Minha primeira priso, 22 de julho de 1963, meu primeiro julgamento no Supremo Tribunal Federal, dia 31 desse mesmo julho. Todos conspiravam, de um lado e do outro. Isso, completando agora 47 anos. Inesquecveis.

Esse 22 de julho, histrico, pela repercusso, violento pelo precedente, arbitrrio pela forma, inaceitvel pelo fato de todos dizerem que estvamos em pleno regime democrtico. Aparentemente era isso mesmo, a nova ditadura (a segunda Repblica) s existiria 9 meses depois, o tempo de gestao de uma vida.

No caso, do ponto de vista das instituies, a anti-vida, o holocausto, nas manchetes apenas um homem, mas por trs, todo um pas, a comunidadeinteira, os interesses colossais e monumentais que se movimentavam (antes do episdio e depois dele) eram de tal vulto, que justificavam qualquer violncia.

Eu escrevia artigo e coluna dirios, desde 1956, no bravo “Dirio de Notcias”, a maior circulao do Rio, combatia mesmo, com nome e sobrenome, principalmente das grandes empresas que exploravam o Brasil de todas as maneiras. No pararam de me perseguir, conseguiram finalmente em 1966, trs anos depois, quando era candidato a deputado federal pelo MDB.

Tido e havido como o mais votado, comparavam com o que acontecera com Brizola em 1962. Ainda governador do Rio Grande do Sul, masdisputando pela Guanabara, governada por Lacerda.

Por volta da 1 da madrugada, um informante precioso parou o carro na porta da casa onde moro desde 1962, no alto do Jardim Botnico, me entregou um envelope, que tinha do lado de fora dois carimbos: “SIGILOSO” e “CONFIDENCIAL“.

Era uma circular assinada pelo ministro da Guerra do presidente Joo Goulart, se chamava Jair Dantas Ribeiro. Destinada apenas a 12 generais, o nmero deles, na poca, era pequeno. Quem me entregava a circular SIGILOSA-CONFIDENCIAL era um deles, Cordeiro de Farias.

Como eu disse outro dia, em 1963 (at 1967) existiam matutinos e vespertinos. A Tribuna da Imprensa, como outros vespertinos, comeava a circular ao meio dia, pude publicar a circular, na ntegra, no mesmo dia 22.

Estranhssima, dbia e contraditria essa circular. O general era ministro da Guerra de Joo Goulart, e denunciava um pretenso “MOVIMENTO COMUNISTA” para dominar o pas. Estaria contra essa “COMUNISTIZAO“? Ou contra o presidente da Repblica? Teria autorizao do presidente? Ou agiria revelia dele? Nunca se esclareceu.

Como acontecia diariamente, chegava ao jornal s 6 da manh (sara na vspera s 6 da tarde), metade do jornal estava feita. Resolvi publicar a circular na Primeira, logicamente sem o nome do general-informante, ele mesmo depois se identificaria aos meus advogados.

Junto com a circular, a explicao, que cito de memria, o jornal continua fechado, a perseguio Tribuna da Imprensa no TEM nem TER FIM. (Apesar do VOTO DO RELATOR DO SUPREMO, Celso de Mello, ministro e decano, que declarou que o processo transitara em julgado, e mais, TAXATIVO E TEXTUAL: “A UNIO TEM QUE PAGAR A INDENIZAO TRIBUNA DA IMPRENSA, I-M-E-D-I-A-T-A-M-E-N-T-E”.

Publiquei a circular com a explicao simples e objetiva: “Se o Brasil estivesse em guerra com outro pas, examinaria se a publicao da circular, poderia trazer prejuzos. Como o Brasil no est em guerra nem mesmo contra os seus exploradores, tenho no s o DIREITO, mas a OBRIGAO de publicar esse documento que ameaa o pas”.

S isso, e mais o documento oficial e os carimbos, com bastante destaque. Na poca a repercusso do jornal era instantnea. Logo, logo os telefones no paravam. Se formaram filas de jornaleiros querendo mais exemplares, foi a terceira maior tiragem da existncia do jornal, superada apenas em 1966 e 1967.

No mesmo dia, ia fazer um programa de televiso em Belo Horizonte, (TV Alvorada, Associada, a mais importante do estado) no alterei meu roteiro. Ia viajar s 4 da tarde, viajei, apesar das indicaes de que seria preso. No era bravata ou excesso de coragem, no podia, antecipadamente, me render aos que iriam me prender.

Tive o prazer, no avia, de ir conversando com a grande e belssima cantora Ester de Abreu, esqueci de tudo. Quando saltei, o aeroporto estava cheio de jornalistas, que me acompanharam nesse fim de tarde e incio de noite. Todos sabiam que eu iaser preso, parecia um fato e no suposio.

Tambm me esperavam dois assessores especiais do governador Magalhes Pinto, com o recado dele: “Voc no vai falar na televiso e ser preso, est decidido. Se voc quiser voltar para o Rio agora, de carro, no haver o menor problema”.

Agradeci a informao, (como governador, dava notcia OFICIAL).Quanto ao fato de voltar para o Rio, sem resposta, tanto fazia ser preso no Rio ou em BH.

Por volta das 20,30, me encaminhei para a televiso, acompanhado por aquele grupo de jornalistas. Jamais esqueci ou deixei de agradecer.

Na entrada do prdio, me esperando, o diretor de jornalismo da televiso. Constrangidssimo, comunicou: “Helio, recebemos ordem de que voc no pode falar, temos que cumprir”. Me convidou “para subir”, no tinha sentido. Fui preso logo depois, na porta do hotel, e levado para a ID-4 (Infantaria Divisionria da 4 Regio), comandada pelo general Carlos Luiz Guedes, que em abril de 1964 teria grande destaque, junto com o tambm general Mouro Filho.

Fui bem tratado, um coronel me comunicou que eu estava disposio do ministro da Guerra, e pela manh, “bem cedo” (fez questo disso) iria para o Rio. Dormiria ali, podia telefonar para quem quisesse. Liguei para Rosinha, minha mulher, preocupadssima, me deu recado dos meus amigos, advogados Prudente de Morais neto e Adauto Lcio Cardoso. Falaram: “Assim que for oficializada a priso, entraremos com habeas corpus no Supremo. o caminho natural, e a nica ao que no precisa de procurao”.

Antes de ser levado para onde dormiria, pude “sentir” o terrvel “clima” de diviso da “nao militar”. Muitos no se falavam, no se entendiam, se suportavam por causa da hierarquia e disciplina, base da existncia militar. Acordei s 6 da manh, lgico, no dormi, nem havia o que ler.

s 7 horas fui levado para o refeitrio comum, a, a exploso da discrdia, da indisciplina, da divergncia geral. Visvel a hostilidade entre eles, e mais ou menos oculta, a hostilidade aberta contra mim. Mais de 100 oficiais presentes, uns fizeram questo de sentar onde eu estava, outros perguntavam, alto para que eu escutasse: “O que esse SUJEITO (textual) est fazendo aqui?”

Antes das 8 horas entrei no avio que me levaria (na poca, traria) para o Rio. Trajeto curto, no Santos Dumont um carro me esperava. Levado para a Polcia do Exrcito, foi a minha chegada e entrada na Baro de Mesquita. Ainda no era o terrvel Codi-Doi, depois Doi-Codi, que frequentei com assustadora assiduidade. Naquele dia, apenas DE PASSAGEM.

O comandante do Batalho da Polcia do Exrcito, era o coronel Domingos Pinto Ventura Jr. Grande figura, ficou meu amigo at morrer, aos 91 anos. Como participara da FEB, foi presidente da Associao dos Expedicionrios, no deixavam que sasse.

Me levou para um cubculo de 3 por 4, no era o que me preocupava, e sim o que disse: “Jornalista, o senhor EST PRESO INCOMUNICVEL POR ORDEM DO MINISTRO DA GUERRA. NO PODE RECEBER FAMILIARES OU ADVOGADOS“. Mais tarde eles chegaram. Alm de Adauto Cardoso e Prudente de Moraes neto, Sobral Pinto e Prado Kelly. O coronel, educado e articulado, comunicou: “Os senhores no podem falar com o jornalista. Estou cumprindo ordens do ministro da Guerra”.

Para completar a farsa, outra determinao do ministro: como eu tinha direito PRISO ESPECIAL, e alm do mais no cometera nenhum crime, colocaram na porta do crcere, um papel escrito: “PRISO ESPECIAL”.

***

PS – Fiquei apenas mais dois dias naBaro de Mesquita, com todas as restries, at a comida era levada para o meu catre. Mas o coronel ia sempre conversar comigo. Obrigatoriamente, dois soldados perto, um deles estava lendo o “Jornal dosSports”, perguntei ao coronel se podia me emprestar.

PS2 – Constrangidssimo respondeu: “No posso, jornalista, estaria desobedecendo a ordem do ministro”. Mas me levava livros sobre Napoleo, lgico, dolo militar, livros sobre ele, em todo e qualquer quartel.

PS3 – poca deadversidade, estvamos em plena crise de energia, (o famoso RACIONAMENTO) a partir das 6 da tarde, ficava tudo completamente escuro. Tinha que empurrar uma mesinha, para atravs de uma janela estreita, ver a luz dos faris dos carros que passavam.

PS4 – Dia 24 ou 25, fui levado para Braslia, por ordem do presidente do Supremo, ministro Ribeiro da Costa. (Amanh, termino. O episdio rigorosamente histrico, no pela minha priso, mas por tudo que ela envolvia).

AMANH: O FIM DA HISTRIA
Pediram 15 anos de priso por causa da publicao de uma
circular SIGILOSA E CONFIDENCIAL. Se eu tivesse
cometido homicdio, quanto pediriam?

This entry was posted in Sem categoria. Bookmark the permalink.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.