Moraes e Temer querem que seja esquecido o que defenderam brilhantemente

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Moraes e Temer defendiam a tese que agora desprezam 

Luiz Maklouf Carvalho
Estadão

Em tese de doutorado apresentada na Faculdade de Direito da USP, em julho de 2000, o hoje ministro da Justiça, Alexandre de Moraes, defendeu que, na indicação ao cargo de ministro do Supremo Tribunal Federal, fossem vedados os que exercem cargos de confiança “durante o mandato do presidente da República em exercício” para que se evitasse “demonstração de gratidão política”. Por esse critério, ele próprio, um dos citados candidatos à sucessão do ministro Teori Zavascki, estaria impedido de ser indicado pelo presidente Michel Temer.

O veto sugerido por Moraes está no ponto 103 da conclusão da tese. Ele diz: “É vedado (para o cargo de ministro do STF) o acesso daqueles que estiverem no exercício ou tiveram exercido cargo de confiança no Poder Executivo, mandatos eletivos, ou o cargo de procurador-geral da República, durante o mandato do presidente da República em exercício no momento da escolha, de maneira a evitar-se demonstração de gratidão política ou compromissos que comprometam a independência de nossa Corte Constitucional”.

O ministro não quis dar entrevista sobre sua tese de doutorado. Um sumário da mesma está no banco de dados bibliográficos da USP (dedalus.usp.br).

MUDANÇA NA ESCOLHA – O título da tese é “Jurisdição constitucional e tribunais constitucionais: garantia suprema da Constituição”. Além do veto já citado, Moraes defende que os ministros do Supremo tenham mandato por tempo determinado, e não a vitaliciedade prevista na Constituição de 1988.

Defende, também, mudança expressiva na forma da escolha dos 11 ministros: quatro pelo presidente da República (“mediante prévio parecer opinativo do Conselho Federal da OAB”), quatro eleitos pelo Congresso e três escolhidos pelo próprio STF. Pela Constituição, hoje os onze ministros são escolhidos pelo presidente da República – como Michel Temer fará ao indicar o substituto de Teori Zavascki, morto mês passado – e, depois, sabatinados pelo Senado, que tem a palavra final.

A tese – um “tijolo” de 416 páginas, originais disponíveis na biblioteca da USP do Largo de São Francisco – foi orientada pelo jurista e professor Dalmo Dallari. “Como estudioso do direito, ele é melhor do que nos cargos executivos, inclusive o de ministro”, disse Dallari ao Estado. O professor emérito lembrou do doutorando, mas não quis fazer maiores comentários. Os demais integrantes da banca foram o hoje ministro do STF Ricardo Lewandowski e os professores Paulo de Barros Carvalho, Celso Fernandes Campilongo e Mônica Garcia. Aprovaram a tese, mas sem o “com louvor” que costuma brindar trabalhos mais elaborados e/ou originais.

FÃ DE TEMER – Já naquele 2000 – quase 12 anos passados depois da Constituinte, que neste fevereiro completa três décadas –, Alexandre de Moraes era fã do hoje presidente Michel Temer. Não só o citou na bibliografia do cartapácio – Temer, Michel – “Constituição e política”, 1994; “Elementos de Direito Constitucional”, 1995 – como, mais relevante, defendeu, na tese, quase as mesmas posições do constituinte Temer, também favorável a mandatos e a uma nova forma de composição e de escolha dos ministros do Supremo Tribunal Federal, propostas (não só dele) derrotadas nas votações.

A ideia central da tese é, em juridiquês repetitivo, “identificar a necessidade de uma atuação efetiva e eficiente da justiça constitucional, por meio de seu órgão máximo, o Tribunal Constitucional, como meio de garantir a supremacia constitucional”.

EM OUTROS PAÍSES – Na primeira parte, Moraes teoriza sobre o direito constitucional. Na segunda, detalha, relatorialmente, como funciona a justiça constitucional em alguns países (modelos americano, alemão, austríaco e francês). Na última parte, menos árida, debulha a jurisdição constitucional brasileira, e o Supremo Tribunal Federal.

“Após a análise detalhada da evolução histórica do STF e de suas competências constitucionais, concluiu-se pela necessidade de sua transformação em exclusiva (grifo no original) Corte de Constitucionalidade, dirigindo seus trabalhos para a finalidade básica de preservação de supremacia constitucional e defesa intransigente dos direitos fundamentais”, escreveu o agora ministro e também autor de outras obras jurídicas.

Nos 110 pontos em que dividiu a conclusão de sua tese, Moraes fez inúmeras sugestões de mudanças – como a do mandato e da nova forma de escolha dos ministros do STF. Uma outra diz que a Constituição “deverá exigir maiores requisitos capacitários para o exercício do cargo de ministro do Supremo Tribunal Federal, além de maiores vedações e incompatibilidades”.

Entre as condições “capacitárias”, dez anos de efetivo exercício de cargos privativos de bacharel em Direito, ou a condição de jurista, com o título de doutor. Para os três a serem escolhidos pela própria Corte, dez anos de carreira no magistério ou no Ministério Público. Entre as vedações, aquela que hoje, se vigente, impediria a sua indicação para o cargo.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
Belíssima matéria de Luiz Maklouf Carvalho. Mostra que a tese de Moraes era brilhante e propôs algumas mudanças realmente necessárias no sistema de escolha de ministros do STF, que o próprio Michel Temer também defendeu um dia, mas agora não soube honrar. A tese só não foi aprovada “com louvor” porque não era original na essência. Agora, Moraes e Temer imitam FHC e querem que sejam esquecidas as coisas que escreveram, como se isso fosse possível na era da internet. É uma situação deprimente, decepcionante e deplorável, sem a menor dúvida. (C.N.)

19 thoughts on “Moraes e Temer querem que seja esquecido o que defenderam brilhantemente

  1. Tem, primeiro que mudar o sistema de escolha de ministros para o STF. Se não mudar o sistema, vai continuar a indicação de ministro para o STF a vontade do presidente da república.

  2. No Brasil, “homem público”, é literalmente o masculino de “mulher pública”.
    Alguém lembra qual foi a última eleição em que o Michel Temer foi candidato e se elegeu? Pois é, para saber, só recorrendo a velhos “alfarrábios”

  3. Aqui fica a dúvida.
    Encheram a bola de Ives Gandra, etc e tal…
    Se for comprovado que esse senhor participou dessa encenação, acaba de perder o respeito da sociedade.
    O maquiavélico “presidente” armou toda a cena e mostrou que não passa de um…….
    Nomeou um cara que se tem conhecimento jurídico ou não, neste momento talvez seja irrelevante, mas que demonstrou ser um grande mentiroso.

  4. o “pacificador” se blinda por todos os lados para se garantir na presidência,e a nossa sempre vigilante imprensa está preocupada com a ida ou não de donald trump a Inglaterra.

  5. o fhc nomeou o Gilmar mendes seu advogado geral da união Gilmar mendes, pior foi o Fernando Collor de melo que nomeou o seu primo marco Aurélio.é claro que o “pacificador” também iria nomear um protegido.

  6. Qualquer dia desse saberemos quem foi o verdadeiro autor da tese de doutorado e quanto custou… ao contribuinte. Um camarada enrolado que nem papel higiênico como esse, não tem o dom de fazer alguma coisa que preste!
    Infelizmentente so conheceremos suas verdadeiras capacitancias intereletrodicas quando ele começar a fazer cag**** no supremo tribunal de apadrinhados.

  7. Sei não…
    Esse é o maior perigo para a sociedade; a amnésia que baixa nas autoridades, vaidosas, que pensam comandar o país.

    Os frutos de tantos esquecimentos e a absoluta ausência de ações que se fazem vitais para chegarmos a Ordem e Progresso, nos torna, como nação, alvo cada vez mais presente do crime organizado, instituição que viceja como poder paralelo nos estados brasileiros.
    No andar da carruagem, o que nos espera no futuro?..

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