Morrer de medo de viver

Eduardo Aquino

O título dessa coluna em si já é um paradoxo: estranho o tempo em que os extremos se tocam e a vida e a morte estão de mãos dadas. Quando o medo de morrer equivale ao de viver, vivemos no limite da barbárie, da falta de civilidade, da ausência de humanismo. Dito isso, começo recordando que nas três décadas que atendi aos meus amigos e pacientes em consultório, o que mais ouvia quando perguntava o motivo da consulta era: “Doutor, eu morro de preocupação com (filho, cônjuges, doença, emprego, violência, etc).” “Morro de medo de (perder meus entes queridos, de morrer, de perder minha condição financeira, ter câncer, ficar senil, filho usar drogas, filha engravidar e por aí afora).”

A cada ano, a epidemia do terror, do pânico se instalou nas nossas vidas e poucos conseguem projetar um horizonte futuro em que a paz e a harmonia imperem. Sair de casa para trabalhar, socializar, estudar e passear passou a ser uma neurose. Mais ainda ir sacar um dinheiro em banco, tirar um carro da garagem, ficar retido num congestionamento. Mas, e ficar em casa? Cada barulho ou cachorro latindo ativa nossos alarmes mentais que disparam o coração, sufoca a respiração, congela o corpo, sequestra o sono. Até aqui tudo bem (?).

Socados em meios de transporte, tal qual “pau-de-arara”, vamos sobrevivendo ao terror urbano, em meio às angústias que roubam um bem inestimável, abstrato e imensurável: a alegria, o prazer, o relaxamento de existir! Ninguém reflete sobre o fato de ter sido o espermatozoide campeão que venceu a corrida pela vida entre mais de 200 milhões de competidores e ainda encontrou um óvulo viável no caminho. Sim, cada ser vivente é um milagre que teve a dádiva da vida como presente!

Ou será que, na verdade, somos os hiper-azarados que, ao sermos concebidos, estamos inexoravelmente condenados a ficar presos no tempo e no espaço, cumprindo por anos nossas penas existenciais (até que a morte nos liberte)?

Penando, carregando nossas cruzes, num dia a dia infernal, pagando nossos karmas (como sugerem os orientais). Enquanto isso, em Gotham City… Vida que segue, como sempre seguiu, mesmo com a Idade das Trevas, quando pestes mataram metade da população, sífilis infestavam as ruas, bandoleiros assaltavam e estupravam como exércitos vitoriosos, que ainda escravizavam populações inteiras.

E o que dizer das duas grandes guerras que arrasaram a Europa, e, no entanto, tudo foi refeito e a vida insistiu em seguir, assim como o Renascimento trouxe luz e sucedeu às trevas medievais?

Tudo passa, tudo muda, tudo se transforma. E, exatamente por isso, parei para refletir quando uma senhora interrompeu uma palestra recentemente e perguntou: “Mas e quando a gente morre de medo de viver?!”. E completou dizendo que teme pelos dois filhos de 7 e 9 anos: “Que futuro têm? Que mundo herdarão?” E se ela ou o marido se separarem ou morrerem, quem cuidará? E o massacre de más notícias, que faz com que ela, ao mesmo tempo em que é viciada nos noticiários alarmistas, sofre com pensamentos negativistas, com os sofrimentos antecipatórios, com as preocupações doentias que a impede de viver.

ALIMENTE SEU CÉREBRO

A isso restam ponderações:

1) O cérebro é um hardware, um mero processador de informações e responde maravilhosamente na busca de adaptar-se ao mundo interno e externo. Nossos pensamentos são os softwares, os programas que rodam.

Assim, pela filosofia quântica, “pensar é igual a agir”. Ora, cada um de nós é seu programador. Alimente seu cérebro de más notícias, encha a mente de negativismo e colherá depressão, fobias, inúmeros sintomas físicos com exames normais. Assim, a simples expressão “morrer de medo, ou de preocupação, ou de angústia” no fundo é uma realidade cerebral que prepara o corpo e a mente para a ausência da vida e morte do bem-estar, satisfação e prazer. E esse velório eletrônico-químico dos neurônios faz com que o estresse se torne crônico ou uma depressão se instale ou que as fobias nos encarcerem.

2) Se palavras geram conceitos, e conceitos fazem nossa energia mental gerar pensamentos, emoções e desejos, somos os incompetentes ou competentes que a cada segundo ao pensar, sentir e agir tornam o dia a dia um paraíso ou um inferno.

Como diria Henry Ey, psiquiatra francês do século passado: “Cada um de nós é sujeito das próprias ações, autor do próprio personagem, arquiteto do próprio mundo”. Assim, a moral da história é muito simples: só está preparado para viver aquele que não teme morrer! (transcrito de O Tempo)

6 thoughts on “Morrer de medo de viver

  1. Só está preparado para viver aquele que não teme a morte. Boa ! Mas parece que a maioria não teme a morte porque as pessoas não param de curtir. Motocicletas batem o recorde de vendas. Asas deltas colorem a paisagem de São Conrado. Tem ser humano à beça que não teme e ainda desafia a morte.

    DIVINO MARAVILHOSO, do Caetano
    Atenção
    Ao dobrar uma esquina
    Uma alegria
    Atenção, menina
    Você vem
    Quantos anos você tem?

    Atenção
    Precisa ter olhos firmes
    Pra este sol
    Para esta escuridão

    Atenção
    Tudo é perigoso
    Tudo é divino maravilhoso
    Atenção para o refrão

    É preciso estar atento e forte
    Não temos tempo de temer a morte
    É preciso estar atento e forte
    Não temos tempo de temer a morte

    Atenção
    Para a estrofe, para o refrão
    Pro palavrão
    Para a palavra de ordem

    Atenção
    Para o samba exaltação
    Atenção
    Tudo é perigoso
    Tudo é divino maravilhoso
    Atenção para o refrão

    É preciso estar atento e forte
    Não temos tempo de temer a morte
    É preciso estar atento e forte
    Não temos tempo de temer a morte

    Atenção
    Para as janelas no alto
    Atenção
    Ao pisar no asfalto mangue
    Atenção
    Para o sangue sobre o chão

    É preciso estar atento e forte
    Não temos tempo de temer a morte
    É preciso estar atento e forte
    Não temos tempo de temer a morte

    Atenção
    Tudo é perigoso
    Tudo é divino maravilhoso
    Atenção para o refrão

    É preciso estar atento e forte
    Não temos tempo de temer a morte
    É preciso estar atento e forte
    Não temos tempo de temer a morte

    Link: http://www.vagalume.com.br/gal-costa/divino-maravilhoso.html#ixzz2uNYIXQI7

  2. Se o comentarista morar no Estado de São Paulo governado há 24 anos pela Quadrilha do Metrô , viver é apenas um detalhe, estamos literalmente largados a própria sorte.
    geraldo/serra/covas transformaram o Estado mais rico na Nação numa CARNIFICINA À CÈU ABERTO.

  3. Não sou de São Paulo, mas quem conhece os índices de violência no Brasil sabe que São Paulo não está sequer entre os 10 mais violentos:
    Um levantamento da Folha de São Paulo junto as Secretarias de Segurança e o IBGE com dados de 2008, constatou quais são os dez Estados mais violentos do Brasil.

    1º. Alagoas: 66,2 homicídios por 100 mil habitantes
    2º. Espírito Santo: 56,6
    3º. Pernambuco: 51,6
    4º. Rio de Janeiro: 45,1
    5º. Bahia: 32,8
    6º. Rondônia: 30,3
    7º. Distrito Federal: 28
    8º. Paraná: 27,1
    9º. Sergipe: 26,9
    10º. Mato Grosso do Sul: 25,2

    E sabemos que o governador de Pernambuco é o que vem tendo mais acertos em sua área de segurança. Em breve sairá desta lista.

  4. O texto de Eduardo Aquino é um hino contra o pessimismo.
    Há pessoas que só enxergam coisas ruins em seu entorno e pensam que o mundo inteiro tem a conotação do que estão registrando de negativo. Faz lembrar aquela história do português que estava dormindo, quando resolveram lambuzar de titica o seu bigode.
    Ao despertar, o portuga exclamou: “a casa está fedendo!”. Abriu a janela, respirou fundo e concluiu: “é o mundo que está a feder!”
    As religiões, particularmente, incentivam o medo da vida e também o medo da morte.
    Sem medo e sem culpa, elas não sobrevivem.
    Certa vez fui levado por uma amiga à sua Igreja Adventista do Sétimo Dia, com a finalidade de presenciar um culto, na Barra da Tijuca, Rio de Janeiro. Fiquei impressionado com a pregação do pastor, que só falava em Apocalipse e toda aquela paranoia escrita por um psicopata, que dizem ser a Palavra.
    Na saída, um senhor, que soube que era neurocirurgião e teólogo, ancião da igreja, me ofereceu um livro me abraçando inesperadamente. Agradeci e perguntei quanto eu devia pelo compêndio. Disse-me ele: nada, é um presente.
    Ao chegar à casa é que me dei conta de que o livro era uma doutrinação. Seu título: “EVENTOS FINAIS, como enfrentar a última e maior crise da Terra”, escrito por Ellen G. White. Claro, fui para o Google para saber o que diziam sobre a autora. Uma falsa profetisa.
    Comecei a ler, mas não aguentei. A mulher tinha escrito em 1904, e já estávamos em 2011. Que eventos finais? O livro era um poema ao pessimismo!
    Pensei logo, “dá um tempo! não vou ficar lendo essa porcaria, que minha mente não é lata de lixo”.
    Mas nada falei com a minha amiga, já que procuro ser uma pessoa relativamente educada.

  5. Sabedoria de Salomão, em Eclesiastes.

    Nenhuma retenção. Aqui nada é durável. Poucos anos depois que morrermos ninguém se lembrará de nós nem se importará conosco. Nosso legado será passado para alguém que não trabalhou por ele e que, conseqüentemente, não o apreciará nem usará como nós o faríamos. “Pois, tanto do sábio como do estulto, a memória não durará para sempre; pois, passados alguns dias, tudo cai no esquecimento. Ah! Morre o sábio, e da mesma sorte, o estulto! … Também aborreci todo o meu trabalho, com que me afadiguei debaixo do sol, visto que o seu ganho eu havia de deixar a quem viesse depois de mim. E quem pode dizer se será sábio ou estulto? Contudo, ele terá domínio sobre todo o ganho das minhas fadigas e sabedoria debaixo do sol; também isto é vaidade” (2:16, 18-19). O empenho humano não pode ser recordado, retido ou passado a outro.

  6. Para o comentarista acima. Não há evidência direta arqueológica sobre a existência do reinado de Salomão na Idade de Ferro, entre os anos de 1000 e 1200 AC. No período há evidências arqueológicas apenas sobre David, o faraó Merneptah e a invasão dos filisteus e outros povos marítimos. Essa sabedoria atribuída a Salomão pode ter sido formulada por um rabino ou outro interessado qualquer em outra época mais recente.

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