Meu Papa santo

Sebastião Nery

Cracovia é uma Salvador, uma Olinda mágica da Polônia. Uma pequena Praga. Às margens do rio Vistula, perto dos montes Cárpatos, no ano 700 o lendário rei Krak construiu um castelo, que, na Idade Media, ligava a Bélgica ao Oriente, a Europa Meridional ao Báltico.

Cercada de muralhas e fossos, é uma cidade medieval do século X, com a praça do Mercado, Rynek, no centro, e a “rotunda romantica” da igreja de São Felix e Santo Adauto. A catedral, Wawel, renascentista e barroca, tem tumbas de reis, heróis e poetas e um sarcófago com os restos mortais do padroeiro Santo Estanislau. Ali nasceu e viveu meu Papa santo.

Naquele ano de 1957, o congresso mundial da UIE (União Internacional dos Estudantes) foi lá. Lembro-me sobretudo de dois com quem longamente conversei sobre a America Latina : o presidente, o bem falante Giovanni Berlinguer, irmão do futuro secretario-geral do Partido Comunista Italiano, Enrico Berlinguer, e que depois conheci senador em Roma pelo PCI, e Lionel Soto, cubano calado, inteligente, diretor da revista da UIE “Mondo Estudantil”, barbaramente torturado e arrebentado nas prisões do ditador Batista e depois reitor da Universidade de Havana.

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CRACOVIA

Nossa delegação brasileira ao congresso da UIE era pequena, oito : Murilo Vaz, publicitario do Rio, Ubirajara Brito, da Bahia (depois vice-ministro de Ciência e Tecnologia), Amazonas Brasil, do Paraná (depois presidente do Tribunal de Contas de Roraima). Eu e outros da UNE.

Eramos mais de 500 estudantes do mundo inteiro. No salão nobre da Universidade publica, medieval, não cabia tanta gente. O maior salão da cidade era o do Instituto Católico, que tinha um padre muito ligado à juventude, esportista, professor de Ética e de Filosofia. Será que ele emprestaria para a abertura de um congresso de comunistas e socialistas?

O presidente da Juventude Comunista da Polônia, chefe da delegação polonesa, não gostava do padre, não gostou da idéia. Mas foi derrotado.

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AS CHAVES

A UIE criou uma comissão para ir lá pedir a ele. Do Brasil, Ubirajara Brito e eu. O padre era um homem jovem, de 37 anos, magro, alto, bronzeado, vermelho, tipo atlético, cara de camponês descido das montanhas nevadas, com um topete e uma boina roxa, óculos com armação de tartaruga, batina preta com uma faixa na barriga.

Recebeu-nos carinhosamente, falou francês e italiano, perguntou de onde cada um era, disse ironicamente que sabia que a UIE era controlada por Moscou, mas esperava que o congresso tratasse mesmo do lema: a paz.

E fez uma sugestão. A Universidade oficial estava em aulas. O congresso lá iria perturbar os estudos. Se quiséssemos, podíamos fazer todo o congresso, e não apenas a abertura, no seu Instituto Católico, que estava de férias. Chamou um assessor, pediu um punhado de chaves, ficou com elas nas mãos por algum instante. Estendi a mão e ele me deu as chaves.

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O PADRE

Não só emprestou seu Instituto. No dia seguinte, na abertura, apareceu lá, para ver se estava tudo em ordem. Continuava com seu sorriso contido, seu ar de mansidão, de boa fé, de quem sabe exatamente o que e por que está fazendo. Convidado pelo presidente da UIE, que era o presidente do congresso, para sentar-se à mesa, agradeceu, mas não foi.

Sempre de pé, pegou o microfone e fez uma pequena saudação, metade em italiano metade em francês, dizendo que a juventude tinha um dever fundamental, que era lutar para que o mundo não sofresse uma outra guerra, como a que devastara a Europa e a sua Polônia. Foi aplaudido calorosamente. O chefe da delegação da União Soviética, presidente da Juventude Comunista de Moscou, levantou-se da mesa, abraçou-o e insistiu para que ele participasse da mesa. Em vão. Agradeceu, saiu sob palmas.

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WOYTILA

Vinte e um anos depois, em outubro de 1978, vi nos jornais do Rio a foto do novo Papa. Tive certeza de que o conhecia. Era o padre Woytila de Cracovia, na Polônia de 1957, bispo em 1958, cardeal em 1968 e Papa João Paulo II em 1978. Liguei para a arquidiocese do Rio e confirmei. Era mesmo o ex- professor de Ética e Filosofia do Instituto Católico de Cracovia.

O homem que pôs as chaves de seu Instituto em minhas mãos era agora o dono das chaves de São Pedro. E o presidente da Juventude Comunista de Moscou, que tanto insistira para ele sentar-se à mesa diretora do congresso, era o estudante de Direito, que se formava naquele ano, Michail Gorbathev. Trinta e três anos depois, em 1990, os dois juntos derrubaram o Muro de Berlim e o sistema comunista.

Adido Cultural em Roma em 90 e 91, recebeu-me no Vaticano. Ele se lembrava bem da UIE na Cracovia de 1957. Agora, a Igreja o beatifica, penultimo degrau para ser proclamado santo. Meu Papa santo.

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