Na França, 65 milhões de cientistas políticos – ou quase isso

Tatiana Coutto

Se o Brasil tem 200 milhões de técnicos de futebol, a França tem 65 milhões de analistas politicos. Cada um com uma opinião sobre o esquema tático que a “seleção politica” francesa dos proximos cinco anos. Ainda que um segundo turno entre François Hollande (PS) e Nicolas Sarkozy (UMP) já fosse esperado, a apuraçao é acompanhada com atenção por inumeros franceses que discutem os resultados e as estratégias do segundo turnos nas chamadas soirées electorales – reunioes organizadas por amigos ou colegas para acompanhar a apuraçao e discutir politica. Sem jamais chegar a um acordo, senão perde a graça.

O que as urnas dizem? Primeiramente, o comparecimento mais alto do que o previsto (79%, contra 85% em 2007 e cerca de 70% em 2002), exprime uma demanda por soluções para problemas cotidianos como desemprego, crise econômica, reforma escolar e fiscal. Nota-se pouco entusiasmo por um candidato ou outro, e prevalece o sentimento de que a crise continuará’ a rondar a França e a Europa ao longo do próximo mandato, qualquer que seja o presidente.

Interessante ainda observar os escores dos outros candidatos: Marine le Pen (20%) demonstra que a Frente Nacional (FN) possui um eleitorado fiel, que no entanto foi incapaz de cativar os eleitores indecisos, indicando assim os limites de se construir um programa eleitoral baseado na securitização da questão migratória.

Melanchon, da Frente de Esquerda (11%) mostrou-se capaz de rápida ascensão e de oferecer uma alternativa tanto a eleitores socialistas como aos – pasmem – ex-votantes da FN.

François Bayrou (10%) nao obteve votaçao expressiva, mas sera’ um nome cogitado para um governo de coalizao – principalmente no caso de Sarkozy ser eleito, ou para algum cargo em Bruxelas. Eva Joly, da Europa Ecologia, foi uma das grandes derrotadas (2%); sem apoio dentro do proprio partido, os verdes deverão perder ainda mais espaço em um futuro governo de esquerda. Algumas demandas do partido como um plano de alternativa à energia nuclear provavelmente não encontrarão nenhum eco no futuro governo.

Outra grande prejudicada é a União Europeia – pouco discutida pelos candidatos, a UE continua a ser apontada como a principal responsavel pela atual situação de seus estados-membros. Nesse momento, a UE paga a conta das medidas de austeridade adotadas de Lisboa a Atenas.

Tatiana Coutto é  doutora em politica Europeia pelo
Instituto Universitario Europeu (EUI), Florença,
professora e pesquisadora em relaçoes internacionais
tatiana.coutto@eui.eu

This entry was posted in Sem categoria. Bookmark the permalink.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *