Militares não apoiam o golpe, que no fundo atingiria também o vice Mourão

Charge do Nani (nanihumor.com)

Pedro do Coutto

Analisando-se tanto o panorama quanto o clima nacional desenhados pela atuação do presidente Jair Bolsonaro, chega-se à conclusão lógica e inevitável que os militares não podem e sequer vão apoiar qualquer tentativa de golpe contra a democracia e que transformaria Bolsonaro no imperador do país, abalando o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal, objetos de manifestações contra o regime realizadas na Esplanada de Brasília.

Tais atos revelam o risco de o governo isolar-se, além de promover a queda do general Hamilton Mourão, vice-presidente da República. A posição de extrema-direita já foi testada ao longo da história como a que colide em cheio com a maioria esmagadora da população brasileira e também contra os princípios que nortearam a presença heróica da Força Expedicionária Brasileira nos campos da Itália contra o fascismo de Mussolini e o nazismo de Hitler. Terminada a guerra, as Forças Armadas afastaram Getúlio Vargas do poder depois de uma longa ditadura que começou em novembro de 1937 e terminou em 29 de outubro de 1945.

CONTRA A DITADURA – Além do impulso para restabelecer a liberdade, a opinião pública, nela incluída os militares, destacava como um dos motivos o fato de as forças brasileiras terem lutado contra a ditadura do eixo nazifascista e dentro do país viver-se num regime ditatorial.

A ditadura de Vargas estava inclusive abalada tanto pela entrevista de José Américo de Almeida, que era um dos candidatos para a eleição que não houve em 1938, ao repórter Carlos Lacerda do Correio da Manhã. A temperatura do clima nacional subia e Vargas, em abril, assinou a anistia e convocou eleições para 2 de dezembro. A reportagem de Carlos Lacerda foi publicada na edição do Correio da Manhã no mês de fevereiro.

Mas havia um impasse, o movimento queremista que visava permitir que Vargas se candidatasse a presidente da República. A Vargas, entretanto, foi permitido que se candidatasse nas urnas de 2 de dezembro. A queda de Vargas por decisão do Exército em 29 de outubro foi a resposta à estrada de 15 anos de poder que separava a Revolução de 30 da redemocratização de 45.

REVOLUÇÃO CONSTITUCIONALISTA – É preciso assinalar, sobretudo para os mais jovens – estou no jornalismo há 62 anos – que o período de 1932 a 1937 havia sido democrático. Em 1930, Vargas chegou ao poder e não fixando eleições motivou a Revolução Constitucionalista  de julho de 1932. A data é comemorada até hoje pelo estado de São Paulo.

Vargas agia reflexiva e reativamente aos fatos. Sentindo a pressão de 1932, convocou as eleições de 1934. Foi a primeira no Brasil na qual a mulher começou a participar. Mas em 1937, Vargas fechou tudo e tornou-se ditador. Ele, em 1934, foi eleito presidente através de eleição indireta do Congresso. Esclarecidas as escalas cronológicas, Vargas retornou ao poder na vitória no pleito direto de 1950. Com exceção do Ceará, Vargas venceu em todos os demais estados do país, incluindo o Distrito Federal na cidade do Rio.

CANDIDATURAS – Em 2 de dezembro de 1945, a lei eleitoral permitia que pessoas pudessem se candidatar simultaneamente por vários estados para cargos diversos. Impedido de disputar a Presidência, Vargas candidatou-se a senador por São Paulo e pelo Rio Grande do Sul e a deputado federal pelo Rio, por Minas Gerais, pelo antigo estado do Rio de Janeiro, por São Paulo e pelo Rio Grande do Sul. Escolheu o mandato de senador pelo Rio Grande do Sul. Obteve essa votação fantástica sem sair de sua fazenda em São Borja.

Na cidade do Rio, para deputado federal, alcançou 114 mil votos num total de 330 mil eleitores. Era pequeno o eleitorado brasileiro em 1945. Não havia voto de analfabeto e o primeiro censo realizado pelo IBGE, criação de Vargas em 1940, revelou a existência de um analfabetismo de 56% da população adolescente e adulta. Uma outra história envolta na névoa do tempo e que se incorporou à memória nacional agora reativada por historiadores como Ruy Castro, José Murilo de Carvalho, José Honório Rodrigues, este já falecido.

FRAUDE – Na edição do O Globo de quinta-feira, a jornalista Malu Gaspar publica um artigo excelente focalizando o tema sobre os militares, as eleições e a fraude com a qual Bolsonaro ameaçou as eleições em 2022. O tema é sensível, mas as Forças Armadas não podem agir para implantar um golpe ditatorial no Brasil. Em primeiro lugar porque através do tempo estão comprometidas com a democracia.

Em segundo lugar, um golpe para implantar uma ditadura derrubaria também o general Hamilton Mourão, cujas posições essenciais, conforme ele próprio tem demonstrado, sintetizam a sua disposição de não embarcar no expresso extremista da direita. Se por outro motivo não fosse, também pelo fato de ser um dos atingidos pelo fantasma do golpe, que aliás transforma a ameaça num verdadeiro tigre de papel.

Relativamente à fraude, o argumento de Bolsonaro é absurdo. Já lembrei sobre a tentativa de fraude ocorrida em 1982 contra Leonel Brizola e a favor de Moreira Franco na disputa pelo governo do Rio de Janeiro. Não houve até hoje nenhum exemplo de fraude nas urnas eletrônicas. Além disso, a fraude só pode ser praticada por quem está no poder, é claro, e nunca pelas oposições. Pois essas, até pela razão de existirem, não possuem comando da máquina administrativa e, portanto, acesso à deturpação dos votos que tanto podem se destinar à reeleição quanto à vitória de uma oposição.

Aconteceu nos Estados Unidos na vitória de Joe Biden sobre Donald Trump e, conforme o Datafolha tem revelado, a provável vitória do ex-presidente Lula da Silva contra o próprio Jair Bolsonaro numa eleição que se projeta ser decidida no primeiro turno se os votos ocorressem hoje.

AMEAÇAS –  Um argumento contra qualquer golpe e a favor das eleições previstas na Constituição está no artigo de Delfim Netto, na Folha de S. Paulo de quarta-feira. Ele reflete a indústria e o comércio, como sempre representou quando ministro da Fazenda e ministro do Planejamento. Diz Delfim Netto.”É importante que as demais instituições da República respeitem a si mesmas e não se rendam ao baixo calão e às ameaças veladas como forma de agir e reagir, pois há um claro favorito para vencer o debate nesses termos…”

Verifica-se assim que a extrema-direita tem como destino ficar isolada no pleito de outubro de 2022, como sempre estará ela isolada na consciência democrática nos corações e mentes dos que querem viver em liberdade.

11 thoughts on “Militares não apoiam o golpe, que no fundo atingiria também o vice Mourão

  1. Só faltou descrever que após a guerra os militares passaram a ter um novo comandante supremo acima do presidente.
    Só que hoje o Tio Sam mudou de tática. Não aprova mais golpes violentos. Vejam o exemplo no Haiti. Os golpes agora tem que ser maquiados com alguma pitada de legalidade.

      • Os militares não vão dar golpe, sabem que iriam arrumar para a cabeça como aconteceu no passado. O mito sim sonha com o golpe que nunca vai acontecer. E a anunciada fraude também não vai acontecer, porque por pior que seja a urna eletrônica ela é infinitamente melhor do que a cédula de papel, esta sim era uma verdadeira fraude

    • Quando vocês esquerdistas fazem esse tipo de manifestação, o que significa:

      1 – Vocês assumem que o único jeito do esquerdismo “prosperar”, é acabando eliminando todas as outras opções ?

      2 – Vocês acham que a população não tem capacidade de discernimento entre o certo e o errado; e precisam de esquerdistas para decidirem por eles ?

  2. O chefe dos comandantes militares americanos Gen. Mark Milley declarou num livro publicado recentemente que ele e outros comandantes se preocupavam com a possibilidade de Trump aplicar um golpe. Assim se expressou: ‘They’re not going to f**king succeed’.
    As altas autoridades na CIA, FBI e das forças armadas estavam preparadas para evitar a qualquer custo um golpe. Lá, os militares são formados para respeitar a Constituição e defender o país – a qualquer custo!
    Nossos militares brasileiros deveriam entender que não se trata de opção porque o golpe pode afetar A ou B – we cannot accept a fucking coup! Isso deveria ser parte da educação militar. E o povo que os paga agradece.

  3. Que Golpe, Pedro???

    O afastamento legítimo de presidente e seu vice eleitos, como sabemos, impulsionados por ações contrárias às regras eleitorais, sem considerar, ainda, que se serviu de instrumentos e estruturas corrompidas dos Poderes de Estado, do Judiciário e do Legislativo, para dar um golpe em 2016 (esse sim golpe reconhecido por participantes) e que objetivava um projeto de poder como ficou registrado nas conversas entre Dalagnol e Moro, que atuaram na lava jato, este último (quando deveria também aquele) suspeito como reconhecido pelo STF.

  4. Nunca vi um presidente eleito dando golpe em sí mesmo. O negócio e colocar cada poder no seu lugar, que extrapola que pague com seus erros.

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