Na genialidade de Lamartine, uma brincadeira que virou uma bela canção de amor

Paulo Peres
Poemas & Canções

O advogado e compositor carioca Lamartine de Azeredo Babo (1904-1963) compôs “Serra da Boa Esperança” inspirado numa situação inusitada, conforme consta na “História da MPB, Grandes Compositores”, coleção da Abril Cultural.
 
Segundo o fascículo da  coleção, “ em 1935, Lamartine recebeu da cidade de Boa Esperança (MG) uma poética a apaixonada carta assinada por Nair Pimenta de Oliveira. Iniciou-se entre ambos uma correspondência que se prolongou por cerca de um ano. Depois, o adeus na última carta de Nair.
 
Meses mais tarde, outra correspondência da mesma cidade convidava o compositor para a festa de estreia de um conjunto musical. O remetente era o dentista Carlos Alves Neto. Sonhando encontrar sua antiga missivista, Lamartine rumou para Minas. E não foi difícil encontrar Nair: uma menina, sobrinha do dentista, que era também autor das cartas. Ele colecionava fotos de artistas e se valera daquele expediente para aumentar sua coleção. Desse episódio, nasceu o famoso e bucólico samba-canção Serra da Boa Esperança”, gravado por Francisco Alves, em 1937, pela RCA Victor.
 
SERRA DA BOA ESPERANÇA
Lamartine Babo
 
Serra da Boa Esperança,
Esperança que encerra
No coração do Brasil
Um punhado de terra
No coração de quem vai,
No coração de que vem,
Serra da Boa Esperança,
Meu último bem

Parto levando saudades,
Saudades deixando,
Murchas, caídas na serra,
Bem perto de Deus
Oh, minha serra,
Eis a hora do adeus
Vou-me embora
Deixo a luz do olhar
No teu luar
Adeus!

Levo na minha cantiga
A imagem da serra
Sei que Jesus não castiga
Um poeta que erra
Nós, os poetas, erramos
Porque rimamos, também
Os nossos olhos nos olhos
De alguém que não vem

Serra da Boa Esperança,
Não tenhas receio,
Hei de guardar tua imagem
Com a graça de Deus!
Oh, minha serra,
Eis a hora do adeus,
Vou-me embora
Deixo a luz do olhar
No teu olhar
Adeus!    

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