Na marmita do operário, uma emocioante lição de vida do poeta Lêdo Ivo

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Membro da Academia Brasileiroa de Letras, o jornalista, cronista, romancista, contista, ensaísta e poeta alagoano Lêdo Ivo (1924-2012), no poema “A Marmita”, retratou os limites e espaços da vida e do cootidiano diário de um operário.

A MARMITA
Lêdo Ivo

Em sua marmita
não leva o operário
qualquer metafísica.
Leva peixe frito,
arroz e feijão.
Dentro dela tudo
tem lugar marcado.
Tudo é limitado
e nada é infinito.
A caneca d’água
tem espaço apenas
para a sua sede.
E a marmita é igual
à boca do estômago,
feita sob medida
para a sua fome.
E quando termina
sua refeição,
ele ainda cata
todas as migalhas,
todo esse farelo
de um pão que suasse
durante o trabalho.
Tudo quanto ganha
o operário aplica
como um capital
em sua marmita.
E o que ele não ganha
embora trabalhe
é outro capital
que também investe:
palavra que diz
em seu sindicato,
frase que se escreve
no muro da fábrica,
visão do futuro
que nasce em seus olhos
que só com fumaça
se enchem de lágrimas.
Em sua marmita
não leva o operário
o caviar de
qualquer metafísica.
E sendo ele o mais
exato dos homens
tudo nele é físico
e material,
tem seu nome e forma,
seu peso e volume,
pode-se pegar.
Seu amor tem saia.
pêlos e mucosas
e, fecundo, faz
novos operários.
As coisas se medem
pelo seu tamanho:
sono, mesa, trave.
No trem ou no bonde
nenhum operário
pode se espalhar
sem fazer esforço.
É como no mundo:
— tem que empurrar.
Vasilhame cheio
de matéria justa,
sua vida é exata
como uma marmita.
Nela cabe apenas
toda a sua vida.
E não cabe a morte
que esta não existe,
não sendo manual,
não sendo uma peça
de recauchutar.
(Artigo infinito,
sem ferro e sem aço,
qualquer um a embrulha
sem usar barbante
ou papel almaço.)
Fabril e imanente
o operário vive
do que sabe e faz
e, sendo vivente,
respira o que vê.
O tempo que o suja
de óleo e fuligem
é o mesmo que o lava,
tempo feito de água
aberta na tarde
e não de relógio.
E a própria marmita
também é lavada.
E quando ele a leva
de volta pra casa
ela, metal, cheira
menos a comida
do que a operário.

5 thoughts on “Na marmita do operário, uma emocioante lição de vida do poeta Lêdo Ivo

  1. Fantástico Paulo Peres.
    O operário que leva sua marmita, que as vezes come fria por falta de um micro ondas ou fogão no trabalho, e que no final do mês mal dá para enchê-la com arros e feijão, sem o ovo frito, a sardinha, o angu com carne moída, enfim, é esse trabalhador que o Ministro Paulo Guedes quer empurrar o sistema de capitalização previdenciária, somente para favorecer sua classe, a classe dos banqueiros.
    Surrealismo puro, com quem mais precisa de solidariedade.
    O país descerá a ladeira rumo ao abismo social, se as teses desse ultraliberal e arrogante, na sua pretensa verdade absoluta, conseguir exito no Congresso Nacional, que cairá no desprezo das classes trabalhadoras, se aceitar o que ele quer impor.

  2. Zé Marmita –
    Composição: Brasinha / Luiz Antonio – Marchinha de carnaval interpretada por Marlene Miltinho e outros.

    Quatro horas da manhã
    Sai de casa o Zé Marmita
    Pendurado na porta do trem
    Zé Marmita vai e vem

    Numa lata, Zé Marmita
    Traz a bóia
    Que ainda sobrou do jantar
    Meio-dia Zé Marmita
    Faz o fogo para comida esquentar

    E o Zé Marmita
    Barriga cheia
    Esquece a vida
    Numa bate-bola de meia

    ·

  3. Linda poesia retratando o trabalhador da construção civil levando sua marmita para a obra onde trabalhava. Na hora do almoço fazia uma fogueira para esquentar a bóia – saudável, feita em casa.
    Com o tempo, ficar comum as pessoas levarem suas marmitas (ainda não era época dos “self service” ou de restaurantes entregando os “marmitex”. Comida caseira mesmo.

  4. Soneto dos Vinte Anos – Ledo Ivo

    Que o tempo passe, vendo-me ficar
    no lugar em que estou, sentindo a vida
    nascer em mim, sempre desconhecida
    de mim, que a procurei sem a encontrar.

    Passem rios, estrelas, que o passar
    é ficar sempre, mesmo se é esquecida
    a dor de ao vento vê-los na descida
    para a morte sem fim que os quer tragar.

    Que eu mesmo, sendo humano, também passe
    mas que não morra nunca este momento
    em que eu me fiz de amor e de ventura.

    Fez-me a vida talvez para que amasse
    e eu a fiz, entre o sonho e o pensamento,
    trazendo a aurora para a noite escura.

    “Hier encore j’avais vingt ans” Charles Aznavour

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