos eram contra.

O RICO CERRADO – O resto a nação sabe. Brasília está aí e o Brasil Central, o Brasil do Norte-Centro-Oeste, conquistado e unificado por Brasília, é o responsável hoje pela produção e exportação agro pecuária nacional. E Juscelino está lá, de pé, mão direita para o infinito, vendo a capital que há 60 anos nasceu de seu sonho e da utopia e grandeza de tantos. 

A Historia é isso. Quem abre caminhos corre o risco das cobras, mas é aos pés dos que vão na frente que as borboletas se levantam. 

7 thoughts on “Memórias de um tempo em que Brasília ainda era apenas um sonho de JK

  1. Brasília de hoje
    Elenco.
    Roteiro: De pizza a impeachment.

    Cena: Ur-Fascismo.
    ( voci del gergo di questo untuoso reame ).

    Dois anos quase, serviram-se, pra valer…

    Tempo em que um cidadão vai ao cartório eleitoral regularizar falta em votação e vê-se obrigado a tocar piano, tirar foto, ter seu título de eleitor oficial tomado sem justificativa, e recebe um naco de papel tosco…

    Quando sepultarem esse governo medíocre que pelo menos devolvam o título de eleitor.

    Não somos baratas, somos cidadãos brasileiros.

  2. O JK teve um sonho e o país ficou um pesadelo: longe de tudo, a arquitetura de Brasília é horrível! Onde já se viu construir uma cidade com concreto aparente.
    Já viram Washington DC? Paris, Roma, Buenos Aires? Brasilia é uma vergonha diante dessas capitais.O Palácio do Planalto durante o dia parece um barracão de concreto (á noite fica bonito quando iluminado, quando só se vê luz e silhueta). E os dois penicos com o tijolo no meio.
    Não dá, Juscelino foi um estrago para o país. A única coisa de bom que dele ficou foi o sorriso fácil, mas rico ri á toa! Especialmente quando há idiotas para bater palmas.

  3. O Plano Piloto da cidade de Brasília passava a ser considerada Patrimônio Histórico e Cultural da Humanidade pela UNESCO em 1987.
    O mais importante da construção de Brasília foi a integração do território nacional.

  4. Respeito a posição de todos, autor e comentaristas.

    Porém, para mim, Brasília foi prejudicial para o país em todos os aspectos: cultural, econômico, social e, principalmente ético e moral.

    No que diz respeito ao desenvolvimento agropecuário do cerrado, devemos ao presidente Ernesto Geisel e ao então ministro da Agricultura Alysson Paulinelli, que mandaram milhares de técnicos do setor para o exterior, o que veio a permitir que, de volta ao Brasil, realizassem estudos que resultaram na correção do solo e seu aproveitamento econômico. A honra e o agradecimento só devem ser concedidos aos cidadãos que de fato merecem.

    A história de Brasília é história de corrupção, desde a ideia, a construção e tudo o mais que sabemos hoje em dia.

  5. O simpático Juscelino, era um irresponsável fiscal.
    O governo dele não tinha dinheiro pra construir Brasília.
    Ele criou a hiper inflação mais longa ( não a mais alta) entre todas as nações do planeta.

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