Mundo sem lei

Carlos Chagas

Saber quem nasceu primeiro, se o ovo ou  a galinha, faz muito  tornou-se  discussão diletante e inócua. A verdade é que os dois existem, num moto contínuo onde um sai do outro. Grave, mesmo, é verificar como a  nação  tecnologicamente mais poderosa do planeta desvirtuou-se  a ponto de seu governo autorizar, estimular e promover,  através de suas avançadas estruturas da ciência e da  inteligência,   a morte da lei e dos princípios democráticos inerentes à sua própria existência.

Osama Bin Laden era um assassino monstruoso, algoz de centenas de milhares de vítimas, fanático. Se quiserem, o filho predileto de Satanás. Merecia ser caçado pela eternidade. Para isso serviu, melhor do que tudo, o aparato econômico e militar dos Estados Unidos.

Mas executar o bandido sem julgamento, depois de preso, já com a decisão tomada de dar-lhe um tiro na cabeça – convenhamos, trata-se da inversão dos  valores que diferenciam uma nação civilizada de um aglomerado de trogloditas. Foi no que se transformaram os senhores dos Estados Unidos  ao determinar   o assassinato do  inimigo número  um da Humanidade. 

Que nazistas e stalinistas assim agissem, demonstrou a História sua condenação perpétua. Mas aqueles que se apresentam  como baluarte da democracia e da liberdade, de jeito nenhum. Levá-lo a julgamento num tribunal de Nova York constituía solução ética e lógica. Mesmo prevendo-se sua inexorável  condenação à pena capital.

Sinal dos tempos travestidos que vivemos foi a reação da sociedade americana às primeiras notícias do desenlace do episódio: jovens e velhos nas ruas,   urrando como animais, festejando a morte  já anunciada  de Bin Laden como quem celebra a conquista de um campeonato de futebol.

Ficou óbvia, neste início de século, a transformação do poder público em poder celerado. Dirão alguns ingênuos e outro tanto de truculentos que tinha de ser assim mesmo. A palavra de ordem era “fazer justiça”, como disse o presidente Barack Obama. Que tipo de justiça ele não explicitou. Jamais, porém, a justiça devida ao ser humano, mesmo o mais vil de todos, prerrogativa decorrente de instituições que a civilização aprimorou através dos tempos. Até  um criminoso como Bin Laden dispunha  do  direito a uma sentença,  assim como  o governo de Washington, da  obrigação de encaminhá-lo a um julgamento imparcial.

O argumento ouvido de áulicos e sabujos dos atuais detentores do poder mundial  é de que se Bin Laden não fosse logo eliminado serviria de mártir para a banda podre do islamismo, provocando manifestações, atentados e, depois de condenado e executado,   peregrinações ao seu túmulo. Por essas razões os russos sumiram com o cadáver de Adolf Hitler e os próprios americanos tentaram por décadas esconder os restos mortais de Che Guevara. Não adiantou nada. 

Está o mundo estarrecido, ainda que com medo de demonstrar, diante da negativa dos mais elementares direitos do homem, por decisão dos governantes da nação imperial.  Assistimos um sofisticado esquadrão da morte e seus mentores agindo como detentores absolutos da ciência do Bem e do Mal. Tratou-se apenas de um exemplo, entre tantos registrados desde que o terrorismo assumiu proporções inimagináveis. Igualaram-se aos terroristas, no entanto, os responsáveis pelo assalto à cidadela onde se escondia o adversário. Não há evidências nem depoimentos de que os comandos americanos mataram Bin Ladem em defesa  própria, no meio de um  tiroteio. Entraram para matar.  Tanto que já sabiam o que fazer com o defunto: joga-lo no mar, para que dele não restasse o menor vestígio.  

Está o mundo sem lei, quando um dia imaginou-se que sem ela não haveria  salvação. Não há mesmo.

Razão alguma existiria para esse espetáculo de vergonha encenado no Paquistão, como da mesma forma nenhum argumento justificou  a carnificina tantas vezes promovida  pelos irracionais chefiados por Bin Laden. O resultado é que agora parte do Islã julga-se na obrigação  de prosseguir na  matança e na  revanche capaz de gerar no Ocidente  mais ódio,  mais  vingança e menos lei.  Regride a Humanidade, sabe-se lá até que ponto, valendo voltar ao mote inicial deste  desabafo:  importa pouco  saber quem nasceu primeiro, se o ovo ou a galinha…

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