Moro atrai dissidentes do bolsonarismo e ganha espao na direita para eleio de 2022

CHARGE: Quem canta ao Moro se junta e os males espanta!!! - Se Liga na  Informao

Charge do Kacio (Portal Metrpoles)

Fbio Zanini
Folha

Em 2018, a candidatura de Jair Bolsonaro (ento no PSL, hoje no PL) representou um ponto de encontro para conservadores, liberais, lava-jatistas, antipetistas e suas subdivises. Em 2022, seu ex-ministro Sergio Moro (Podemos) busca construir algo parecido. Menos de um ms aps ter reingressado no cenrio poltico, o ex-juiz vem conquistando apoio em segmentos que foram cruciais para a vitria de Bolsonaro h quatro anos.

Embora ainda no admita a candidatura, Moro tem demonstrado que quer ser uma espcie de guarda-chuva tanto para a direita decepcionada com o presidente quanto para centristas que veem nele um lder moderado ao menos na comparao com Bolsonaro.

ATIVISTAS E LAVA-JATISTAS

Os movimentos que se uniram a partir de 2014 em torno da pauta anticorrupo e organizaram manifestaes pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT) racharam j no comeo do governo Bolsonaro.

Os que foram para a oposio em 2019 agora aderiram pr-candidatura de Moro. o caso do MBL (Movimento Brasil Livre) e do Vem Pra Rua. Ambos estiveram presentes no ato de filiao do ex-juiz ao Podemos, em Braslia, em 10 de novembro.

Personalidades que tm o combate corrupo como bandeira tambm mostram simpatia por Moro, como o professor da USP Modesto Carvalhosa. Para Roberto Livianu, presidente do Instituto No Aceito Corrupo, a candidatura de Moro “ um fato positivo do ponto de vista democrtico”.

AGENDA ANTICORRUPO – “As duas candidaturas que lideram as pesquisas [Lula e Bolsonaro] no so recomendveis do ponto de vista da agenda anticorrupo”, afirma Livianu.

Segundo ele, Moro tem a simpatia de muitos que atuam na rea, mas isso no significa que o ex-juiz estar livre de questionamentos.

“Muita gente que se dedica a combater a corrupo tem preocupao com a forma como foi conduzido o processo contra Lula, e h tambm os senes por Moro ter participado do governo Bolsonaro”, diz.

INFLUENCIADORES – A maioria dos influenciadores digitais de direita segue fiel a Bolsonaro, a comear pelo principal deles, o escritor Olavo de Carvalho. Fazem crticas ao que veem como fraqueza do presidente no combate esquerda, mas devem repetir o apoio a Bolsonaro em 2022. Esto nessa categoria nomes como Allan dos Santos, Bernardo Kster e Rodrigo Constantino, entre outros.

Na semana passada, o comentarista Caio Coppola ensaiou se desgarrar do grupo ao dizer, em um programa na rdio Jovem Pan, que daria um crdito de confiana a Moro. Criticado duramente pela direita bolsonarista nos dias seguintes, teve de recuar.

Entre os principais influenciadores direitistas, poucos aderiram a Moro. Um exemplo foi o ex-bolsonarista Nando Moura, que tem um canal no YouTube com 3,1 milhes de inscritos.

EVANGLICOS – Lderes evanglicos de peso como Silas Malafaia, Edir Macedo e a cpula da Assembleia de Deus seguem defendendo ferrenhamente Bolsonaro, mas Moro pretende em breve fazer incurses pelo segmento.

“Moro se posicionou com relao a vrias agendas, como combate corrupo, economia, sustentabilidade e rea social, mas ainda muito pouco ou nada falou dos seus compromissos com a pauta conservadora”, diz o deputado federal Roberto de Lucena (SP), que do Podemos, mesmo partido de Moro, e tambm uma importante liderana da igreja evanglica Brasil Para Cristo.

Segundo Lucena, preciso esperar o ex-ministro se manifestar sobre temas como aborto, questes de gnero, drogas e casamento gay.

TEMAS CULTURAIS – Desde que Moro rompeu com Bolsonaro, apoiadores do presidente tm tentado caracterizar o ex-ministro como progressista em temas culturais.

Para isso, mencionam declaraes passadas em que Moro defendeu o uso medicinal da maconha e disse ser razovel a deciso da Suprema Corte americana que liberou o aborto nos anos 1970.

Um lder relevante que declarou apoio ao ex-ministro o presidente licenciado da Anajure (Associao Nacional de Juristas Evanglicos), Uziel Santana. Em uma rede social, ele postou foto ao lado de Moro no ato de filiao ao Podemos. “Que Deus o abenoe e sustente nesta dura misso”, escreveu Santana.

MILITARES, TAMBM – O setor mais identificado com o bolsonarismo registra tambm algumas das dissidncias mais visveis pr-Moro. Entre elas esto os generais Carlos Alberto dos Santos Cruz, ex-ministro da Secretaria de Governo de Bolsonaro, Otvio Rego Barros, ex-porta-voz da Presidncia, Maynard Rosa, ex-secretrio de Assuntos Estratgicos, e Paulo Chagas, que disputou o Governo do Distrito Federal em 2018 com apoio do presidente.

“Muita gente vota no Bolsonaro por medo da esquerda. Mas no acho que ele seja a nica soluo para impedir a volta do Lula, num pas de 200 milhes de habitantes”, afirma o general Chagas.

Segundo ele, Moro representa um “caminho do meio”, algo que Bolsonaro deveria ter perseguido desde que venceu a eleio. “Moro defende valores caros aos militares, como soberania e nacionalismo. Ele tem uma viso liberal-conservadora, mencionando a necessidade de olhar para a questo social”, diz.

APOIO NA CASERNA – Bolsonaro ainda desfruta de amplo apoio na caserna, contudo, e tem o respaldo da maioria dos integrantes de instituies como o Clube Militar, por exemplo.

Os defensores de ampliar as possibilidades de porte e posse de armas para a populao tm em geral resistncia a uma candidatura de Moro. Quando era ministro da Justia e Segurana Pblica, ele jamais fez uma defesa explcita do armamento, e chegou a dizer que iniciativas de Bolsonaro nessa rea no haviam passado por sua equipe.

Ativistas pr-armas, como Ben Barbosa e Marcos Pollon, so crticos das posies “desarmamentistas” do ex-juiz. Tendem a defender a reeleio de Bolsonaro, mesmo considerando que as mudanas na legislao foram tmidas no atual governo.

BANCADA DA BALA – Por outro lado, alguns integrantes da “bancada da bala” no Congresso, que so menos suscetveis a presses de ativistas, veem possibilidade de conversar com Moro sobre o tema.

Como disse um deputado, o ex-juiz no frontalmente contra armas, como so partidos de esquerda, mas, sim, defende que seu uso obedea a regras.

E os ruralistas? Outra base tradicional do bolsonarismo, o campo ainda registra poucos lderes de peso apoiando a pr-candidatura de Moro. E o presidente conta com slido respaldo entre um dos principais segmentos do agronegcio, o dos produtores de gros, sobretudo sojicultores.

MUITAS OBRAS – Pesam, na avaliao do setor, obras de infraestrutura como a concluso da pavimentao da BR-163, a chamada “rodovia da soja”, que corta Mato Grosso e Par, a ampliao do porte de armas em propriedades rurais e a retrica contrria ao meio ambiente e aos trabalhadores sem-terra.

“Antes era uma dicotomia: botava algum do agro na agricultura e algum antagnico no meio ambiente. O campo caminhava com um peso nas costas. Hoje no mais assim”, diz o deputado estadual Frederico DAvila (PSL-SP), ligado ao agro e apoiador de Bolsonaro.

Um dos raros representantes do agro que aderiram a Moro Xico Graziano, que foi deputado federal pelo PSDB, apoiou Bolsonaro em 2018 e se diz decepcionado com ele. Segundo ele, a timidez do setor em embarcar na candidatura do ex-juiz natural nesse momento, mas que haver adeses com o tempo. “Est tudo muito aberto ainda. No hora de fazer campanha”.

LIBERAIS – Os defensores do Estado mnimo foram uma fora importante da coalizo que levou vitria de Bolsonaro em 2018. O apoio veio na esteira da nomeao de Paulo Guedes como guru econmico do ento candidato.

O desgaste de Guedes ao longo do mandato, simbolizado pela lentido nas privatizaes e pela deciso de furar o teto de gastos, acabou afastando parte expressiva dos liberais de Bolsonaro.

O ex-juiz vem fazendo acenos a esse grupo. Defendeu publicamente o teto e angariou a simpatia de grupos como o MBL e o Livres.

Tambm nomeou o ex-presidente do Banco Central Affonso Celso Pastore como seu conselheiro econmico, uma medida que foi elogiada por economistas de centro-direita.

INSTITUTO MISES – H 15 dias, Moro reuniu-se com o liberal Hlio Beltro, presidente do Instituto Mises Brasil e colunista da Folha.

“Moro est indo numa direo correta. Est disposto a ouvir liberais, setores mais pragmticos e aqueles que no gostam da polarizao extrema”, diz Beltro, que vem subindo o tom das crticas a Guedes.

Segundo ele, Moro pode ser uma opo aos que decepcionaram com o atual ministro da Economia. “Se ele fizer um plano econmico liberal, ser uma alternativa. Mas, se no fizer, os liberais na hora H vo preferir o Bolsonaro.”

SETOR CULTURAL – Embora a maior parte das lideranas de oposio a Bolsonaro seja alinhada esquerda, tm surgido vozes pr-Moro entre os decepcionados com o atual presidente.

Um deles o ator Carlos Vereza. “A biografia de Moro inatacvel, impoluta”, diz o ator, que se encontrou com o ex-juiz em novembro. Disse que pediu a ele o “resgate da cultura”.

Outro a romper com o presidente e simpatizar com Moro na rea cultural Ricardo Rihan, que foi secretrio do Audiovisual durante quatro meses em 2019. “O Moro no o melhor nome s para a cultura, o melhor para o Brasil. Ele certamente vai respeitar artistas, realizadores e todas as formas de expresso artstica e cultural, que Bolsonaro considera como inimigos a abater”, diz.

6 thoughts on “Moro atrai dissidentes do bolsonarismo e ganha espao na direita para eleio de 2022

  1. Na nsia de encontrar outro mito, todas as virtudes so encontradas em Moro.
    Assim como um dia foi Collor e em 2018 Bolsonaro.
    Uma visita, ou algumas palavras bastam para a mdia desenvolver todo um cenrio favorvel.
    S depois se descobre que o santo era de barro!

  2. Sergio Moro foi juiz federal por 22 anos, com folha funcional impecvel.
    Nos processos que envolveram lula, ele funcionou como “juiz de instruo”, e depois como “juiz julgador”.
    Nos judicirios de todo o mundo existem estas figuras que atuam em um nico processo, mas no Brasil no. Ento o juiz titular do processo pode muito bem instrui-lo e depois julga-lo.
    Foi o que aconteceu, ningum viu defeito no caso, at que chegou nos juzes nomeados por lula e Dilma, que acharam que isto irregular.
    Quase todos os processos no Brasil so conduzidos assim, mas para o lula, no pode.
    Se no fosse este o “defeito” arranjado, teriam arrumado outro. Para os “excelsos” do pretrio, o lula inimputvel.
    Mas nem Moro, nem lula, o atual presidente ser reeleito, quem viver ver.

  3. O artigo explorou bem todas as nuances da candidatura do Moro.
    A julgar pela projees do articulistas s falta o candidato combinar com os russos, soviticos e chineses.

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