Muito temos debatido aqui no blog sobre Deus e religião. E agora o comentarista J. E. O. Bruno nos envia um belo texto de Mário Ferreira dos Santos.

Carlos Newton

Mário Ferreira dos Santos  (1907-1968) foi um importante intelectual paulista, criador do sistema da Filosofia Concreta. Escreveu muitos livros sobre várias áreas do conhecimento, como Filosofia, Psicologia, Oratória, Ontologia e Lógica, publicados com recursos próprios sob o nome “Enciclopédia de Ciências Filosóficas e Sociais”.

Segundo Mário Ferreira dos Santos, sua Filosofia Concreta seria completamente baseada na lógica, não havendo possibilidade de discordância de seus pressupostos, a que chamou “teses”, de forma que a primeira delas é a fundamentação de toda a sua filosofia: “Alguma coisa há, e o nada absoluto não há”, da qual extrai outras teses, passando pelos principais tópicos da Filosofia.

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QUAL É A MAIS VERDADEIRA DAS RELIGIÕES?

Mário Ferreira dos Santos

Eu tinha um aluno, dos mais inteligentes, que havia revelado o maior talento para a Filosofia, e me parecia que ele aceitava plenamente tudo o que eu propunha e dava em aula. Um dia ele pediu um encontro particular, veio a minha casa e me disse: “Professor, eu quero avisar-lhe que vou deixar de freqüentar as suas aulas”.

“Pois não, qual é o motivo?”, perguntei, e ele respondeu: “Eu perdi a fé,  não creio mais, não posso admitir nenhum fundamento na religião, no cristianismo, primeiro porque Cristo para mim não tem nenhum sentido histórico, Cristo não existiu, Cristo é uma invenção”.

Prosseguiu dizendo que nesta vida devia se procurar os frutos que ela pode dar, porque só aqui é que vamos colhê-los, porque a outra não existia. Ele estava completamente descrente. “Bem”, disse para o jovem, “fico muito satisfeito por um lado e triste por outro. Triste por saber que você chegou a este ponto, mas satisfeito pela sua atitude honesta de vir comunicar-me esta sua posição atual, mas me permita que fale um pouco, que lhe diga alguma coisa”.

Disse: “Então vamos examinar Cristo por um ângulo fora da religião, vamos examinar Cristo pelo ângulo puramente estético. Olhamos assim os personagens criados pela literatura através dos tempos e veremos que nenhum desses personagens, você pode escolher qualquer um, o que quiser, Lohengrin. Don Quixote etc., nenhuma desses personagens apresenta a grandeza da vida de Cristo”.

Naturalmente não vou relatar os detalhes da conversa, não há necessidade. Falei sobre a vida de Cristo, a grandeza de Cristo, a sua primeira manifestação nas bodas de Caná, Cristo ante a adúltera, Cristo nas suas pregações, Cristo através de todo tempo etc. Mostrei, por exemplo, que Don Quixote adequava-se a uma determina época, mas não teria sentido, por exemplo, dentro da sociedade atual. Mas que observasse que também a “Crítica da razão pura”, de Kant estaria adequada a época em que foi feita, imagine ela feita na época das Cruzadas, não teria nenhum sentido, nenhuma adequação com a época.

Prossegui: “Podemos citar vários exemplos dessa espécie, que é um aspecto histórico, mas você observa que Cristo não tem essa historicidade, que Cristo vence a história, que Cristo podia vir hoje, que Cristo podia ainda hoje estar pregando, que Cristo podia estar seguindo pelos caminhos do mundo a pregar para as multidões, a apurá-las a fazer o bem, Cristo é eternamente atual, tem uma atualidade que ultrapassa ao tempo. Além de que você não pode negar que Cristo corresponde perfeitamente ao arquétipo que você tem, que você deve ter, que é humano, o arquétipo do grande santo, o arquetipo do grande herói, o arquetipo do grande sábio. Nós vemos Cristo representar este arquetipo em todos os aspectos, você não pode me negar a verdade arquetípica de Cristo. Ele corresponde a estes arquétipos, você não pode ofender Cristo, você não pode chegar a negar o valor deste homem, você teria que reconhecer que esta personagem, se tivesse existido, você lhe prestaria homenagem”.

Ele foi concordando, não podia deixar de concordar, então eu disse: “Vamos partir da verdade arquetípica de Cristo, como o maior exemplo do sábio, do santo e do herói. Basta-me isto para que possamos daí levar avante e recuperar o que você perdeu”.

“Eu aceito tudo isso, mas a historicidade dele, não”, replicou.

Insisti: “Mas não preciso da historicidade dele, Cristo é uma verdade humana dentro de todos nós, todos nós o desejamos, todos nós queremos este sábio, este santo, este herói, todos nós marchamos para ele. Você pode negar a historicidade como quiser, mas você não pode negar a si mesmo, não pode negar a sua própria realidade, é o seu coração que pede, é todo o seu ser que clama por isso, você gostaria que fosse assim, você queria um mundo cristão, você queria um mundo em que os homens se amassem uns aos outros, você queria um mundo em que todos se compreendessem, um mundo de reconciliações, um mundo em que os homens se reconciliassem com a vida e uns com os outros, você não pode negar que tem que sentir este desejo, isto também é uma arquetipo dentro de você, é uma arquetipo social que você tem”.

Ele não pôde negar, não podia negar, porque era honesto, já o fora na atitude que havia tomado para comigo e assim tinha que prosseguir. Este homem foi recuperado, voltou-lhe a fé, ele reencontrou a fé através dos arquétipos.

Pois bem, estes arquetipos que hoje são estudados profundamente na psicologia analítica não devemos temê-los, eles são nossos também, também fazem parte das nossas verdades. Estes arquétipos, à proporção que a psicologia analítica neles invade, vai se aproximando também dos princípios arquetípicos que constituem a Matese, e nós podemos reduzi-los mais adiante a princípios matéticos, como tenho feito na minha obra. Veremos que por todos os caminhos do homem até por aqueles que descem o homem, podem ser dirigidos por Deus e este é o ponto fundamental.

Eu tenho um pensamento de religião que talvez seja um pouco diferente, mas é o meu pensamento, e quero ser honesto em dizer qual é. Eu sigo o pensamento dos pitagóricos quanto à religião, eles não foram homens que construíram uma religião, nem pretenderam fazê-la, porque Pitágoras respeitava as religiões existentes, e ele somente anunciava que viria uma religião, uma religião que seria universal. Então perguntaram se era ele o homem que deveria fazer esta religião e ele disse: “Não, sou apenas um anunciador da nova fé”

Perguntaram: “Quais os sinais que nos dás para que reconheçamos quando surgir esta nova religião?” Ele disse: “Será aquela que for a mais verdadeira das religiões”. “E qual é a mais verdadeira das religiões?”, insistiram. “A mais verdadeira das religiões é aquela que ensina o homem a assemelhar-se a Deus.Porque só nos engrandecemos à proporção que Dele nos aproximamos e que Dele nos assemelhamos, e Dele nos afastamos à proporção que Dele nos dissemelhamos”.

Dizia Pitágoras aos seus discípulos: “Assemelhai-vos a Deus, assemelhai-vos ao Ser Supremo que é oniperfeito, e cada um de vossos atos perfeitos que seja uma oferta ao Ser Supremo, e estareis, então, prestando-lhe a homenagem que lhe é devida”.

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