Na confusão em que nos metemos, que tal fazer um debate sobre o que concordamos?

Estado Mínimo

Charge do Jota Camelo (Humor Político)

Eurípedes Alcântara
O Globo

As discordâncias estão ululantemente óbvias no Brasil. O único debate nacional a que me interessaria assistir é sobre aquilo com que as pessoas concordam. Não imaginem que seja uma conversa pacata, harmoniosa e fácil. Dá para trocar socos à vontade numa discussão sobre o que, afinal, nos une.

A ideia não é fazer um apelo ao bom senso e à razão. A ideia é colocar ainda mais gasolina na fogueira, pois calor e luz ajudam as coisas a mudar. Sugiro dez pontos para o acalorado debate sobre aquilo com que, acredito, estejamos todos de acordo:

ABUSO TRIBUTÁRIO – Com 40% da riqueza do país em mãos da União e dos entes federados, os brasileiros que trabalham, dão empregos e empreendem são obrigados a ralar de janeiro a maio apenas para pagar impostos, taxas, contribuições compulsórias aos burocratas que se julgam mais capazes de gastar nosso dinheiro do que nós mesmos.

Nenhum presidente da República do Brasil, sejam quais forem ou tenham sido suas convicções ideológicas, conseguiu deter a marcha batida dos gastos públicos e, tampouco, garantir que os governos gastem apenas aquilo que arrecadam.

Ganha um ano extra de mandato o presidente da República que, em vez de aumentar impostos, consiga cortar despesas e diminuir o tamanho do Estado, sem prejuízo de sua eficiência, dessa forma garantindo um aumento consistente e sustentável no ritmo de crescimento da economia e de desenvolvimento social do país.

INFLAÇÃO ETERNA – Governos não produzem riqueza. Governos imprimem dinheiro e, quanto mais acionam a maquininha impressora, menos valor as cédulas têm. Riqueza é gerada pelas classes produtoras — trabalhadores, empregadores e empreendedores.

No Brasil só existem, na verdade, duas classes de cidadãos: os pagadores de impostos e os consumidores de impostos. Os pagadores de impostos são sempre escalados para pagar os erros de boa-fé e as ações ruinosas de má-fé dos consumidores de impostos, a casta dominante do país.

Os burocratas estatais de alto escalão serão cobrados por seu desempenho, de modo que, se suas decisões produzirem resultados desastrosos, serão penalizados em seus vencimentos ou na progressão da carreira.

RESPONSABILIDADE E ÉTICA – Uma maneira de minimizar as punições é obter uma tradução completa para o português do termo da língua inglesa accountability. A tradução mais aceitável é boa, mas muito longa. Accountability pode ser traduzido por responsabilidade com ética num ambiente de transparência. Imputabilidade é uma tradução curta, mas sem a força do original em inglês.

As burocracias estatais obedecem a uma única lei básica de conduta: manter e, sempre que possível, ampliar seus privilégios. Os tetos de gastos e salários existem apenas para os pagadores de impostos da planície. Os consumidores de impostos do planalto estão isentos de quaisquer sacrifícios.

A obra prioritária no país é a criação de mais vasos comunicantes entre Brasília e o Brasil. Isolados no Planalto Central, onde antes da criação da capital no Cerrado só existiam emas, lobos-guará, gabirobas e mandacarus, os consumidores de impostos sentem-se protegidos de qualquer insatisfação mais consequente de seus reféns, os pagadores de impostos.

RESTRIÇÃO LEGAL – Os parlamentares só podem propor uma nova lei que implique aumento de despesas e maior inchaço do Estado depois de ter aprovado três leis de sua autoria que claramente favoreçam o aumento de produtividade e inovação tecnológica da economia.

Nenhum homem é uma ilha, mas o Brasil é quase. Somos um país de economia mais fechada do que a média mundial. A linguagem para o intercâmbio produtivo com o mundo é a competitividade, e ela não se obtém sem atenção total ao acrônimo em inglês STEM — ciência, tecnologia, engenharia e matemática.

STEM é parecido com o amor na filosofia indiana: quanto mais se dá, mais se recebe.

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