Mensagem ao músico Luiz Felipe Salinas: “Jamais desanime. Essa época maldita passa. A sua música, não!” 

Músico atacado com ovos enquanto tocava no litoral de SP ganha bolsa de  estudos | Música & Mercado

Tocar na rua é sublime, quem é músico conhece essa realidade

Jorge Béja

Na edição de hoje, domingo, 31, está publicada na Tribuna da Internet, com foto ilustrativa, a selvageria que cometeram com o violoncelista Luiz Felipe Salinas. Morador de Santos, o músico se exibe em público com o seu enorme e pesado instrumento. Toca de graça para o povo. E o povo, quando pode, deixa uma gratificação. E assim ele vai se sustentando na vida. É o seu ganha-pão.

Mas na última apresentação alguém atirou contra o violoncelo um ovo. Aliás, o ovo não foi atirado contra o instrumento, mas contra o músico. Atingiu o violoncelo. Mas Luiz Felipe não parou de tocar.

VIOLÊNCIA GRATUITA – Parece que o que aconteceu com este jovem violoncelista é sinal de uma época que acomete o nosso Brasil inteiro. Época de violência gratuita contra a arte, contra a música, a cultura, o belo… Também contra o Humanismo, o iluminismo, a pacificação, os talentos, o saber.

No dia 20 de novembro de 1996, para homenagear os 29 moradores do Rio que perderam a vida, esmagados com a queda do Elevado Paulo de Frontin, no Rio Comprido, em 20 de novembro de 1971, eu também levei meu enorme piano de cauda inteira para debaixo do novo viaduto e, pontualmente, às 11h10m (hora em que o viaduto desabou)  toquei a Marcha Fúnebre de Chopin. 

Todas as emissoras de TV e jornais estavam presentes. Muita gente parou para ver e ouvir e aplaudir ao final da execução. Ninguém atirou pedra nem ovos. Era umaoutra época, de paz, de harmonia, de bons exemplos vindos de cima.

A ROSA DA MENDIGA – O buquê de 29 rosas que minha esposa e eu depois deixamos debaixo do viaduto lá ficou. Até que uma mendiga veio a mim, em plena rua e perguntou se podia levar as flores para ela. Eu disse que não. Que as rosas eram para os mortos. “Para os mortos?”, ela perguntou.

“Sim, para os mortos, 25 anos atrás 29 pessoas morreram esmagadas aqui. Todo esse viaduto caiu”, expliquei à mendiga, que imediatamente retrucou: “Então vou apanhar só uma para mim, porque também estou morta”. E foi lá, pegou uma rosa e levou com ela.

Caríssimo Luiz Felipe Salinas, não pare nunca de tocar. Essa época maldita passa. A sua música, não.  Ela e seu violoncelo são eternos.

11 thoughts on “Mensagem ao músico Luiz Felipe Salinas: “Jamais desanime. Essa época maldita passa. A sua música, não!” 

  1. Bela homenagem dr. J. Beja. Luiz Felipe Salinas merece. E o senhor também, por todos os seus atos e por aqueles que ajudou dentro e fora da profissão de advogado. Parabéns.

  2. Caro Dr. Béja,
    Vamos dar graças a Deus que o arremessador troglodita teve a “sensibilidade” de jogar um ovo.
    Se fosse aqui no Hell de Janeiro poderia ter sido um tiro bem no meio da testa do rapaz.

    Vivemos tempos sombrios Dr. Béja, já nem sei em que país vivo.

    Que belo texto, parabéns!

    P.S. A história da Sra. mendiga, roubou a cena.

    Triste mas realista. Um povo que tem milhões de pessoas que perambulam pelas ruas deste Brasil inteiro como se fossem zumbis invisíveis, à deriva e sem a menor esperança de nada.
    Até quando, a insensibilidade nefasta perdurará nas almas dos políticos.
    Desculpe, esqueci que eles não tem almas, muito menos corações.

    Um forte e cordial abraço pro Sr.
    José Luis.

  3. Linda homenagens as vítimas mortas no Elevado do Rio Comprido
    Me impressionou também, a resposta da mendiga, que se declarou morta em vida.
    Será essa a sensação dos brasileiros que vivem na condição de moradores de rua, sem um canto para chamar de Lar, sem sonhos, sem perspectivas de mudança de vida digna, sem um banheiro para higiene diária e vivendo da caridade alheia para comer só menos uma refeição ao dia.
    Uma sociedade não deveria permitir, que seus irmãos sofram dessa maneira, ao relento, dormindo debaixo das marquises, dos viadutos, de qualquer abrigo, se isso está ocorrendo em todos os bairros do Rio de Janeiro, alguma coisa está errada com todos os cariocas. Perdemos a identidade, a solidariedade com o sofrimento humano, numa capital, que já foi o farol do Brasil.
    Falando em perda, quando nos saímos dos eixos?

    • Sr. Nascimento
      São 35 anos de roubos, corrupção, deboche, arrogância, prepotência, petulância, maú-caráter, vagabundos, dessa corja de ladrões corruptos que tomaram o Páis de assalto.
      E o estrago disso tudo está aparecendo hoje, com centenas de milhares de pessoas vasculhando o lixo para ver se restou algum alimento….

  4. Pode jogar ovos e tomates no Bolsonaro em sua motociatas, ou o povinho fascista e agentes fascistas que fazem a segurança, ou policiamento, irão enquadrar o cidadão (???)
    Infelizmente não moro de frente do percurso dos bolsonaristas senão seria ovos podres, tomates e saco de urina voando por razões de imperioso interesse coletivo. Fora fascistas!

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