Na Croácia de Tito, houve o casamento do socialismo e da liberdade

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Em 1948, Tito já era um dos líderes mundiais

Sebastião Nery

Em julho de 1957, estava eu em Moscou, a imprensa internacional acordou com a manchete quente: “Tito e Bulganin encontram-se na fronteira da Rumânia”. Bulganin, um velhinho de barbicha branca e cara muito rosada, que poucos dias antes eu vira passeando só e calmamente nos jardins do Kremlin, era o então presidente da União Soviética. Aquele papo de fronteira significava o fim de dez anos de punhos cerrados entre URSS e a Iugoslávia, com os comunistas de meio mundo acusando Tito de traidor do socialismo.

No ano seguinte, para espanto dos americanos e desespero dos stalinistas, o presidente Bulganin e Kruschev, primeiro-ministro e secretário geral do PC soviético, desciam em Belgrado e faziam a mais sensacional autocrítica já vista em dirigentes da URSS: na briga com Tito, os errados fomos nós. E começou o degelo no leste.

VELHO LEÃO – Gomulka saiu da cadeia, reassumiu o poder na Polônia e foi ver Tito. Lembro bem, apesar dos anos já passados, quando fui pegar meu cartão de jornalista estrangeiro convidado para o jantar de Tito a Gomulka, um correspondente americano me disse malicioso:

– Os meninos estão arrancando os dentes do velho leão, depois de morto.

– Que leão?

– Stalin.

A história rodou, a experiência socialista se fez universal, Bulganin e Kruschev perderam o poder e a vida, e tanto tempo depois, reencontro a Iugoslávia um país inteiramente novo, reconstruído da guerra, industrializado, em processo de desenvolvimento com índices raros em toda a Europa, e ainda sob o comando político e nacional, muito mais nacional do que político, do mesmo Tito que arrancou a autocrítica de Bulganin e Kruschev. Por quÊ? Porque Tito, aos 81 anos, era muito mais do que o presidente do país, por ser o seu grande herdeiro vivo.

FILHOS DA MORTE – Os heróis são filhos da morte. Nascem na sepultura. Mas a história às vezes faz alguns coabitarem com a glória e, em vida, serem sinônimos de sua pátria. Quando De Gaulle dizia – “Se quero saber o que a França pensa, pergunto a mim mesmo” – ele estava apenas traduzindo a sua consciência de herói vivo. Tito era o De Gaulle socialista da Iugoslávia. Um homem sinônimo de seu país e de seu povo.

– Nossa filosofia básica de governo é o respeito à liberdade dos homens e o desenvolvimento natural de nosso sistema socialista – dizia-me em almoço no clube de imprensa o ministro Dragoyub Budimovski, um jornalista que, em 1941, deixou a redação e foi para as montanhas, de fuzil na mão, aos 18 anos, fazer guerrilha contra as tropas de Hitler que tinham invadido seu pais. Gordo, forte, vermelho, parece camponês eslavo. E não é outra coisa esse filho da Croácia, sorrindo largo, comendo muito e falando apaixonadamente da experiência nacional de seu povo:

– Quer dizer que aqui socialismo e liberdade se casaram.

– É a única maneira de dar bons filhos.

E riu largo, aberto, vermelho, como os camponeses da Croácia.

6 thoughts on “Na Croácia de Tito, houve o casamento do socialismo e da liberdade

  1. Quando jovem, aprendi a gostar dos textos de Sebastião Nery através de um amigo em minha cidade de Santaluz na Bahia, Ezequeil Cardoso Filho ou Cardozinho, que era amigo do Sebastião, que me ensinou a admirar este grande homem; Sebastião Nery, isso nos idos de 1965 por ai!

  2. Com a morte de Tito, a Iugoslávia, que era na realidade um aglomerado de países menores juntados e mantidos por ele à mão de ferro, se fragmentoiu novamente e tivemos o que foi talvez a guerra mais fratricida da Europa…

  3. A Iuguslávia , como a URSS, era um ajuntamento à força de repúblicas.
    Um país artificial.
    Acabada a mentira socialista-comunista, cada uma dessas repúblicas conseguiram sua independência a contra-gosto da Sérvia que queria mantê-las sob seu domínio

  4. A Iugoslávia de Tito foi uma experiência político-econômica interessante, que buscou construir uma autêntica identidade entre povos que não formavam realmente uma nação, e que haviam sido unidos pelos vencedores da I Guerra Mundial num estado artificial criado como prêmio para seu principal aliado nos bálcãs, o reino da Sérvia, que se tornou o núcleo ditatorial do poder no novo país. Após 1945, Tito tentou criar um equilíbrio entre os povos da Iugoslávia, e cimentar uma nova nação, mas o processo naufragou com o colapso do socialismo e a crise econômica dos anos 80 e 90, que reacenderam nacionalismos e levaram a uma guerra civil sangrenta ditada principalmente por interesses econômicos. Ainda hoje os integrantes da ex-Iugoslávia cultivam ressentimentos e disputas mesquinhas, como a briga para saber se Ivo Andric, prêmio nobel de literatura e uma das glórias da Iugoslávia titista, era sérvio, croata ou bósnio, enquanto ficam atrás de favores da União Européia e dos Estados Unidos.

  5. Iugoslávia de Tito… e estamos no século XXI. Falta de conhecimento do que é importante nesta nossa época ou apego ao passado borolento? That’s the question.
    Wake up dudes!

  6. Iugoslávia de Tito, socialismo e liberdade!!!! Piada, só no imaginário de Sebastião Nery. Hoje sim a Croácia é livre, mas pagou um preço altíssimo, não é ?!

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