Mudar de imagem ser fatal presidente Dilma

Carlos Chagas

Uma das grandes diferenas entre Lula e Dilma de que o ex-presidente expunha seus sentimentos vista de todos. No palcio do Planalto, sabia-se em cinco minutos se o chefe estava feliz, irritado ou desligado. Com a sucessora, mesmo os que frequentam seu gabinete vrias vezes por dia ficam na dvida. A presidente uma esfinge, no raro explosiva, mas sem deixar transparecer o que vai no seu ntimo.

Mesmo assim, se fosse dado a uma alma penada qualquer esconder-se atrs de uma poltrona, na sala de despachos de Dilma, concluiria ter sido esta a semana de maior perplexidade para a presidente. Afinal, ela fez a lio de casa, at atropelando parte de suas caractersticas. Recebeu senadores em almoo, mais de uma vez. Ouviu atentamente reivindicaes fisiolgicas de dirigentes partidrios, muitos de seus companheiros do PT, abriu o palcio da Alvorada para interlocutores diversos, disparou telefonemas e tentou demonstrar que seu governo vive uma nova fase.

Apesar disso, foi triste a resposta de sua base de apoio parlamentar. PMDB, PT e penduricalhos deram a ela prazo de quinze dias para iniciar a temporada de nomeaes e liberao de verbas individuais ao oramento. Pouco adiantaram os esforos da nova ministra da Coordenao Poltica, Ideli Salvatti, toda sorrisos e beijinhos com os polticos, ao contrrio de seu estilo quando senadora. Nada mais, nada menos, produziram um ultimato.

Pelo jeito, s restar a Dilma Rousseff queimar as caravelas e lanar-se na conquista do Congresso como os espanhis fizeram no Novo Mundo. Ningum se iluda se isso comear a acontecer na prxima semana. Azar dos Maias do PMDB e dos Astecas do PT, infensos a colaborar com os conquistadores. Ou sero as conquistadoras?

***
SӠ UMA SEMANA DE TRGUA?

Por conta do feriado religioso da prxima quinta-feira, um peloto de deputados e senadores viajou ontem para a Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, a fim de participar de um seminrio sobre problemas na Amrica Latina. Passagem e estadia pagas por aquela tradicional instituio de ensino superior, mas sem dvida alguma com direito s dirias do Congresso. Nmero ainda maior de parlamentares tomou o rumo de seus estados para no perder as festas de So Joo. O resultado que, salvo engano, o Poder Legislativo entrar de recesso, at a outra semana, de encerramento dos trabalhos do primeiro semestre. Essa trgua pode at vir a ser proveitosa, para a melhoria das relaes entre o governo e os polticos. Porque logo as folgas se acoplaro s frias de julho.

***
SIGILO ETERNO MAS NEM TANTO

O posicionamento do ex-presidente Lula contra a esdrxula proposta do sigilo eterno para documentos oficiais, ao contrrio da deciso de Dilma Rousseff, exprime mais uma etapa do cabo de guerra disputado entre o antecessor e a sucessora. Esta optou por alinhar-se a Jos Sarney e Fernando Collor, para quem muita coisa precisa ser escondida at o final dos tempos. Aquele demonstrou nada haver deixado embaixo do tapete. Mais uma vez ameaam bater de frente, coisa que s prejudicar a proposta de permanecerem trinta anos no poder. Divididos, talvez no se entendam na prpria sucesso de 2014. Ignora-se porque Dilma decidiu alinhar-se discutvel estratgia de esconder a memria nacional, se parece evidente que nenhum acordo secreto ou determinao sombria tenha acontecido em seus primeiros seis meses de governo, ao contrrio do que parecem demonstrar os outros dois ex-presidentes. Porque essa conversa de preservar os subterrneos da Guerra do Paraguai e as artimanhas do Baro do Rio Branco no pega.

***
FAZ FALTA UM NOVO ACORDO

Nos idos do governo Joo Figueiredo, sendo ministro da Justia o correto Ibrahim-Abi-Ackel, a Gazeta Mercantil publicou trechos das clusulas secretas do Acordo Nuclear Brasil-Alemanha, celebrado no governo Ernesto Geisel. Parecia haver um compromisso de os alemes desenvolverem aqui sua bomba nuclear, sem maiores transferncias de tecnologia. Ainda pela manh, estimulado pelo presidente da Repblica, o chefe do SNI e outros, Ibrahim valeu-se da Lei de Imprensa para mandar apreender os exemplares j distribudos daquele que foi o maior jornal econmico do pas. Tratava-se da divulgao de segredos de estado, protegidos pela legislao.

No que pareceu um milagre jamais repetido depois, os bares da imprensa escrita comunicaram-se e chegaram a uma estratgia: para evitar a repetio da truculncia praticada mesmo sombra da lei, decidiram todos publicar no dia seguinte a matria da Gazeta Mercantil. Desafiavam o governo do ltimo general-presidente: como ele poderia determinar a apreenso dos maiores jornais do territrio nacional? Seria um escndalo internacional, e o prprio ministro colaborou para que nada se fizesse como represlia.

Estava vencida importante batalha pelo pleno retorno liberdade de imprensa, mesmo por via capenga. Essa histria se conta a propsito da necessidade de que os principais donos e controladores dos jornais voltem a reunir-se para nova ao conjunta. No que o governo Dilma se encontre em vias de atropelar a liberdade de expresso, mas porque, unida, a imprensa conseguir superar as investidas do PT sobre as instituies.

This entry was posted in Sem categoria. Bookmark the permalink.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.