Mesmo sem Lula, Franklin Martins e Paulo Vannuchi no Planalto, a liberdade de imprensa ainda corre risco. A presidente Dilma vai mesmo criar a tal “Agência Nacional de Comunicação”. Para quê? Ninguém sabe.

Carlos Newton

No apagar das luzes do governo Lula, foi impressionante o empenho do ainda ministro Franklin Martins, do antigo ministro José Dirceu e do ainda presidente na defesa do que eles classificavam genericamente de “regulação da mídia”, sem descer a detalhes sobre do que estavam realmente falando.

Na época, em entrevista a blogueiros (todos petistas) no Palácio do Planalto, Lula chegou a dizer que parou de ler revistas e jornais, o que não era novidade alguma. “A raiva deles (da mídia) é que não os leio, e é por isso que não fico nervoso. Trabalho com informação, mas não preciso ler muitas coisas que eles escrevem”, revelou, ao argumentar que não queria saber a “quantidade de leviandades” ditas a seu respeito. “Ninguém pode se queixar, muito menos a mídia. Todos ganharam muito dinheiro. Alguns estavam praticamente quebrados”, ironizou.

Paradoxalmente, reconheceu que ele próprio é “resultado da liberdade de imprensa no Brasil”, para emendar, incompreensivelmente: “O que eles se enganam é que o povo não é mais massa de manobra, o povo está mais inteligente e vamos trabalhar cada vez mais para democratizar a mídia eletrônica.”

Em seguida, voltou a criticar a mídia impressa. “Parte do noticiário da imprensa brasileira, se você ler, não sabe o que acontece no Brasil. Quando sai pesquisa com 80% de aprovação, eles não sabem que o tempo todo trabalharam contra isso. O povo brasileiro já não se deixa mais levar por revista que muitas vezes está com menos interesse de contar o fato em si do que mostrar sua visão sobre o assunto”. E concluiu, mais paradoxalmente ainda: “Quanto mais liberdade, melhor.”

Na mesma época, o ainda ministro da Comunicação Social, Franklin Martins, mesmo sabendo que logo seria defenestrado do cargo, prometeu entregar à nova presidente Dilma Rousseff um anteprojeto de lei que seria o “ponto de partida” de uma nova política para o setor. A expectativa dele era de que Dilma encaminhasse o tal texto para consulta pública ou discussão do Congresso e tratasse o assunto como prioritário em seu governo.

Lula também se mostrava confiante de que Dilma cuidaria disso, e até afirmou que as mudanças serão atribuição do Ministério das Comunicações, agora comandado por Paulo Bernardo, ex-ministro do Planejamento. “Dilma tem compreensão disso”, assinalou Lula, mandando um recado direto à sucessora.

Mas desta vez Lula estava mal informado. Talvez, se lesse jornais ou revistas, já soubesse que naquela altura do campeonato, sua substituta já não queria nem falar no assunto. Justamente por isso, não aceitara que Franklin Martins continuasse no governo, assim como se livrara de Paulo Vannuchi, então ministro-chefe da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República e criador do aloprado Plano Nacional de Direitos Humanos (PNDH-3), que em 73 páginas abrangia os mais diversos assuntos e até “legalizava” o aborto, que na campanha viria a ser o tema mais rejeitado pela candidata petista.

Até agora, não havia notícia de que Franklin Martins entregara ou não à nova presidente algum anteprojeto ou simples esboço de dessa tentativa de “democratização dos meios de comunicação”.

Mas em sua coluna de ontem, aqui no blog da Tribuna da Imprensa, nosso amigo Carlos Chagas esclarece em que pé está a polêmica questão: “Vai demorar para chegar ao Congresso o projeto que cria a Agência Nacional de Comunicação, preparado no apagar das luzes do governo Lula. São 113 artigos, alguns em conflito com a  legislação vigente. Daí a decisão  da presidente Dilma Rousseff de abrir amplo debate a respeito,  junto à  sociedade”.

Isso significa que a conversa fiada terminou. Agora vai se saber exatamente o que o governo do PT entende por “democratização dos meios de comunicação”. Como dizia o grande publicitário e compositor Miguel Gustavo, “o suspense é de matar o Hitchcock”.

Espera-se que a nova presidente da República e os petistas estejam conscientes de que foi a liberdade de imprensa que transformou um simples sindicalista num líder político conhecido em todo o País e o levou à Presidência da República, onde ele ganhou tanta força e visibilidade que  conseguiu até eleger sua sucessora.

De toda forma, melhor com Dilma Rousseff do que com Lula. A sucessora, pelo menos, gosta de ler jornais e revistas, o que é o primeiro passo para defender a liberdade de imprensa, E antes de assumir, em diversas ocasiões Dilma Rousseff defendeu ardentemente a chamada “Liberdade de Expressão”, conforme Helio Fernandes até registou aqui no blog.

Mas é melhor aguardar os próximos capítulos dessa novela, se nao sofrerem censura, é claro.

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