Miniescândalos na mídia e a crise de identidade que mantém estagnado o Brasil

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Artigo na Der Spiegel leva a reflexões sobre o que é mesmo importante

Mathias Erdtmann

Foi publicado no site da revista alemã Der Spiegel um interessante artigo sobre um novo fenômeno social que foi observado pelo jornalista Nils Minkmar. É o chamado miniescândalo: um assunto no qual a pessoa possa se manifestar com veemência, paixão, fúria, e cuja irrelevância está acima de qualquer questionamento. Através do miniescândalo, as pessoas se comunicam socialmente, sem, na verdade, se comprometer ou se arriscar em absolutamente nada, pois se trata, por definição, de um assunto irrelevante.

Segue então listando exemplos teutônicos: as regras de vestimentas infantis nos jardins de infância, as palavras grosseiras nos cartazes da extrema direita das últimas eleições (“Eu prefiro biquini à burka”), ou, o exemplo mais recente, se o coelhinho da páscoa devia ser abolido ou renomeado “Lebre da tradição” para que a versão politicamente correta inclua a comunidade muçulmana. (O autor até ironiza: Coelho de chocolate já não faz parte da bíblia, e portanto o coelho não distingue credo).

FORMA DE FUGA – Por fim, salienta que esse foco nas discussão da polêmica irrelevante é uma forma de fuga, que mostra, na verdade, uma grave crise de identidade. No caso germânico, é um misto de medo primário de incorporar a cultura muçulmana, vergonha de relembrar a grave história da nação e fraqueza para encarar o desafiador futuro.

Enquanto ficam presos no miniescândalo, não se discute, por exemplo, a situação econômica com o fim do motor a combustão, que é a base da economia germânica. Como fazer a transição para outra economia mais moderna?

DEPENDÊNCIA – Quando eu fiz meu fim-de-curso de engenharia em Aachen, em 2006, fui convidado a uma discussão sobre a economia industrial alemã, e me surpreendi com a clareza e transparência com que o assunto foi abordado: foi exposto sem meias palavras que a Alemanha era totalmente dependente dos países subdesenvolvidos fornecedores de commodities, e gerava excedentes econômicos no beneficiamento e industrialização destes produtos, vendendo-os, sobretudo, para os mesmos países que eram donos dos commodities, com lucro.

Assim, a posição do país seria frágil, pois em algum momento estes países fariam o óbvio – beneficiamento próprio – e então, o que seria da Alemanha?

FRUGALIDADE – Embora não seja uma solução, apontou-se a frugalidade e a convivência saudável com a natureza e sociedade como um modo de se preparar para uma economia menos rentável. E dois anos depois a crise de 2008, por motivo diverso, tornou de fato a economia menos rentável e a frugalidade levou ao relativo êxito alemão dentro do bloco europeu.

Eu acho que os alemães encaram de maneira sadia e pragmática suas dificuldades, e assim, acabam conseguindo navegar e vencer as dificuldades.

E aqui, na nossa pátria amada? O Brasil, como dizem, não é pra amadores, e tudo acontece com uma energia e paixão que estão em outro nível. O nosso miniescândalo é a realização pública de ato onde um homem urina em outro (com objetivos oníricos ?!), e o problema de verdade é colocar para trabalhar um contingente de 25 milhões de trabalhadores  (desempregados-desacalentados-subempregados) e tirar 60 milhões da lista negra de devedores.

Esta força de trabalho, que representa 25% da população ativa, se empregada com eficiência equivalente à media do trabalhador ocupado, poderia elevar em 25% o PIB do país se chegarmos ao pleno emprego. 5% adicionais ao crescimento, ao ano, por 5 anos! Que evolução!

DUAS MISSÕES – A Alemanha está com a missão não trivial de manter um elevadíssimo padrão de vida sem as bases sólidas da segurança alimentar e energética, em meio a uma reinvenção cultural. O Brasil, país do mundo com a mais sólida segurança alimentar do mundo e razoável segurança energética, tem outra missão: edificar uma economia pujante e inclusiva, partindo de bases muito mais sólidas.

Ao redor do mundo a comunicação rápida e rasteira levou ao fenômeno mundial do miniescândalo. Mas é sempre importante pararmos e pensarmos no que é realmente importante, o que seríamos capazes de defender, mesmo que arriscando algo que nos é caro.

15 thoughts on “Miniescândalos na mídia e a crise de identidade que mantém estagnado o Brasil

    • Alex
      você é incansável mesmo.

      Os outros comentaristas estão aqui por prazer, por dilentantismo, por afinidade, pela busca de novas visões etc….

      Voce , certamente está exercendo uma atividade ideologica ou ideologica/financeira.

      Cuidado C.N podemos cansar e abdicar do convivio , aoesar de valorizarmos muito este espaço.

      É muita torração todo o dia na mesma tecla.

      Campanha politica permanente se faz nos partidos ou em época de eleição nos canais apropriados.

      Deixe-nos voltar a poder discutir com alguma serenidade outros temas.

      a proposito vi num blog aqui do sul:

      Do jornalista Carlos Brickmann, do blog chumbogordo.com.br

      Os lucros do assassínio
      Dois presos são apontados como assassinos de Marielle. Cessa com isso a choradeira de que o Governo não queria esclarecer o crime? Não: para os radicais que dividem o mundo entre nós e eles, o assassínio continua sendo culpa de Bolsonaro – embora as prisões tenham ocorrido em seu Governo, embora ele tenha dito que é preciso chegar aos mandantes. Sergio Moro é criticado por não ter dito nada sobre as prisões – embora tenha emitido nota oficial sobre o tema.

      Ô, gente chata! Será que só pensa em lucro político?

      • duarte, alguma dúvida? Só pensam e agem tendo dividendos políticos em vista. Pessoas, eu e você, somos meros detalhes de uma guerra sem fim.

  1. Muito Bom o artigo.

    Quem sabe não possamos reunir os dois, trazendo os planejadores alemães ou pelo menos seus métodos para dentro do Brasil…..

    • Duarte,

      Os alemães não servem como dedo do mundo, no que tange a criticar a política de outras nações.
      Explico:

      O vínculo entre turcos e alemães tem uma longa história. O ápice da chegada de turcos à Alemanha ocorreu quando uma grande quantidade de pessoas foi trabalhar no país nos anos 60, dentro de uma imigração consentida. Hoje eles formam a maior comunidade de origem estrangeira em território alemão, com cerca de 3,4 milhões de pessoas entre cerca de 7,2 milhões de imigrantes.

      Isso ocorreu em função de a Alemanha, destruída após a Segunda Guerra (1939-1945), necessitar de uma reestruturação urgente.

      Iniciativas que buscavam mão-de-obra barata passaram, então, a ser implementadas como uma espécie de continuidade do Plano Marshall (plano de reconstrução europeia financiado basicamente pelos Estados Unidos.)

      A derrocada alemã foi tão grande na época, que, nos anos 50, o país foi o único que não retomou os índices econômicos de antes da guerra, mesmo com mais de 1 bilhão de dólares investidos pelos EUA na recuperação alemã.

      Foi quando, em 1960, a Alemanha assinou um acordo de recrutamento de trabalhadores turcos. Foi aí que uma grande legião de pessoas imigrou para território alemão (não só turcos, mas também portugueses, franceses e iugoslavos, entre outros).

      O objetivo deles era encontrar empregos. O da Alemanha era de revitalizar sua indústria.

      Acontece que o projeto tinha como denominação o termo Gastarbeiter (convidados) e buscava utilizar tal mão-de-obra apenas por um período.
      O plano era de que os trabalhadores, após terminarem seus serviços, em alguns anos, voltassem para a Turquia.

      Mas isso não ocorreu.
      A maioria permaneceu em território alemão.
      Os turcos na Alemanha buscavam a segurança material no país que ajudaram a reerguer. No entanto, acabaram sendo tratados com uma dose de xenofobia e ingratidão.

      A situação ficou ainda pior, após a reunificação alemã, em 1989, quando muitos moradores do lado ocidental reclamaram da sobrecarga econômica que o lado oriental iria trazer.

      As relações entre ambos os países são uma projeção de tempos antigos, influenciadas pela derrocada do Império Bizantino (1453). Desde então, novos impérios tomaram a região onde hoje está o território turco. O último deles, o Império Otomano (1299-1923).

      Quando o Império otomano começou a se enfraquecer, no início do século 20, a Alemanha buscou dar suporte à região, que começava a ser influenciada por interesses russos e eslavos.

      Pode-se dizer que, de uma maneira até contraditória em relação aos tempos atuais, a Alemanha acolheu as demandas dos muçulmanos, que eram os otomanos, para tentar bloquear a ascensão eslava na região.

      Tais movimentações foram o prenúncio da Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Somadas, é claro, à complexidade de outras alianças e interesses, que envolviam também, entre outros, as potências ocidentais França, Inglaterra e Estados Unidos.

      A partir de 1923, o fim do Império Otomano, como consequência daquela guerra, deu origem à atual Turquia. E, por se situar na histórica região da Anatólia, na antiga Ásia Menor, continuou a ser um ponto de interesse para potências europeias, principalmente em função de sua localização estratégica, servindo como uma ponte entre Europa e Ásia.

      Logo, os alemães virem dar palpites sobre mini-escândalos é contraditório, haja vista que são especialistas em GRANDES ESCÂNDALOS!

      A revista Der Spiegel, deveria se preocupar com o maior escândalo da Alemanha desde a Segunda Guerra Mundial, as doações ilegais da era do ex-chanceler Helmut Kohl.

      Esses estrangeiros como gostam de apontar os defeitos dos outros com o dedo sujo, credo!

      Abraço, Duarte.
      Saúde, muita SAÚDE!

      • Caro Bendl

        Sem duvida, a Alemanha berço de tantas contribuições para a civilização ocidental, também é responsável por outros tantos exemplos sofríveis, como tens narrado.
        Nao estava pregando a excelência do humanismo (digamos assim numa forma ampla) da Alemanha, mas sim sua reconhecida capacidade de planejamento, fidelidade à exzcecução dos projetos e qualidade final de seus produtos.

        O exemplo do autor faz referencia , a esta capacidade de prever alguns cenários e reunir a nação em torno das ações necessárias para seu enfrentamentoe é sobre este aspecto que fiz meu comentário.

        Quanto as xenofobias ou similares, cujos efeitos (através de fugas à realidade o autor aborda) sem duvida, apesar de toda expiação feita de forma incomum pelo povo alemão, o culto exagerado à disciplina, o sentimento latente de uma certa distinção de raça, às vezes, ainda me causa alguns arrepios.

        Mas talvez seja um dos poucos povos que tenta exorcizar seus fantasmas publica e constantemente.

        Saude e paz

  2. Em manifestações anteriores critiquei duramente a maneira como se comporta o Alex Cardoso neste blog.

    Evidente que, no sentido de analisar os seus comentários, invariavelmente ácidos contra Bolsonaro, havendo ou não razões para tanto repúdio.

    Independente de cumprir com o seu papel de querer ajudar na destruição da imagem do Presidente da República, Alex não se importa sequer se o que registra é verdadeiro ou solene mentira.

    E, mais uma vez, acima, tem o caradurismo de afirmar que Bolsonaro é “racista, homofóbico e ditador”.
    Com apenas três meses de governo incompletos e ELEITO DEMOCRATICAMENTE PELA MAIORIA DO POVO BRASILEIRO, os lulistas o denominam de tirano!

    Lula, ladrão e genocida, que queria a qualquer custo eternizar-se no poder, para esta esquerda burra é democracia, mesmo que as campanhas petistas usassem dinheiro roubado do povo em quantias bilionárias!

    Causa-me espécie que Alex perdeu o senso das medidas completamente, e não leva em conta, na maioria das vezes, o ridículo da sua permanência na TI deste jeito, na defesa do indefensável e impensável retorno de Lula e/ou do PT ao Planalto!

    Curiosamente, Lula foi quem ofendeu a cidade de Pelotas (homofobia explícita), e destratou as mulheres com o seu preconceito espúrio contra a sexualidade das mesmas, ao dizer alto e bom som que, duas das suas colegas de partido tinham o “grelo duro”.

    Alex não se dá o trabalho de sequer olhar para trás, cego e objetivado em postar as suas mentiras e palavras deploráveis!

  3. Caro Bendl

    Começo a desconfiar que temos algumas afinidades e valores similares a defender.

    Ao mesmo tempo, fizemos manifestações na mesma direção em relação ao nosso “guerreiro ” Alex.

    Assino embaixo.

    Abs

  4. O Autor, Sr. MATHIAS ERDTMANN foca no principal problema Brasileiro: Como colocar na Produção, +-, 25 – 30 Milhões de Brasileiros atualmente desempregados, desalentados, sub-empregados…
    Isso aumentaria o PIB, e principalmente a Massa Salarial, em +- 25% sem contar outros efeitos multiplicadores. É isso e mais nada que ativa o primeiro e mais importante dos motores do crescimento da Economia: o “Investimento”. Sem aumento da Demanda Efetiva (basicamente Massa Salarial) não tem Investimento.
    O segundo motor, e são só dois, é a Exportação.
    Tem o Brasil que fazer um grande esforço para aumentar em muito nossa Exportação, Tudo o que entrava a Exportação tem URGENTEMENTE de ser removido.

    Tudo o que o Governo BOLSONARO-MOURÃO está fazendo está certo ( tentando conter o Endividamento Público, reduzindo o Deficit Fiscal, reduzindo o Deficit do Balanço de Pagamentos Internacional, etc), mas sem ativar a DEMANDA EFETIVA ( Massa Salarial) não haverá INVESTIMENTO, e sem Investimento não haverá crescimento Econômico gerador da espiral virtuosa.

    A nosso ver, a solução tem a ver com o uso do CRÉDITO pelo Banco Central. Tem o Governo BOLSONARO-MOURÃO que estudar cuidadosamente a questão do CRÉDITO para ativar a DEMANDA. O New Dial do Presidente ROOSEVELT ( 1933 ) seria um bom começo de estudos.

    • Caro Flávio José Bortolotto … Saudações!

      O amigo continua com sua finesse na escrita!!!

      Sou mais claro … minha decepção com Bolsonaro é continuar deixando o Banco Central dar crédito aos bancos em vez de levar os bancos a darem crédito à Produção … como faz Trump!!!

      Abraços.

  5. E depois chamam esse clã bolsonardo de hetero!!
    Cambada de biba bagual firula escandalosa, isso sim!!!!!
    Este é o governo que vive de miniescandalos por falta de um megaprojeto de governo que o Brasil tanto precisa….

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