Na poesia genial e criativa de Paulo Mendes Campos, o tempo era o seu disfarce

Imagem relacionadaPaulo Peres
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O jornalista, escritor e poeta mineiro Paulo Mendes Campos (1922-1991) fez um poema para revelar como passou a entender “O Sentimento do Tempo”.

SENTIMENTO DO TEMPO
Paulo Mendes Campos

Os sapatos envelheceram depois de usados
Mas fui por mim mesmo aos mesmos descampados
E as borboletas pousavam nos dedos de meus pés.
As coisas estavam mortas, muito mortas,
Mas a vida tem outras portas, muitas portas.
Na terra, três ossos repousavam
Mas há imagens que não podia explicar: me ultrapassavam.
As lágrimas correndo podiam incomodar
Mas ninguém sabe dizer por que deve passar
Como um afogado entre as correntes do mar.
Ninguém sabe dizer por que o eco embrulha a voz
Quando somos crianças e ele corre atrás de nós.
Fizeram muitas vezes minha fotografia
Mas meus pais não souberam impedir
Que o sorriso se mudasse em zombaria
Sempre foi assim: vejo um quarto escuro
Onde só existe a cal de um muro.
Costumo ver nos guindastes do porto
O esqueleto funesto de outro mundo morto
Mas não sei ver coisas mais simples como a água.
Fugi e encontrei a cruz do assassinado
Mas quando voltei, como se não houvesse voltado,
Comecei a ler um livro e nunca mais tive descanso.
Meus pássaros caíam sem sentidos.
No olhar do gato passavam muitas horas
Mas não entendia o tempo àquele tempo como agora.
Não sabia que o tempo cava na face
Um caminho escuro, onde a formiga passe
Lutando com a folha.
O tempo é meu disfarce.

5 thoughts on “Na poesia genial e criativa de Paulo Mendes Campos, o tempo era o seu disfarce

  1. “A sozinhez (esquece esta palavra que inventei agora sem querer) é inevitável. Foi o que Alice falou no fundo do poço: “Estou tão cansada de estar aqui sozinha!” O importante é que ela conseguiu sair de lá, abrindo a porta. “A porta do poço!”. Só as criaturas humanas, nem mesmo os grandes macacos e os cães amestrados, conseguem abrir uma porta bem fechada e vice-versa, isto é, fechar uma porta bem aberta.” Paulo Mendes Campos, em crônica para Maria das Graças – quando inventou “Sozinhês”

  2. “Não sabia que o tempo cava na face
    Um caminho escuro, onde a formiga passe
    Lutando com a folha.
    O tempo é meu disfarce.”
    É isso: o tempo vai carimbando nosso rosto os sinais de envelhecimento e ninguém vence esta batalha.
    “Mas não entendia o tempo àquele tempo como agora.
    Não sabia que o tempo cava na face
    Um caminho escuro, onde a formiga passe
    Lutando com a folha.
    O tempo é meu disfarce.”

  3. “Não há quem vença a batalha contra o transcurso do tempo: da infância à velhice, mesmo que abraçados às grandes obras – as literárias em especial –, nossas faces deixam-se rabiscar por linhas indeléveis bosquejadas pelo suceder dos anos, como rios que firmam sulcos que vão dar em grandes desfiladeiros, difíceis de acobertar!” Paulo Mendes Campos

  4. Ana Carolina Fernandes lança “Prainha”
    QUANDO: Sábado, 11 de maio, às 18h
    ONDE: Ateliê Oriente – Rua do Russel, 300 / apartamento 401, na Glória
    QUANTO: A entrada é gratuita e o livro custa R$ 80,00

    “O nome de Ana Carolina Fernandes é muito conhecido e festejado no meio da fotografia documental. Atrás das lentes desde os 19 anos, cobriu grandes acontecimentos, fatos políticos, histórias de vida, cidades, e, principalmente, lutas pelos direitos humanos e pela liberdade. Aos 55 anos, a carioca vem registrando fragmentos da Prainha há mais de uma década. O projeto, super pessoal, caiu nas graças do editor Valdemir Cunha, sócio de Lígia Fernandes na Editora Origem, criada também há dez anos para lançar exclusivamente livros de autor de fotografia.”

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