Na ABL, futebol, arte, tcnica e ttica

Pedro do Coutto

Recebo do presidente da Academia Brasileira de Letras, Marcos Vilaa, convite para assistir a um seminrio cobre futebol e literatura, bela iniciativa, cujo xito est desde j assegurado pelo toque mgico que o autor de “Coronel, Coronis”, imprime a tudo que realiza. Alm de Vilaa, Domcio Proena Filho tambm na coordenao. Existe muita literatura de qualidade a respeito, mas, a meu ver, falta uma obra que tenha focalizado a essncia mais profunda do futebol.

Trata-se do nico esporte em que , s vezes, a ttica consegue neutralizar a tcnica e a arte. Isso porque o objeto da disputa, que a bola, encontra-se permanentemente exposto exceo quando est nas mos do goleiro e este com os dois ps no cho. Pode haver ocupao de espaos vontade, choque fsico natural, marcao de dois ou trs homens sobre um. Exemplo maior da vitria da ttica sobre a tcnica e a arte foi o Brasil X Uruguai de 50, a que assisti e do qual sou a ltima testemunha viva da ttica previamente anunciada pelo lder da equipe uruguaia, Obdlio Varela.

Era uma quinta-feira, 13 de Julho, ao meio-dia, quando os uruguaios encerraram o treino no campo do Fluminense. Subindo as escadas que levam do vestirio ao restaurante que existia na sede, Obdlio depara-se com Preguinho, Joo Coelho Neto, filho do escritor e acadmico, e, que em 1930, quando Obdlio tinha 10 anos foi autor do primeiro gol de uma seleo brasileira em Copa do Mundo. Camisa 10 era a que Prego usava. Atravs do tempo tornaram-se amigos. E Preguinho cumprimentou Obdlio pelo fato de o Uruguai estar na final.

O regulamento era diferente do de hoje. Tnhamos vencido a Espanha por 6 X 1, o Uruguai por 2 X 1, gol de Obdlio no final do jogo. A Seleo Brasileira derrotara a Sucia por 7 X 2, o Uruguai empatou por 2 X 2.

– Obdlio, disse o Prego, agora, entretanto, domingo, no vai dar para vocs.

– No vai dar por qu, perguntou Varela.

– Os resultados esto a, respondeu Prego.

Obdlio apanhou um paliteiro e disse:

– Prego, ns no vamos jogar contra vocs como a Espanha e a Sucia. Ns vamos atuar assim: – e revelou – :Mspoli no gol, Teixeira na zaga direita, Matias Gonzales no meio da rea, vamos recuar Gambote do meio campo para a zaga (como Piazza atuou na nossa seleo de 70), Rodriguez Andrade na lateral esquerda. No meio campo eu, Julio Perez e Moran, ponta-esquerda que recuava para marcar Frana, ponta-direita brasileiro. J na frente, Miguez, Schiaffino e Andre Gighia. Ns s vamos marcar o time brasileiro a partir de nosso campo.

Nascia ali o primeiro quatro-trs-trs da histria do futebol.

– De todos ns – acrescentou Obdlio, o nico lanador de bola Julio Perez (que atuava no estilo Gerson, mas no era to bom). – Por isso eu disse aos homens de frente, Miguel e Schiaffino que no tirassem os olhos de Perez. Porque o lanamento poderia ir por cima ou por baixo de Danilo e Bauer, que vo avanar vendo nosso espao vazio pela frente.

O recuo de Moran congestionou o meio-campo, pois Friana era um ponta improvisado, cuja preferncia ntida era meia-direita. Ele procurava encostar em Zizinho, Ademir e Jair. Com isso facilitava a marcao uruguaia. Fizemos o primeiro gol. Mas Obdlio conteve o time: – Ningum sai (avana), se sairmos vamos tomar de quatro.

Mas surgiu o inesperado. Gighia passava todas por Bigode. E o meio-campo brasileiro formado por Bauer, Danilo e Jair no caa para a esquerda para dar cobertura a Bigode.

No primeiro lance fatal, Gighia balana o corpo e passa fcil por Bigode. O meio-campo no voltou, o zagueiro central Juvenal no sai na cobertura. Barbosa teme o chute e fecha o ngulo esquerdo. Percebendo a abertura de nossa defesa. Gighia cruza para Schiaffino, que, de voleio empata a partida. Sete minutos depois a jogada se repete. S que Barbosa teme o centro e se prepara para sair da meta. Gighia percebe novamente com clareza a desordem na defesa brasileira. Avana mais, entra na rea e chuta no canto esquerdo de Barbosa. No foi frango, como dizem muitos que sequer assistiram partida. Foi uma vitria, isso sim, da ttica sobre a arte e a tcnica.

Na conversa, o tcnico do Fluminense, achando lgico o raciocnio de Obdlio, procurou Flvio Costa. Este apenas respondeu encerrando o assunto: - Se sobre o jogo de domingo me procura segunda-feira.

No futebol a ttica to eterna quanto a arte.

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