Na briga STF X Lava Jato, Toffoli tenta silenciar o procurador Dallagnol

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Dallagnol investe contra Toffoli e a Segunda Turma

Celso Serra

Em seu blog, Josias de Souza comenta que, em sua primeira entrevista como presidente do Supremo Tribunal Federal, o ministro Dias Toffoli soou enfático: ”O STF sempre deu suporte à Lava Jato, vamos parar com essa lenda urbana, com esse folclore”, declarou. O procurador da República Deltan Dallagnol protocolou na Corregedoria Nacional do Ministério Público um documento que contradiz Toffoli. Ele relaciona dezenas de decisões anti-Lava Jato tomadas pela Segunda Turma do Supremo. São deliberações reais, não fantasiosas ou folclóricas.

Dallagnol enxerga na providência uma tentativa de censurá-lo. Sustenta em sua defesa que não fez senão exercitar a liberdade de expressão. “Procuradores e promotores não são meio-cidadãos”, escreveu. “Têm direito legítimo a realizar críticas, mesmo ácidas e contundentes, contra decisões judiciais.”

É OBRIGAÇÃO – O procurador avalia que é parte de sua obrigação funcional a “prestação de contas de seu trabalho para a sociedade.” Isso inclui “avaliar criticamente o significado de decisões judiciais.”

De resto, o procurador teve a preocupação de demonstrar que não disse inverdades na entrevista que aborreceu Toffoli. Daí ter empilhado as decisões prejudiciais à Lava Jato. Fez mais: comparou o refresco servido pela Segunda Turma aos corruptos com o tratamento draconiano dispensado a réus que cometeram crimes mais brandos.

Quem atravessa a peça do procurador do primeiro parágrafo ao ponto final emerge da leitura com a impressão de que a “lenda urbana” de que falou Toffoli inclui um conjunto de decisões desconexas que, reunidas num mesmo documento, emitem “uma mensagem muito forte de leniência a favor da corrupção”.

SOLTURA DE DIRCEU – Dallagnol citou o julgamento em que a Segunda Turma decidiu libertar José Dirceu por 3 votos a 2. Reproduziu trechos dos votos divergentes de Edson Fachin e Celso de Mello para demonstrar que havia sólidas razões para manter o ex-chefão da Casa Civil de Lula atrás das grades. O procurador comparou a decisão que beneficiou Dirceu a outras deliberações da mesma Turma. O resultado do cotejo exala incoerência.

Por exemplo: o ex-prefeito da cidade de Redenção do Gurgueia (PI), Delano Parente, foi acusado dos mesmos crimes atribuídos a Dirceu: corrupção, lavagem de dinheiro e organização criminosa. Mas teve o habeas corpus negado pela Segunda Turma. Alegou-se que a prisão tinha sido baseada na prática habitual e reiterada dos crimes. Exatamente o mesmo argumento usado para encarcerar o ex-ministro petista. Delano desviara R$ 17 milhões. Dirceu, R$ 19 milhões, noves fora o mensalão.

Há coisa pior: preso há mais de dois anos, Thiago Maurício Sá Pereira, conhecido como Thiago Poeta, teve um pedido de habeas corpus negado pela Segunda Turma em março. Acusado de traficar drogas, foi preso com 162 gramas de cocaína e 10 gramas de maconha. Sua pena foi menor que a de Dirceu: 17 anos e 6 meses, contra 30 anos. Mas os ministros não tiveram com o “Poeta” a complacência dedicada a Dirceu.

RÉU PRIMÁRIO – Não é só: réu primário, Alef Gustavo Silva Saraiva foi flagrado com menos de 150 gramas de cocaína e maconha. Depois de passar quase um ano na cadeia, pediu um habeas corpus ao Supremo. Num julgamento ocorrido em dezembro de 2016, a prisão foi mantida por 4 votos. Gilmar Mendes ausentou-se.

Ricardo Lewandowski, adepto da política de celas abertas para réus graúdos, disse o seguinte sobre o caso de Alef: “..Há farta jurisprudência desta Corte, em ambas as Turmas, no sentido de que a gravidade in concreto do delito ante o modus operandi empregado e a quantidade de droga apreendida – no caso, 130 invólucros plásticos e 59 microtubos de cocaína, pesando um total de 87,90 gramas, e 3 invólucros plásticos de maconha, pesando um total de 44,10 gramas (apreendidas juntamente com anotações referentes ao tráfico e certa quantia em dinheiro), permitem concluir pela periculosidade social do paciente e pela consequente presença dos requisitos autorizadores da prisão cautelar elencados no art. 312 do CPP, em especial para garantia da ordem pública.”

COMPARAÇÃO – E Dallagnol: “Diz-se que o tráfico de drogas gera mortes indiretas. Ora, a corrupção também. A grande corrupção e o tráfico matam igualmente. Enquanto o tráfico se associa à violência barulhenta, a corrupção mata pela falta de remédios, por buracos em estradas e pela pobreza. Enquanto o tráfico ocupa territórios, a corrupção ocupa o poder e captura o Estado, disfarçando-se de uma capa de falsa legitimidade para lesar aqueles de quem deveria cuidar. A mudança do cenário, dos morros para gabinetes requintados, não muda a realidade sangrenta da corrupção. Gostaria de poder entender o tratamento diferenciado que recebeu José Dirceu…”

O coordenador da Lava Jato mencionou também os casos de encrencados no petrolão que continuam atrás das grades. Receia que todos acabem ganhando o meio-fio: “Na Lava Jato, os políticos Pedro Correa, André Vargas e Luiz Argolo estão presos desde abril de 2015, assim como João Vaccari Neto. Marcelo Odebrecht, desde junho de 2015. Os ex-diretores da Petrobras Renato Duque e Jorge Zelada, desde março e julho de 2015. Todos há mais tempo do que José Dirceu.”

RÉUS HUMILDES – As comparações tornam-se mais grotescas quando incluem réus humildes. Dallagnol reproduziu artigo publicado há três meses pelo procurador regional da República José Augusto Vagos em O Globo. O texto trata de exceções abertas no Supremo à regras prevista na súmula 691, que veda a concessão do chamado “habeas corpus canguru” (contra indeferimento de liminar na instância inferior). O tratamento excepcional beneficia os graúdos da corrupção, nunca a arraia-miúda.

Eis um trecho do texto do procurador: “…A Defensoria Pública de São Paulo impetrou no STF o HC 157.704, para obter a liberdade de Valdemiro Firmino, acusado de ter roubado R$ 140,00, em 2013. Alegava a Defensoria razões humanitárias: Valdemiro é cego, HIV positivo e sofria de ataques de convulsão na unidade prisional. O relator, ministro Gilmar Mendes, foi rigoroso. A liminar foi indeferida no último dia 4: ‘Na hipótese dos autos, não vislumbro nenhuma dessas situações ensejadoras do afastamento da incidência da Súmula 691 do STF.’.”

O texto prossegue: “Nesse dia, a mesma caneta conferiu maior sorte a quatro acusados na Operação Câmbio, Desligo, que desvendou um esquema de lavagem de dinheiro de US$ 1,6 bilhão. Outros 17 acusados em operações da Lava-Jato no Rio de Janeiro mereceram a mesma deferência entre maio e junho deste ano. Ao contrário do Valdemiro, todos esses réus foram beneficiados por liminares que devolveram as suas liberdades sem que fosse preciso esperar o julgamento definitivo dos HCs que impetraram no TRF-2 e no STJ. Alguns desses HCs sequer chegaram a passar por essas instâncias.”

BERMUDA – Noutra passagem, o procurador escreveu: “Em junho deste ano, o ministro Dias Toffoli negou habeas corpus que objetivava reconhecer insignificância a um morador de rua alcoólatra que furtou uma bermuda de R$ 10,00, que foi devolvida à loja (HC 143921). […] Um mês antes, o mesmo ministro manteve na prisão um homem acusado de ter furtado sacas de café, cujo valor era de R$ 81,00, as quais foram mais tarde devolvidas. Do mesmo modo, o ministro Lewandowski, há 8 anos, negou habeas corpus para um acusado de furtar objetos que, no conjunto, valiam R$ 202,00.”

O conjunto da obra da Segunda Turma deixa a “lenda urbana” mencionada por Toffoli aos jornalistas muito parecida com um conto da carochinha. A dúvida é se o cardápio de decisões da Segundona compõe ou não uma conspiração contra o esforço anticorrupção. As evidências indicam que sim. Falta apenas um crachá. As orelhas, o focinho e os dentes são de lobo. Mas Toffoli deseja que o coordenador da força-tarefa de Curitiba diga em suas entrevistas que se trata de uma inocente vovozinha disfarçada.

5 thoughts on “Na briga STF X Lava Jato, Toffoli tenta silenciar o procurador Dallagnol

  1. -Moramos em PANDORA, a lua do filme AVATAR, onde as rochas flutuam no espaço, desafiando a Lei da Gravidade. Por aqui é quase a mesma coisa:

    É a cauda comandando o cachorro; é o reprovado em concurso promovido a um cargo superior ao que foi aprovado; é o cidadão preso e o bandido solto; é o carrasco e assassino se dizendo vítima do torturado e da vítima; é o Estado responsável pela segurança de quem está preso, mas desinteressado pela de quem está nas ruas, em casa ou no trabalho; é o infrator sendo agraciado com promoção antes do cidadão cumpridor das leis; é o trabalhador taxado extorsivamente e o vagabundo premiado com isenções e agrados…
    …enfim, é um lugar onde um magistrado exige trinta dias para a apuração de um crime para depois passar trinta anos com o processo engavetado!

    -Esse é o Brasil de hoje, cujas desgraças querem perpetuar doutores os viciados em verba pública que, atualmente, mandam, desmandam e mamam nas tetas originárias dos nossos impostos!

    • O político descobriu uma forma fácil, aqui, de colocar os carros na frente dos bois. Chama-se “nomeação”, com isso torna-se desnecessário, concursos, prova de títulos, experiência no cargo ou prova de honestidade. Basta ser o nome escolhido. Muito brasileiro. De carona veio também a despreocupação em dar exemplos e se manter dentro da lei. O próprio torna-se ela. Essa forma carnavalesca de escolha de ministros do STF, está na constituição de 88 a quanto tempo?

  2. É isso ai Jorge, Bolsonaro e um Senado decente, o Cidadão trabalhador terá sua Cidadania respeitada. Toffoli o reprovado 2 vezes para Juiz (SP), empregado do PT, a 2ª turma é de sinistros, só se salva o Fachin.
    o STF está stf, humilhando Brasil perante o Mundo, como “Repubiqueta democradura”. Toffoli deveria estar com Lula, por crimes hediondos contra a Pátria. Há uma Justiça que faz Justiça: a Divina

  3. Meus caros, a justiça, com sua lentidão, os Tribunais superiores, dão mal exemplo, na 1ª Instância, também, deixa muito a desejar, tenho 2 ações populares, em minha Cidade desde jan/18, e está engavetada pela Juíza, como crer na Justiça, se muitos membros dela, a estupram e vilipendiam!???
    A bem da Verdade, 220 milhões no mato sem cachorro. Dia 07/10, mais uma chance de mudar o rumo do Brasil, salvando-o deste oceano de lama, ou afundaremos de vez. Votar com consciência, por um Brasil decente e justo, repudiando PT,PSDB,PMDB,PP, PDT e demais penduricalhos, é preciso!

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