Na entrevista à CBN, Cabral mentiu mais uma vez sobre a hora do vôo para Porto Seguro. Por que essa insistência na questão do horário?

Carlos Newton

Na entrevista – única e exclusiva – que concedeu estrategicamente à Rádio CBN (não voltará a falar tão cedo, podem apostar) o governador Sérgio Cabral voltou a afirmar que só saiu do Rio na sexta-feira, dia 17, pouco antes do acidente de helicóptero que matou a namorada de seu filho e mais seis pessoas.

“Saímos daqui na sexta-feira. Chegamos lá por volta das 18h30. Mas infelizmente houve esse acontecimento trágico. Não tenho nenhuma razão pra mentir sobre isso. Fui ao colégio dos meus filhos na sexta à tarde, saí daqui às 17h, 17h e pouquinho” – disse Cabral à CBN, sem perceber que estava se complicando ainda mais, com essa nova declaração.

Como foi amplamente divulgado, o helicóptero levava 10 minutos no percurso Porto Seguro-Jacumã. A decolagem fatídica do helicóptero ocorreu às 18h31m, e o aparelho foi dado como desaparecido às 18h57m. Como antes o helicóptero já havia feito uma viagem, conduzindo o governador e a esposa do piloto até Jacumã, e depois voltando a Porto Seguro, fica totalmente inviável a versão de Cabral de que “chegamos lá por volta das 18h30”, porque antes de 18h10 ele estava a bordo do helicóptero que o conduziu a Jacumã.

Três importantes jornais apuraram a mesma coisa: Cabral chegou a Porto Seguro na manhã de sexta-feira, dia 17. “A Tarde”, que é o mais importante jornal da Bahia, publicou no sábado, dia 18, que Cabral chegara lá sexta hã e fora até cumprimentado pelo prefeito de Porto Seguro, Gilberto Abade, que o encontrará passeando pela cidade.

“O Globo”, na edição de domingo, dia 19, deu mais detalhes, ao publicar que “o acidente aconteceu após um almoço do grupo no Villa Vignoble Terravista Resort, em Trancoso. De lá, os convidados começaram a ser levados para o Jacumã Ocean Resort, a uma distância de 15 km. Como eram várias pessoas, foi preciso fazer várias viagens”.

Como a assessoria de imprensa do governador tentou desmentir essas versões de “A Tarde” e “O Globo”, afirmando repetidas vezes que o vôo do jato Legacy de Eike Batista só decolara às 17 horas de sexta-feira, a “Folha de S. Paulo” resolveu voltar a Porto Seguro. E o que constatou? “O Globo” e “A Tarde” estavam corretos.

Dois funcionários da Fazenda Jacumã, condomínio de casas luxuosas a 15 km de Porto Seguro, onde ocorreria no fim de semana a festa de aniversário do empreiteiro Fernando Cavendish, confirmaram ao repórter Graciliano Rocha que o governador já estava por lá na sexta, antes do meio-dia.

O jornalista da “Folha” apurou também que o avião que transportou o governador à Bahia deveria pousar na pista do Terravista, um condomínio de luxo a cerca de 20 km de Jacumã. Segundo funcionários do aeroporto privado, também ouvidos pela Folha, a gerência da Jacumã telefonou na manhã do dia 17 para perguntar se um jato com o governador do Rio poderia pousar na pista e se o helicóptero Esquilo, pilotado por Marcelo Mattoso Almeida (uma das vítimas), poderia levá-lo à fazenda, a pouco mais de 10 minutos de voo.

Como o tempo estava chuvoso e o Terravista não opera pousos e decolagens por instrumentos, os operadores indicaram que a aeronave deveria se dirigir a Porto Seguro.

O repórter Graciliano Rocha foi então checar o horário da chegada do Lecacy na administração do Aeroporto de Porto Seguro e também na Aeronáutica, mas estranhamente se recusaram a dar qualquer informação sobre o vôo do jato particular que levou Cabral e seus amigos ao Sul da Bahia.

No Rio, de acordo com a assessoria do governador, a informação de que Cabral e sua comitiva viajaram às 17 horas poderia ser confirmada no Aeroporto Santos Dumont e também na Escola Britânica, onde ele teria passado para ver os filhos pouco antes de embarcar.

Procurados pela “Folha”, o Aeroporto Santos Dumont e a Aeronáutica também estranhamente afirmaram que a informação sobre o horário de saída do avião é sigilosa. Já na Escola Britânica, não foram localizadas pessoas que pudessem confirmar a presença de Sérgio Cabral no local, o que significa que lá ele não esteve.

O motivo é simples: no Rio, o governador só se movimenta de carro com grande comitiva. O pelotão é formado de oito carros. Os três primeiros são dos seguranças, os três últimos, também. O governador anda em um dos dois carros que ficam no meio da comitiva. À frente dela, seguem quatro motos de sirena aberta, e atrás, outras quatro, idem.

Por isso, é totalmente impossível que na Escola Britânia ninguém tivesse percebido que o governador estivera lá, para visitar os filhos menores. Com tantas sirenas e tantos carros na comitiva, Cabral jamais passaria despercebido.

É incrível que Cabral insista nessa versão furada. Se não tocasse no assunto, a coisa ficaria de lado. Mas ele faz questão de tentar empurrar essa versão pela goela abaixo dos outros, e cada vez se complica mais. Está mais do que comprovado que a versão de Cabral é mentirosa, mas ele insiste. Deve ser algum caso patológico.

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