Mdia ativa, pblico passivo

Percival Puggina

Jornalistas costumam dizer que a imprensa tem costas largas, sendo objeto de crticas merecidas e imerecidas. verdade. Mas tambm costuma ter costas quentes, pois o poder de que desfruta lhe proporciona uma boa proteo. Numa sociedade de massa, entre muitos outros papis, a mdia desempenha tarefa relevante na formao da opinio pblica, ou seja, no modo de pensar, nos usos e costumes, nos critrios de juzo e na formao dos padres morais e de conduta que os indivduos passam a reproduzir no cotidiano.

Atirarei alguns chapus ao vento. H veculos e profissionais de imprensa que deformam as conscincias; deprimem os padres culturais da sociedade; criam hoje os mitos que lhes convm para derrub-los amanh quando j no servirem mais; estimulam o relativismo e atacam os valores morais; servem ao patro estatal da vez, e por a afora. Em muitos e muitos casos, tais acusaes so to corretas quanto provavelmente sejam corretas outras suspeitas em que esses mesmos se envolvem. Mas o mesmo dedo acusador que aponta com preciso as culpas da mdia d sinais de ser uma bssola desorientada quando se trata de vasculhar a prpria conduta.

A moderna comunicao um canal de duas vias onde o pblico desempenha o papel importante e onde os fenmenos de ao e reao determinam cadncia permanente (note-se, a propsito, que a omisso uma forma bem medida de reao). Cabe indagar, ento, especialmente queles cuja conscincia permite identificar os malefcios causados pela eventual ou permanente irresponsabilidade social dos veculos: quais so suas reaes pessoais ante o problema? Como voc interage? Em que sua atitude difere daquela adotada pelos consumidores menos sensatos ou omissos? Quantas vezes tornou conhecidas suas divergncias, ou mesmo seu apoio, ao julgar merecido? E mais: a que veculos de comunicao concede estmulo, assinatura, leitura, audincia ou patrocnio?

CORRESPONSABILIDADE

Nos pases onde a opinio pblica tem boa noo de seu valor e fora, manipulaes e abusos do tipo que ocorrem entre ns so rapidamente corrigidos. Por isso, estou cada vez mais convencido de que, com frequncia, as vtimas somos corresponsveis pelos males a que nos submetem, pois bastariam, em muitos casos, vinte ou trinta manifestaes por telefone ou e-mail para modificar certos usos ou abusos.

Triste a nao que renuncia tarefa de transmitir valores morais s suas geraes! Enquanto as famlias cuidam apenas da subsistncia; enquanto as escolas so oficialmente usadas para absolutizar o relativismo moral; enquanto as Igrejas se ocupam preferentemente de questes sociais e polticas; enquanto os meios de comunicao abusam de seu poder para seduzir e, ao mesmo tempo, desmiolar seu pblico; e enquanto as instituies semeiam joio no meio do trigo, quem, afinal de contas, vai orientar a sociedade para o bem?

3 thoughts on “Mdia ativa, pblico passivo

  1. Puggina
    Iniciar o ano cansado, quase sem esperanas e j no primeiro dia ter a possibilidade de ler um texto como este, recarrega de energias de um velho sonhador.
    No pare de escrever e nenhum dos colegas tambm.
    Neste momento, no descobri a roda ou fogo mas sim a certeza de que, a cada momento que nos debruamos a analisar algo e, de alguma forma, tocamos fundo no sentimentos do outro, estamos a realimentar-nos.
    E a Eliana, da mesma forma que eu senti, destacou o contedo do ltimo pargrafo.
    Verdades absolutas no precisam ser demonstradas. Precisam ser concretizadas.
    Que o ano de 2015 seja igual aos demais, no tamanho e no andamento, mas no nas realizaes.
    Vamos em frente.
    Obrigado Puggina, muita sade.

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