Mercado de emprego: números precisam ser consolidados

Pedro do Coutto

O ministro Carlos Lupi afirmou – reportagem de Mário Sérgio Lima, Folha de São Paulo de 19 – que o governo Lula fechou seu período, em dezembro de 2010, com um saldo de 2 milhões e 500 mil empregos formais ou seja postos de trabalho com carteira assinada, INSS, FGTS, direitos sociais, enfim proteção contra as demissões sem justa causa.

O resultado à primeira vista parece espetacular, mas em matéria de números, como digo sempre, é necessário uma análise atenta. Mário Sérgio Lima compara a era Lula com a de Fernando Henrique. O cotejo favorece Lula, já que de 95 a 2002 a criação de empregos formais ficou apenas em 797 mil vagas. Lula teria triplicado a oferta de emprego? Em relação ao presidente Fernando Henrique pode ser. Mas a vitória setorial não é capaz de refletir um êxito geral.

Por vários motivos. O primeiro deles porque a população brasileira cresce à velocidade de 1,3% a/a. A cada doze meses, portanto, somos mais 2 milhões de pessoas. Com a força de trabalho (mão de obra ativa) representa 50% do total de habitantes, há necessidade da criação anual de 1 milhão de empregos novos. Esta meta não foi nem de longe alcançada. Assim, a oferta de mão de obra segue suplantando a procura. Com isso, caem, é óbvio, as médias salariais.

O segundo aspecto repousa num enigma. Carlos Lupi, aliás excelente figura humana, divulgou o número de demissões. Mas não sei se representam o saldo entre contratações e dispensas. Pois o número anual de demissões é altíssimo, em todo o país. Convido os leitores a observarem o quadro estatístico do FGTS que, na edição do Diário Oficial de 2 de agosto, a partir da página 24, acompanha o balanço de 2009 da Caixa Econômica Federal.

Lá se encontra o número de demissões sem justa causa praticadas naquele exercício. Foram 17,3 milhões de casos, levando a um desembolso de 30,9 bilhões de reais no Fundo de Garantia. As demissões efetuadas no ano atrasado superam, inclusive, as realizadas em 2008. Em 2008, houve 16,5 milhões de dispensas. Custaram saques no montante de 26,6 bilhões. A média anual de exonerações, como se verifica, apresenta uma tendência definida.

Provavelmente o total de 2010 foi menor, era um ano eleitoral. Mas de
qualquer forma a variação não pode ter sido expressiva a ponto de desfocar um cálculo que vem se repetindo em determinada escala estatística. Como a mão de obra ativa é de 100 milhões de brasileiros, a mobilidade de emprego oscila em torno de 17 a 17% a/a.

Dessa forma, número acentuado de postos de trabalho não representa propriamente vagas novas, ocupadas por jovens, mas sim também a retomada de empregos pelos que os perderam no exercício anterior, ou então no passar dos últimos anos.

Há um enigma no ar. Que o ministro Carlos Lupi deve esclarecer e traduzir concreta e objetivamente para toda a sociedade, para o país, portanto. Deve recorrer ao IBGE, à Fundação Getúlio Vargas, ao Ibope, para promover um confronto bem nítido sobre a dança do mercado de emprego, sobretudo para que a verdade flutue à vista de todos e elimine a necessidade de um mergulho no oceano estatístico para fazer emergir diretamente toda a verdade a todos. Afinal, a vida das pessoas depende dos níveis de emprego. E no trabalho passamos, todos nós, um terço de nossas vidas.

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