Missa de Dom Orani e ceia no Alemão nada resolvem

Pedro do Coutto

Na edição de domingo, O Globo publicou reportagem de Tais Mendes e Gabriel Mascarenhas focalizando a missa celebrada pelo Arcebispo do Rio de Janeiro, Dom Orani Tempesta, rezando pela paz no Complexo do Alemão e na Vila Cruzeiro. Subiram e desceram os degraus da Igreja da Penha o Secretário de Segurança José Mariano Beltrame e o general Adriano Pereira, Comandante Militar do Leste, portanto o responsável pela presença das Forças Armadas na tomada e na ocupação daquele do tráfico abandonado pela fuga dos criminosos.

Fuga? Romperam o cerco? Não. Mas este é outro problema. Também no domingo, a Folha de São Paulo editou matéria de Felipe Caruso, com foto no alto da primeira página, mostrando a ceia de Natal que reuniu um batalhão do Exército no mirante do morro do Alemão. Em ambos os casos, moradores pediram paz e as forças de ocupação se comprometeram com ela.

Forças de ocupação, sim. Aliás como escreveu Clovis Rossi na página 2 da Folha de S. Paulo de domingo. Na realidade, não são tropas de pacificação, pois estas pressupõem acordo entre as partes em conflito. Não houve, tampouco poderia haver pacificação alguma. Não pode haver entendimento entre o poder público e o crime. Da mesma forma que não pode existir acordo entre a ordem e a desordem, entre o plano legal e o ilegal.

As tropas federais que conseguiram ocupar o alemão e a Vila Cruzeiro fizeram o que o governo Sérgio Cabral não conseguiu em 2007 após cem dias de conflito diário. Logo, o governador perdeu acentuada parcela de poder no episódio. Tanto assim que não compareceu à missa de Dom Orani. Mas este constitui outro ângulo da questão.

O essencial é que nem a celebração religiosa, nem a ceia cristã na ex-fortaleza do tráfico não resolveram o desafio maior que é o comércio abominável de drogas efetuado por grupos fortemente armados. Foram belos gestos simbólicos, mas não – tampouco poderiam ser – substantivos. Pois quem, afinal de contas, pode ser contra a paz? Ninguém. Todos são a favor, mas é preciso que essa paz seja efetiva, não episódica.

Enquanto o Exército permanecer no alto da fortaleza derrotada, os traficantes estarão agindo em outro lugar. Havia seiscentos deles cercados no desfecho recente quando tanques de guerra da Marinha arrebentaram as barricadas construídas na subida da ladeira principal. Armados, divulgou o Secretário de Segurança. Escaparam.

Mas onde deixaram as armas ou para onde as levaram consigo? Andaram pelo meio das ruas e das matas das encostas verdes sem serem notados? Impossível. Eram seiscentos. Os armamentos e as munições foram transportadas para outro reduto ou outros redutos. O tráfico continua no Rio em diversos mercados cujo acesso ocorre através de vias sinuosas e obscuras, tendo nas margens pobres vítimas do vício, dos viciados, dos bandidos.

Missa e ceia, atos cristãos, são bons para publicar nos jornais. São matérias importantes. Porém representam o começo de uma nova e longa jornada. A guerra do Rio não acabou. Porque enquanto houver consumo de drogas, haverá venda, e, enquanto houver corrupção, o crime, organizado ou não, permanecerá agindo nas sombras que envolvem os que se viciam, que se vendem. Tão imundo quanto lucrativo. A raiz do problema é esta. Não está na ocupação de duas, mas sim no domínio ilegal de outras novecentas favelas que existem no Rio de Janeiro.

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