Na política mas longe do governo

Carlos Chagas 
                                              
O ex-presidente Lula desembarca hoje em Brasília, vindo de Dacar, no Senegal, onde participou do Fórum Social Mundial. Vem para a festa dos 31 anos de fundação do PT e fica até sexta-feira,  11. É provável que visite a sucessora, Dilma Rousseff, quem sabe na Granja do Torto, menos para afastar saudades do palácio do Planalto, mais para usufruírem, ambos, da  tranqüilidade de uma conversa longe das câmeras e microfones da mídia.

Enganam-se quantos tem espalhado veneno no relacionamento entre a presidente e o antecessor. O Lula dispõe  do tirocínio necessário para saber que deve ficar de banda, só dando palpites sobre a performance da  atual administração se for  solicitado. Ao contrário do que muitos gostariam, ele desencarnou mesmo, coisa que não o torna  exilado nem   mudo  em seu próprio país, ou seja, pode participar como quiser da política.                                                             

O ex-presidente será designado outra vez presidente de honra do PT,  de que se havia licenciado ao assumir a chefia do governo, em 2003. Mais do que uma função apenas honorífica, mas sem os encargos de direção partidária, estará tanto para símbolo como para instância superior de definição de rumos. Não se espere, porém, sua presença em reuniões dos companheiros, explosivas ou plácidas. Comparecendo na  festa de aniversário do PT, estará  dando seqüência ao que prometeu quando deixou o poder: não sair da política mas não se intrometer no governo.
 
EXAGEROS DE PARTE A PARTE
 
Se um governador ficou quatro ou oito anos à frente de seu estado, trabalhando o tempo todo, por que negar-lhe a aposentadoria que a Constituição estadual garante? Afinal, se era antes dedicado a atividades privadas, fica claro haver perdido o pé na profissão. Para viver com dignidade de ex-governador, faz jus ao benefício. Claro que não se fala de vice-governadores que assumiram por tempo limitado. Ou presidentes de Assembléias e de Tribunais de Justiça. Seria um exagero, como é.
                                                       
Exageradas também tem sido as críticas, quando generalizadas contra ex-governadores de fato, eleitos para o cargo.  Deve-se olhar para os integrantes dos tribunais superiores, por exemplo. Do Supremo aos demais, quando os ministros completam o limite de idade, vão para casa com vencimentos iguais aos que recebiam antes, vitalícios. E transferíveis para a viúva, quando morrem. Vale o mesmo para juízes e desembargadores estaduais. Para  o Ministério Público. Sem esquecer os diplomatas. E os generais.
 
NOVA POSTURA 
 
Parece difícil que o Senado venha a adotar proposta de Pedro Simon, para que a cada fim de  mês se defina a pauta dos trabalhos para o mês seguinte,  tornando-se obrigatória a apreciação e votação de tudo o que nela constar. Se os senadores cumprirem suas obrigações em vinte dias, terão dez para permanecer em seus estados, mesmo tendo realizado sessões deliberativas a semana inteira, até nos sábados. Se não conseguirem, que permaneçam obrigatoriamente em Brasília.  Ficar como está é que desmoraliza as atividades parlamentares, com votações apenas às terças, quartas e parte das quintas-feiras. De qualquer forma, trata-se  de uma iniciativa justa e honesta, que algum dia será adotada.
 
VANTAGENS DO APAGÃO   
 
Foi péssimo para o Nordeste. O apagão da semana passada desarticulou muitas atividades, além de desmoralizar o setor elétrico da região. Apesar disso, valeu para dar à presidente Dilma Rousseff os últimos argumentos capazes de botar para correr a quadrilha que tentava manter variadas diretorias de empresas estatais. Ficou claro que só técnicos de comprovada capacidade devem ocupar  essas funções. Aliás, é sempre bom perguntar: por que a banda podre do PMDB empenha-se tanto em manter cargos cuja dotação orçamentária chega a bilhões de reais? Tem azeitona nessa empada.
 
TIRO AO ALVO 
 
Derrotados Marco Maciel, em Pernambuco, Artur Virgílio, no Amazonas, e Tasso Jereissatti, no Ceará, além de Mão Santa e Heráclito Fortes, no Piauí, a pergunta que faz é se existiu um fio condutor gerando curto circuito nessas candidaturas a mais um mandato no Senado. A resposta parece clara: o fio chamou-se Lula, que por mais tolerância que apresente em sua vida política, guardou ressentimentos na geladeira. O problema não é saber como se comportarão politicamente os derrotados, mas quais serão os novos alvos na alça de mira, senão apenas do  primeiro-companheiro, ao menos do PT.

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