Ministério de Dilma não pode ser o de Lula

É isso que está no título. O ministério da presidente Dilma Rousseff – salvo uma exceção ou outra – não pode ser o que acompanhou o presidente Lula ao longo de seus dois mandatos. Não faria o menor sentido. Descaracterizaria a passagem do poder, pois a continuidade de uma política não significa, tampouco   poderia significar, a permanência da equipe. Cada pessoa tem o seu estilo, suas afinidades, suas distâncias, simpatias e antipatias. Além do mais, se uma parcela expressiva de auxiliares fosse mantida, estabelecer-se-ia uma dualidade de poder absolutamente indesejável tanto para Lula, quanto para Rousseff. Pessoas ou grupos não atendidos por esta, inevitavelmente iriam procurar aquele.

Não tem sentido, sobretudo  sentido político. O poder não se divide, nem se exerce por delegação. O exercício do poder será eternamente um gesto solitário do governante. Ele é o responsável por tudo, em última análise. Sua luta é para ser solidário com as forças que o elegeram, no caso a elegeram, e também em relação à sociedade de modo geral. Tem que governar para todos, mas nem todos os partidos podem estar representados no seu esquema parlamentar de sustentação.

Aliás, Dilma Rousseff no seu primeiro pronunciamento depois de vencer nas urnas, disse clara e diretamente que vai governar com as forças que a levaram à vitória, mas não cogitando incorporar à equipe pessoas envolvidas em processos judiciais e as que não demonstrarem competência suficiente para o desempenho das funções indicadas. Assim, tudo leva a crer que ela naturalmente pedirá listas tríplices que analisará dentro das colocações partidárias. Assim, as agremiações indicam alternativas, porém cada escolhido ficará a dever sua nomeação à presidente, não totalmente à legenda.

Em alguns casos, já ocorreram exclusões prévias, uma vez que as opiniões manifestadas por alguns colidem com a criação que traçou no primeiro lance, depois das urnas. É o caso, por exemplo, dos que defenderam o controle da mídia. Ela afirmou ser contrária a qualquer medida que implique censura ou restrição à liberdade do jornalismo.

Reportagem de Simone Iglesias, Sheila Damorim e Márcio Falcão, Folha de São Paulo de 5/11, focalizou o tema, levantado pelo próprio Lula na véspera, acrescido de sua disposição de se empenhar por uma reforma política em 2011. A primeira parte do espaço na FSP está melhor e bem mais nítido do que o segundo. Sobretudo porque o segundo encontra-se em choque com o primeiro. Pois se ele, Lula, não vai interferir no governo, no que está certo, como poderá atuar na reforma política? Sobretudo porque, ao longo de seus oito anos de Planalto, o presidente que encerra seu período jamais se voltou para a reforma política, muito menos para as eleições distritais, sistema misto alemão de listas partidárias, exigência de percentagem de votos para que as legendas menores sobrevivam. Aliás este último aspecto é ocioso e desnecessário, uma vez que é livre a criação de agremiações políticas. Desta forma, os que submergissem nas urnas, emergiriam no episódio da criação de novos partidos. É trocar seis por meia dúzia.

Assim, para evitar qualquer perspectiva de dualidade Lula deve ser nomeado por Dilma – opinião minha – para um posto no exterior, mais provavelmente embaixador do Brasil junto à ONU. Cargo de altíssimo relevo, dependendo, claro, da pessoa que o exerce. Já foi ocupado, basta dizer, por homens como Oswaldo Aranha, Afonso Arinos e Santiago Dantas. É suficiente citar os três vultos para que se alcance facilmente a dimensão do posto. Lula em Nova Iorque, Dilma Rousseff em Brasília e está resolvida a primeira parte da questão política, que começa daqui a menos de dois meses.

A segunda etapa vem depois.

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