Moreira Franco presidindo o “Conselhão”, dezenas postaram notas. A maioria escrevendo “pensei que ele estivesse morto”. Aos 66 anos, quantas acusações, continua “muito vivo”.

Helio Fernandes

Nem ele acreditava que fosse presidir o mais alto Conselho da República, alto até mesmo em número. Mas presidiu, e com um fato que deve ser ressaltado, registrado e ressalvado: presidiu, com a presença da própria presidente da República.

Foi exigência do PMDB, da cúpula, do vice Michel Temer, que não escondia para correligionários: “Estou em dívida com Moreira Franco, a Secretaria (chamado de Ministro) de Assuntos Estratégicos, não era o que ele pretendia”.

Nessa matéria, Temer não pode ser desmentido de forma alguma, se mantém bem no alto do PMDB, apesar de não ter votos para coisa alguma. Nem mesmo para deputado federal. Em 2006 ficou como suplente, o último foi cassado, entrou.

Ele e Moreira Franco são amicíssimos, mas não de muito tempo. Moreira Franco tem uma carreira tumultuada, agitada, encrencada (não foi estraçalhada por circunstancias inexplicáveis) de mais de 35 anos. Em 1982, a primeira eleição direta para governador, que a ditadura foi obrigada a conceder, mas ressaltando: “Para governador, vá lá, mas para presidente, de jeito algum”.

Sabiam das coisas, o primeiro presidente eleito só chegou ao Poder em 1989, por acaso, nada a ver com a primeira eleição de Lula. Que surpreendentemente passou ao segundo turno, meio por cento de votos na frente de Brizola. (Foi quando surgiu a expressão “sapo barbudo”, Brizola estava certo de que iria para o segundo turno).

Moreira Franco, como ex-prefeito de Niterói, foi candidato ao governo do Estado do Rio, já existia a criminosa fusão, feita pro Geisel, assassinando a Guanabara. Seu adversário foi Brizola, ex-governador do rio Grande do Sul, deputado mais votado da Guanabara, em 1962, com Lacerda governador.

Quando houve essa fusão, 1975, Brizola estava no exílio, Geisel no Poder e sabendo de muita coisa. É preciso não subestimar Ernesto Geisel. (Espartano e não ateniense como o irmão, vetado pelo próprio Alto Comando quando quis ser presidente, com Costa e Silva INCAPACITADO oficialmente por doença.

 Na época, com este repórter e a Tribuna da Imprensa ferozmente censurados, soube de um fato que poucos sabiam e que pode parecer surpreendente. Geisel fez a fusão, porque a Guanabara, mesmo antes, como Distrito Federal, era baluarte da oposição. Não elegia governador, votava para presidente, nada excepcional que Geisel pensasse na volta de Brizola, que ele mesmo sabia que estava perto. (Sibilinamente, deixei entrever isso, era o máximo que podia fazer).

Aconteceu (a volta) 4 anos depois. Brizola, três anos mais tarde, disputou o governo não da Guanabara, mas do Estado do Rio. E também com um Moreira Franco apenas nominal. Na verdade, os adversários: radicais da ditadura, ainda vivos, e a Organização Globo, que admitia tudo, menos Brizola governador, e do estado onde tinha sua base mais forte.

Houve o episódio da “Proconsult”, um escândalo nacional, que se tornou conhecidíssimo e estarrecedor. Nem vou me alongar, Brizola ia sendo roubado, muitos sabem da historia, embora ninguém saiba como Pedro do Coutto, que evitou tudo.

Moreira Franco ia sendo governador por causa da Globo e de alguns jornalistas da Organização, subservientes, servos e submissos. Quando Brizola tomou posse, esses jornalistas foram demitidos. Roberto Marinho, como pistoleiros famosos, não perdoava.

Moreira Franco continuou sem ser atingido, em 1986, fim do mandato de Brizola, se elegeu governador. Tomou posse em 1987, e logo apresentou o projeto do metrô de Ipanema, prioridade absoluta. Tão prioritário que foi inaugurado quase no fim de 2010, 23 anos depois, e com o preço 9 vezes mais caro.

Foi acusadissimo, primeira página sempre contra ele, permaneceu no alto da pirâmide partidária, sem uma ausência, fosse em qualquer época. Em 1998 se candidatou a senador, equivoco completo. Motivo? Era apenas uma vaga, com duas poderia se eleger.

Mas foi imediatamente convidado pelo então presidente FHC para Assessor Especial. Já com Lula foi nomeado para a Caixa Econômica, diretor do Departamento de Loterias, jamais ficou com um bilhete em branco, política e administrativamente falando. Ainda não se tornara amigo de Temer, já ensaiava uma aproximação. Que nem era necessária. Indispensável. Proveitosa.

Moreira Franco é inimaginável. Governador pelo PMDB, assessor especial de FHC, PSDB. Diretor da Caixa Econômica com Lula, PT. Agora, Ministro de Dona Dilma, presidindo reunião com ela presente. Duas vezes servindo ao PT, não é coerência, apenas circunstancia. O PT repete o governo. Moreira tem que acompanhá-lo.

Agora Moreira Franco é Ministro, ninguém vai chamá-lo de secretário. E ministro-estrategista, o que parecia privativo de militar e não de sociólogo, que nem se lembra em que faculdade se diplomou.

Com 66 anos de idade, Moreira Franco acredita muito nele mesmo, na carreira que fez. Nada a ver com a ginástica, muito com o destino. E não se descuida dos objetivos, conseguiu, vá lá, conquistou tudo que pretendeu. Não foi senador, mas se fosse, não teria sido assessor de um presidente (FHC). Onde acumulou uma fabulosa fortuna de conhecimentos. Mesmo que não saiba nada, ninguém passa pela Presidência da Republica e sai exibindo menos do que tinha quando entrou.

Sua próxima passagem, em 2014, quando estará completando 70 anos: a vice-presidencia. Sabe duas coisas. 1 – O amigo Temer não se aborrecerá. 2 – A presidência é muito, mesmo como sonho, objetivo e  ambição. Considera a vice bastante natural.

*** 

PS – Brizola não é o personagem principal destas lembranças, entrou aqui, por causa da disputa com Moreira Franco. Nada impede que cite duas afirmações sobre ele. Paulo Solon: “Brizola construiu a Linha Vermelha, sem pedágio. Grande Brizola, caudilho-democrata”.

PS2 – Antonio Santos Aquino: “Em 1962 quiseram roubar o governo ganho por Brizola”. Tenho respeito e admiração pelo Aquino, excelente colaborador, durante anos da Tribuna impressa. Mas o que admiro nele é a capacidade de ser partidário de Jango e de Brizola, ao mesmo tempo.

PS3 – Em 1963, o individualista Jango vetou o nacionalista Brizola. Quis ser Ministro da Fazenda, seria “a” Revolução. Jango ouviu Roberto Marinho e o embaixador golpista, Lincoln Gordon (que nem merece o nome), que lhe disseram: “Se você nomear Brizola Ministro, não termina o mandato”. Não nomeou e não terminou.

PS4 – O embaixador, numa cadeira. Roberto Marinho, sentando na cama do presidente. Como é que se chama isso?

PS5 – Esse é um tempo de decadência, a vida pública brasileira torturada pela audácia, pela falta de classe e categoria. Que presidente permitiria que alguem conversasse com ele, sentado na sua cama?

PS6 – No dia seguinte, ainda existiam matutinos e vespertinos, estes “fechavam” mais tarde. “O Globo”, na terceira página, destacada, uma foto de Jango, com a legenda:? “O estadista”.

PS7 – A foto e a legenda duraram pouco tempo. Menos de um ano depois, João Goulart era derrubado. Na linha militar, a força da Marinha dos EUA. Na linha civil, a Organização Globo, ainda não tão poderosa. O jornal não se destacava, a televisão surgiria e se consolidaria na ditadura.

PS8 – OS objetivos mais duros e mais dilacerantes, saíram da própria Organização. Afinal, Roberto Marinho sentara na cama de um presidente, precisava ficar no colo dos que vieram nos 21 anos que se seguiram.

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