Ministros de primeira e de segunda classe

Carlos Chagas

Tantas tem sido as exigências feitas, as protelações aceitas  e as  humilhações sofridas pelos  partidos na formação do ministério  Dilma Rousseff que o resultado não poderia ser outro: vai-se delineando o perfil  de um frankenstein,  no que se refere às vagas postas à disposição dos políticos. Não se fala da chamada cota pessoal da presidente eleita, corretamente preenchida, ainda que não se torne necessário concordar com os conceitos dos escolhidos. Mas formam um time coordenado, pronto para entrar em campo. Já os indicados pelo PMDB, PT, PSB, PR, PDT, PC do B e penduricalhos, com raras exceções, dão a impressão de jamais terem sido apresentados à bola, às chuteiras e às traves.

Assim, estabelecida a diferença, a pergunta que se faz é sobre qual o primeiro desses ministros pela metade será catapultado sem hesitação nem misericórdia. Quantos  meses vai durar esse plantel até que um ou mais de  seus expoentes receba o bilhete azul? O temperamento da presidente eleita não deixa dúvidas sobre a inflexibilidade de suas cobranças e a consequência de sua frustração.

Estamos diante de singular dicotomia, porque serão empossados em  janeiro ministros de primeira e ministros de segunda classe. Raras vezes, no passado, registrou-se fenômeno igual: atores competentes,  de um lado, figurantes indecisos,  de outro.

Fulanizar será falta de caridade, mas basta ver como certos nomes passam da área social para o setor de infra-estrutura, ou deste para o de serviços,   como quem muda de camisa. Imaginam-se   prontos para executar a partitura que lhes cair sobre o nariz,  jamais tendo praticado com um oboé, um clarinete ou um bumbo. Ainda bem que não lhes está sendo  oferecido o violino ou o piano.

Uma conclusão lateral a tirar: parece que o governo funcionaria   melhor  com menos ministros.

LONGOS INTERREGNOS

Não dá para aceitar  o presidente Lula  declarando que nem um centavo será retirado das obras do PAC, no governo Dilma Rousseff, sem ter  combinado a observação com a presidente eleita. Pode ter sido uma forma de deixar claro que as divergências  entre eles serão naturais, que não haverá um comandante oculto no palácio do Planalto. A manutenção de Guido Mantega no ministério da Fazenda foi uma sugestão do Lula. Como explicar, assim, que tenha sido desmentido por seu próprio mentor?

Tem gente achando que esses desencontros são reais, devendo-se  ao longo período entre a eleição e a posse, quando passam a conviver dois presidentes da República, o que entra e o que sai. Devem conformar-se porque no passado já foi pior. As posses costumavam realizar-se no último dia de janeiro, não no primeiro. Mas o que dizer da República Velha, quando as eleições aconteciam a Primeiro de Março e as posses, a Quinze de Novembro? Só para refrescar a memória de quem ignora por que: na primeira data comemorava-se a vitória do Brasil na Guerra do Paraguai; na segunda, a Proclamação da República. Já imaginaram oito meses e meio para Dilma esgrimir com os partidos e escolher o ministério,  com o Lula governando? Seria bom que no bojo da reforma política sempre anunciada e nunca realizada um parlamentar apresentasse emenda constitucional estabelecendo a posse do eleito uma semana depois de proclamados os resultados pela Justiça Eleitoral.

MENOS VIAGENS

A primeira viagem  de Dilma Rousseff ao exterior  será em janeiro,  aos Estados Unidos, para encontro com o presidente Barack Obama. É claro que no correr de seu governo  a presidente atenderá a uma série de compromissos externos, na medida de suas necessidades, mas, pelo jeito, viajará menos do que o Lula. Sua prioridade maior será o território nacional.

PERSEGUIÇÃO

Decidiu o Tribunal Superior Eleitoral, através da ministra Carmem Lúcia, também integrante do Supremo Tribunal Federal, não reconhecer a eleição do casal Capiberibe, votado no Amapá, João para senador, Janete para deputada federal. Sua votação foi considerada nula e no Senado assumirá o derrotado Gilvam Borges.

Com todo o respeito, à luz da voz rouca das ruas de Macapá, a decisão é injusta. Primeiro porque venceram a eleição. Depois porque haviam sido objeto de discutível cassação quando ocupavam os dois cargos, acusados de comprar três eleitoras, no pleito de 2002, por 26 reais cada uma. Ficou provado, depois, que elas mentiram à Justiça Eleitoral, sendo subornadas pelos adversários dos Capiberibe. Mesmo assim, 26 reais por voto, sendo apenas três, é ridículo. Por conta daquela cassação,  agora foram impedidos de receber o diploma a que tem direito pelo voto.

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