Mullen revive MacArthur e invade área de Obama

Pedro do Coutto

Absolutamente incríveis as declarações inoportunas do general Mike Mullen, chefe do Estado Maior das Forças Armadas, de que os Estados Unidos possuem um plano de ataque ao Irã como recurso para impedir que Mahmoud Amedinejad fabrique a bomba atômica. O general, assim agindo, concretamente invadiu a área de exclusiva atribuição do presidente Barack Obama. Repetiu a atitude tomada pelo general Douglas MacArthur, em 1951, governo Harry Truman, em plena guerra da Coréia, quando afirmou que a alternativa para terminar o conflito seria lançar uma bomba atômica contra a China que oferecia apoio militar à Coréia do Norte. Mas este era um assunto de política externa, atribuição exclusiva da Casa Branca. Truman demitiu sumariamente o general, embora MacArthur fosse um herói da Segunda Guerra Mundial e de 45 a 49 exercera o posto de governador geral do Japão ocupado. A luta entre Coréia do Norte e Coréia do Sul começou em 1950 e MacArthur era o comandante-em- chefe das forças americanas no conflito. O presidente não tolerou a interferência do general em tema políticos.

A historia se repete agora com Obama na presidência. Mullen detonou seu conceito e, com isso, ultrapassou a zona política da guerra. Passou o limite. Obama talvez tenha respondido indiretamente a Mike Mullen, anunciando no dia seguinte a retirada das tropas americanas (80 mil homens) do Iraque. Mas foi cauteloso, pois disse que uma parte seria enviada para reforçar as posições norte-americanas no Afeganistão. Há menos de um mês Barack Obama demitiu o general Parker de um comando no Iraque por ter assumido posição crítica em relação a ele, acentuando que não era preparado. Demitiu, mas não puniu. Com esta decisão, abriu uma brecha no sistema de poder. Mullen passou por ela para lançar a ameaça militar. Não lhe competia entrar nesta questão. O Globo e a Folha de São Paulo deram grande destaque ao episódio, mas sem relembrar o precedente de 51.

Mullen extrapolou. Disse, de acordo com o publicado pelos dois jornais que, por sua vez, traduziram os textos do New York Times e das agências internacionais de noticias. Vejam só: os Estados Unidos – declarou Mullen – têm a opção da ação militar. Ela tem estado sobre a mesa e segue sobre a mesa. É uma das alternativas que o presidente Obama possui. Espero, entretanto, que não cheguemos a esse ponto. Mas é uma opção importante, muito bem compreendida pelo Irã. Mike Mullen não se conteve e foi além, alargando sua visão para a esfera internacional. O eventual ataque ao Irã – sustentou – teria consequências imprevisíveis para a estabilidade de todo o Oriente Médio.

O general incendiou a questão. Já que o embaixador iraniano na ONU, Mohamed Khazai, entrou no debate público para dizer que se o país for atacado por Washington, deixará Tel Aviv em chamas. Ameaçou, por seu turno, o Estado de Israel. Fácil perceber em que pé se encontra o governo de Jerusalém, por seu turno relembrando a ameaça de que foi foco, em 67, pelo presidente do Egito, Abdel Nasser. Nasser foi à televisão no Cairo e anunciou que, no dia seguinte, suas forças estariam em Tel Aviv para cortar a cabeça dos israelenses. Nasser chegou a se dirigir especialmente aos jornalistas: saiam de Tel Aviv, pois amanhã estaremos aí e será muito difícil saber quem é jornalista e quem não é. Minutos depois, governo Golda Meir, a aviação israelense levantava vôo e arrasava a egípcia no solo.

Mike Mullen deixou o mundo sob tensão. Não se conteve no seu limite e criou grave problema para a autoridade de Barack Obama. O presidente ficou em xeque no episódio. Vai certamente minimizá-lo. Mas isso será suficiente

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