Na poesia de Guimarães Rosas, todas as águas estão adormecidas

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O médico, diplomata, romancista, contista e poeta João Guimarães Rosa (1908-1967), nascido em Cordisburgo (MG), é um dos mais importantes escritores brasileiros de todos os tempos, sendo sua obra mais conhecida o romance “Grande Sertão: Veredas”, que ele qualifica como uma “autobiografia irracional”. Entretanto, Guimarães Rosa também enveredou pelos veios poéticos, conforme seus versos afirmativos de que “Todas as Águas Dormem”, exceto a água dos olhos.

TODAS AS ÁGUAS DORMEM
Guimarães Rosa

Há uma hora certa,
no meio de noite, uma hora morta,
em que a água dorme. Todas as águas dormem:
no rio, na lagoa,
no açude, no brejão, nos olhos d’água,
nos grotões fundos.
E quem ficar acordado,
na barranca, a noite inteira,
há de ouvir a cachoeira
parar a queda e o choro,
que a água foi dormir…

Águas claras, barrentas, sonolentas,
todas vão cochilar.
Dormem gotas, caudais, seivas das plantas,
fios brancos, torrentes.
O orvalho sonha
nas placas de folhagem.
E adormece
até a água fervida,
nos copos de cabeceira dos agonizantes…

Mas nem todos dormem, nessa hora
de torpor líquido e inocente.
Muitos hão de estar vigiando,
e chorando, a noite toda,
porque a água dos olhos
nunca tem sono…

 

3 thoughts on “Na poesia de Guimarães Rosas, todas as águas estão adormecidas

  1. Genial Guimarães Rosa. As águas ficam sonolentas e dormem.
    Mas as lágrimas, estas não dormem

    “Mas nem todos dormem, nessa hora
    de torpor líquido e inocente.
    Muitos hão de estar vigiando,
    e chorando, a noite toda,
    porque a água dos olhos
    nunca tem sono…”

  2. O mineiro de Cordisburgo, Minas Gerais, autor do famoso Grande Sertão :veredas – livro traduzido para diversas linguas. Sua indicação para ABL não se concretizou devido a sua morte aos 59 anos. Tive uma vizinha que morava em Cordisburgo com muito orgulho.Ainda não fui ao Museu Guimarães Rosa em sua cidade natal, mas as pessoas que foram dizem que vale a pena a visita. O museu possui peças, roupas e mobílias originais mantendo viva toda a história de Guimarães Rosa e da região central de MG.

    “Eu quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa.” Guimarães Rosa em Grande Sertão: Veredas

  3. Gargalhada – Guimarães Rosa
    Quando me disseste que não mais me amavas,
    e que ias partir,
    dura, precisa, bela e inabalável,
    com a impassibilidade de um executor,
    dilatou-se em mim o pavor das cavernas vazias…
    Mas olhei-te bem nos olhos,
    belos como o veludo das lagartas verdes,
    e porque já houvesse lágrimas nos meus olhos,
    tive pena de ti, de mim, de todos,
    e me ri
    da inutilidade das torturas predestinadas,
    guardadas para nós, desde a treva das épocas,
    quando a inexperiência dos Deuses
    ainda não criara o mundo…

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