Na formação do governo Dilma Rousseff, existem dois grandes perdedores: Ciro Gomes e Henrique Meirelles, que acreditaram em Lula e se deram mal, muito mal.

Carlos Newton

Fora do Ministério, que futuro aguarda Ciro Gomes, que vinha realizando uma das mais brilhantes carreiras políticas de sua geração? Foi prefeito, governador, ministro da Fazenda, ministro da Integração Nacional, deputado federal, candidato a presidente duas vezes, em 1998 e 2002, quando tinha até chances de ganhar.

Ciro continuava (e até continua) sonhando com a Presidência, mas desta vez tudo virou pesadelo. Era ministro e amigo do presidente Lula, saiu do governo em março para se desincompatibilizar e disputar a eleição. Mas foi inacreditavelmente ingênuo. Acreditou quando Lula lhe disse que o PT poderia até apoiar a candidatura dele. Depois, acreditou de novo, quando Lula lançou Dilma e prometeu a Ciro que, se ela não decolasse, o candidato seria ele.

Acreditou tanto em Lula, que mudou seu endereço eleitoral para São Paulo. Quando descobriu que tinha sido ludibriado, já era tarde, seu partido (PSB) já tinha feito acordo com Lula para apoiar Dilma e ele só podia disputar eleição em São Paulo. Mas ser candidato a quê na Paulicéia Desvairada?

Ficou fora da disputa presidencial e da política federal, como um todo. Com Ciro concorrendo, o quadro seria outro, os debates ganhariam entusiasmo e os votos no primeiro turno se dividiram pelas quatro candidaturas, (Dilma, Serra, Marina e Ciro), trazendo muito mais emoção.

Mesmo enganado e humilhado por Lula, no segundo turno Ciro Gomes ainda aceitou ser um dos coordenadores da campanha final de Dilma, sem lembrar que no primeiro turno dera várias declarações à imprensa defendendo a eleição de Serra, por ser “mais experiente do que a Dilma”. Uma dessas entrevistas não podia ser negada. Foi gravada e exibida pela Rede SBT.

Ciro Gomes era considerado um ministro certo, garantia-se que iria voltar ao Ministério da Integração Nacional e concluir a inacabável (e absolutamente necessária) transposição das águas do Rio São Francisco. Mas acabou ficando de fora e se arrisca a passar quatro anos ao relento, pegando sol e chuva, até a eleição de 2014. Será que vai acertar um cargo subalterno? É difícil, mas possível. Quase tudo é possível.

Também fora do Ministério, outro grande perdedor: Henrique Meirelles. Em 2002, fora eleito deputado federal em Goiás pelo PSDB, com votação recorde, quase 183 mil votos. Ninguém o conhecia, mas foi a mais rica campanha já vista em Goiás. Está explicado, e assim, aos 56 anos, Meirelles se elegia para a Câmara Federal, mas já sonhava com o Planalto, exatamente como Ciro Gomes.

Ex-presidente mundial do BankBoston, dinheiro não é problema para Meirelles, que só visava o poder. Em 2002, como era preciso colocar alguém no Banco Central que defendesse os interesses do sistema financeiro, para “acalmar o mercado”, Meirelles foi indicado a Lula por Aloizio Mercadante, que tinha sido seu assessor econômico no BankBoston e acabara de se eleger senador pelo PT de São Paulo.

Bem, já que o esquema era para preservar os interesses do “mercado”, Meirelles aceitou o “sacrifício”, renunciou ao seu mandato de deputado federal (era obrigatório fazê-lo) e assumiu o Banco Central. Assim se passaram quase oito anos, até que em março Meirelles ia sair, para se candidatar ao Senado ou ao governo de Goiás, pelo PMDB, e especulava-se que poderia ser até o vice na chapa de Dilma.

Mas o presidente Lula, da mesma forma como convencera Ciro Gomes a ficar na “regra 3”, com reserva de Dilma Roussef, também convenceu Meirelles a desistir da eleição e ficar até o fim no Banco Central. Isso aconteceu na chamada “undécima hora”. Meirelles foi o último ministro de Lula a se decidir sobre a desincompatibilização.

É redundantemente claro, lógico e evidente que Meirelles só aceitou porque continuaria no cargo no governo Dilma ou poderia até ser promovido para o Ministério da Fazenda. Acontece que o “acordo” foi feito com Lula, mas quem empunha a caneta para assinar a nomeação de ministros é Dilma Rousseff,

Meirelles ficou na mesma condição de Ciro Gomes. No relento. Mas agora não tem mais 56 anos, já está com 64 anos e só haverá eleições gerais em 2014, quando já ficará muito próximo dos 70 anos, o que faz muita diferença em eleições majoritárias.

Os casos de Ciro e Meirelles demonstram nitidamente que, no decorrer de sua impressionante e extraordinária trajetória, não há duvida de que Luiz Inácio Lula da Silva realmente aprendeu a ser político, em todos os sentidos, incorporando até mesmo o péssimo costume de não cumprir acordos com importantes aliados, o que é comum no Brasil.

Por fim, quanto a Aloizio Mercadante, ex-assessor de Meirelles no BankBoston e que o conduziu ao Banco Central, sobrou para ele no governo Dilma Rousseff apenas um ministério de terceiro categoria, como já era esperado.

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