Milhares de homens, bandidos e policiais, desarvorados e desorganizados, não sabiam o que fazer. A partir de quinta-feira, reforçados pela Marinha. De ontem, pelo Exército e FAB. O que adianta se não têm planos?

Helio Fernandes

O que parecia ser “apenas” a guerra do asfalto, com a propagação pela televisão, e a utilização do helicóptero, sofreu três alterações importantes. 1 – A audiência cresceu de verdade, todos os canais transmitindo, se sobrepondo, se repetindo, usando toda hora, dia e noite, as mesmas imagens. Que eram realmente impressionantes.

2 – Também impressionante o número espantoso de bandidos, que mantinham ao mesmo tempo, uma guerra e uma guerrilha. A das ruas e superfície, e a dos morros, das mais diversas favelas, e se fundindo, se auxiliando, se socorrendo, se fortalecendo, mas não se organizando em nenhum momento.

3 – As imagens da televisão mostraram a mais de 40 milhões de telespectadores que as tropas militares estavam tão desorientadas, desorganizadas e disperçadas, quanto as “tropas” de bandidos. Os marginais em fuga maluca, eram calculados em 3 mil, as forças da repressão, (no asfalto, nos morros) em mais do que isso.

Esse relato investigativo e analítico, vai até a noite de ontem, sexta-feira. Exército e Aeronáutica estavam entrando em ação. Mas qualquer seja a participação, não ultrapassará o limite que fez a Marinha. É preciso ressaltar e registrar, para não desgastar as Forças Armadas.

Essas Forças Militares têm que assumir o comando, mas o Ministério da Defesa não admite. Então entram com mais homens, aumentam o número, mas não a capacidade ou a eficiência. Então, o que se viu na televisão foi rigorosamente o seguinte.

Os bandidos fugiam a pé, de carro ou de motocicleta, passando entre as tropas militares. Estas não tinham planos, ordens, organização. Perplexas, tentavam correr mais do que os bandidos, estes quase pedindo “licença ou autorização” para fugirem, os perseguidos correndo junto com os perseguidores.

Na verdade, as forças militares só tinham duas opções. Na primeira, precisavam de ORDENS SUPERIORES. Na segunda, mesmo com ordens, não poderiam cumpri-las. Primeira opção: metralhar os milhares de bandidos-traficantes, o que provocaria satisfação dos milhões de cidadãos “colados” nas televisões. (Talvez com pequeníssima exceção).

A segunda opção, impossível de ser adotada: PRENDER os milhares de bandidos desesperados, que atravessavam vários locais, morros e favelas, para chegarem ao Alemão, que todos consideravam a salvação. E chegaram mesmo, não tinha ordens para coisa alguma. No morro, só um bandido ligeiramente ferido.

Nos bairros, Zona Norte. Zona Sul, centro, avenidas de acesso até para municípios da Baixada, domínio total do crime. Carros incendiados aumentando em número e em selvageria. Dava a impressão de que os bandidos-traficantes perceberam a transferência dos policiais militares para o alto, passaram a comandar as ruas.

E com isso atingiam diretamente a população. Na quinta e na sexta-feira, o expediente em empresas públicas e particulares, escolas e universidades, diminuiu ou cessou completamente. É que tendo ou não tendo carro, dezenas de milhares de pessoas teriam que passar à noite por  zonas “conflagradas” (é a palavra).

Os carros poderiam não escapar do incêndio. Os “pedestres” não tinham nem condução, os ônibus desapareciam. Assim que o dia escurecia, sumiam todos.

***

PS – Ontem, sexta-feira, poderia ter havido uma decisão. Três mil bandidos eliminados, representariam a tranqüilidade para milhões de cidadãos, a recuperação da imagem do Poder. E o fim para o que os órgãos de comunicação, durante muito tempo, rotularam como PODER PARALELO.

PS2 – Só existe PODER PARALELO quando o PODER DE VERDADE desaparece. Este já sumiu mesmo, o libelo dos dois filmes intitulados “Tropa de Elite”, não deixa margem a qualquer dúvida.

PS3 – Todos reconhecem, jornalões, membros do governo, cidadãos, estes sofrendo 24 horas por dia: “Estamos em plena guerra”. Não há discordância. E se reconhecemos a guerra mortal, temos que reconhecer que é preciso decisão autêntica, fora da rotina da concessão.

PS4 – Perdemos ontem oportunidade excepcional, não podemos desperdiçar outra, se é que surgirá. Mas na guerra, a única CONCILIAÇÃO está na História: A RENDIÇÃO INCONDICIONAL. Não há acordo entre bandidos e cidadãos, estes com seus representantes nos governos.

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