Na irrealidade do poema, a ausência desconhecida e feliz de Cecilia Meireles

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A professora, jornalista e poeta carioca Cecília Meireles (1901-1964) sente no poema “Irrealidade” que não há passado nem futuro, porque tudo que ela abarca está no presente.

IRREALIDADE
Cecília Meireles

Como num sonho
aqui me vedes:
água escorrendo
por estas redes
de noite e dia.
A minha fala
parece mesmo
vir do meu lábio
e anda na sala
suspensa em asas
de alegoria.

Sou tão visível
que não se estranha
o meu sorriso.
E com tamanha
clareza pensa
que não preciso
dizer que vive
minha presença.

E estou de longe,
compadecida.
Minha vigília
é anfiteatro
que toda a vida
cerca, de frente.
Não há passado
nem há futuro.
Tudo que abarco
se faz presente.

Se me perguntam
pessoas, datas,
pequenas coisas
gratas e ingrata,
cifras e marcos
de quando e de onde,
– a minha fala
tão bem responde
que todos crêem
que estou na sala.

E ao meu sorriso
vós me sorris…
Correspondência
do paraíso
da nossa ausência
desconhecida
e tão feliz.

2 thoughts on “Na irrealidade do poema, a ausência desconhecida e feliz de Cecilia Meireles

  1. Retrato

    Eu não tinha este rosto de hoje,
    assim calmo, assim triste, assim magro,
    nem estes olhos tão vazios,
    nem o lábio tão amargo.

    Eu não tinha estas mãos sem força,
    tão paradas e frias e mortas,
    eu não tinha este coração
    que nem se mostra.

    Eu não dei por esta mudança,
    tão simples, tão certa e fácil:
    – Em que espelho ficou perdida
    a minha face?”

    (Cecília Meireles)

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