Militares que deram golpe de estado no Egito terão apoio incondicional dos Estados Unidos. A grande ameaça são os partidos islâmicos que vão disputar eleição para o Parlamento. Diretas já para presidente? Podem esquecer.

Carlos Newton

Os Estados Unidos vão apoiar incondicionalmente a Junta Militar que tomou o poder no Egito. Será permitido o registro de partidos, haverá eleições para o Parlamento, mas nada de “Diretas, já”. A situação é considerada muito preocupante, por causa do fortalecimento das lideranças islâmicas, que já anunciaram que um de seus objetivos é anular o tratado de paz com Israel. Detalhe: até agora, o Egito era o pais árabe que mantinha as melhores relações com Israel.

As lideranças muçulmanas em outras nações, como a Jordânia, já declararam a mesma coisa. Querem que Israel recue para suas fronteiras anteriores a 1967, uma possibilidade totalmente afastada pelo governo israelense, que é muito bem armado, tem bomba atômica e está sempre pronto para a guerra.

Essas revoltas que irrompem em diversos países árabes têm várias motivações, mas vêm sendo alimentadas também pela Jihad, a guerra santa muçulmana, ninguém tenha dúvida. Quem pensa que está ocorrendo apenas um desabrochar das crenças democráticas nessas nações, certamente está equivocado. A abertura democrática nos povos árabes pode transformá-los em novos Irãs. E não há ditadura pior do que a religiosa, porque os combatentes têm prazer em morrer em nome de Deus.

O embaixador do Brasil no Egito, Cesário Melantonio Neto (que só deu mancadas durante a revolta popular, inclusive declarando que os militares não queriam o poder), considerou a decisão de dissolver o Parlamento egípcio e de suspender a Constituição do país como o “caminho mais natural” para se estabelecer a democracia no país.

De acordo com o embaixador, não há como construir um governo democrático com um Parlamento eleito sob suspeita de fraude e com uma Constituição redigida sob um regime ditatorial. Certamente e contraditoriamente, Melantonio prefere uma Junta militar.

“Esse é o caminho mais natural para a democracia no Egito. Podemos até comparar com a história do Brasil. Em nossa transição para a democracia, após o regime militar, precisamos de um novo Parlamento e formamos a Assembleia Nacional Constituinte, que elaborou uma nova Constituição para o país, regida por valores democráticos”, explicou o embaixador em entrevista, esquecendo que aqui no Brasil, naquela período, a Constituição não foi suspensa nem o Congresso dissolvido.

O que houve no Egito foi um golpe de estado. A Constituição estabelecia que, no caso de renúncia do Presidente da República, ele seria substituído pelo presidente da Casa dos Representantes (deputados), com eleições realizadas em 60 dias. Nada disso aconteceu. O Conselho Supremo das Forças Armadas, chefiado pelo Marechal-de-Campo Mohammed Hussein Tantawi, simplesmente tomou o poder.

Esse golpe militar é semelhante ao ocorrido em 23 de julho de 1952, quando um grupo de oficiais militares, intitulando-se Movimento dos Oficiais Livres, liderado pelo futuro segundo presidente egípcio, Gamal Abdel Nasser, derrubou a monarquia e estabeleceu o Conselho do Comando Revolucionário, composto por doze membros. Na época, verificou-se uma disputa entre o General Muhammad Naguib, primeiro presidente do Egito, e Nasser, que assumiu o poder num novo golpe.

Ao contrário do golpe de 1952, o de agora foi dado em meio a exigências populares em prol de um governo democrático. Assim, os militares terão de enfrentar o grande e complexo desafio de forjar um sistema que, acalmando as massas, lhes permita manter o controle do poder e a paz com Israel. Até quando? Só Alá sabe.

This entry was posted in Sem categoria. Bookmark the permalink.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *