Na pressão a Dilma, PMDB perde espaço que conquistou nas urnas

Pedro do Coutto

Desencadeando, através de seu líder na Câmara, Eduardo Henrique Alves, pressão sobre Dilma Rousseff, que apresenta o contorno de chantagem política para assegurar os ministérios que conseguiu na administração Lula, o PMDB fica muito mal perante a opinião pública e perde na prática o espaço que conquistou nas urnas de outubro. Folha de São Paulo, Valor, O Globo, neste jornal reportagem de Isabel Braga e Gerson Camaroti, e O Estado de São Paulo, texto de João Domingos, focalizaram nitidamente a questão, retirando a máscara que, durante a campanha, ocultava a face fisiológica predominante no partido.

Não faz sentido o  que se passa com o PMDB que, para pressionar e impressionar a presidente eleita, recorre à formação de um bloco parlamentar reunindo PTB,que apoiou José Serra, o PP e o PSC. Quer dizer: se Dilma não fizer as nomeações que o bloco deseja, seus integrantes rompem com o governo.

Onde ficam e para onde vão os interesses do país e da população? Para o espaço. O líder do PMDB, assim agindo, revela o desprezo que nutre pelo eleitorado. Claro. Não pode haver outra interpretação. Para ele, os eleitores são figuras de segunda classe. Ele os remete à senzala, ou reduz a uma fábrica de votos. Os caciques do partido habitam a casa grande, para citar a obra clássica de Gilberto Freire.
Isso na essência. De outro lado, sob o prisma tático, um erro político enorme. Pois Henrique Eduardo Alves oferece de bandeja a Dilma Rousseff a possibilidade de governar com uma parte do PMDB – tarefa fácil – isolando a facção em nome da qual o líder diz falar.

Qual a causa do desentendimento repentino? Primeiro, a oposição anunciada pela presidente eleita de nomear para o Ministério de Minas e Energia o atual presidente da Empresa de Pesquisa Energética, Maurício Tomasquim, de acordo com matéria publicada na FSP de quarta-feira. Segundo, sua disposição de não nomear nenhum senador para o ministério, atitude que igualmente afasta o retorno de Edison Lobão àquela pasta. Terceiro, reportagem também da Folha de São Paulo, esta na edição de quarta-feira, revelando que a sucessora de Lula vetou qualquer acordo para que as legendas que formaram no governo Lula mantenham os mesmos ministérios que ocuparam de 2006 a 2010.

Isso não significa ruptura tampouco fim das articulações e do entendimento para formar a nova equipe. Significa apenas que a formação dos postos pode não ser a mesma e que também as pessoas possam ser outras. As legendas que formaram na jornada vitoriosa não podem possuir tão poucos nomes de peso, capacidade técnica e influência política que não possam ser substituídos por outros representantes. Afinal de contas, um governo, historicamente, não pode ser igual a outro. Não teria sentido, não seria nem político nem inteligente.
Compreende-se o impulso de Rousseff em escolher o titular do MME. Ela ocupou esse cargo de Janeiro de 2003 até 2005 quando substituiu José Dirceu na chefia da Casa Civil. Além disso, é o setor em relação ao qual possui mais forte apelo e conhecimento. Qual o problema?

Por que cargas d’água, a presidente da República não pode ter sua quota pessoal de nomes? Negar isso representa um raciocínio absolutamente primário. Parecido com aquele que, na disputa pela Prefeitura do Rio de Janeiro em 2008, Fernando Gabeira desenvolve rejeitando reivindicações, atribuindo a seus autores um tipo de pensamento suburbano. Gabeira com isso jogou fora a vitória entregando-a nos braços de Eduardo Paes. Henrique Alves quer entregar a adversários, talvez o PSDB, por exemplo, o espaço que o PMDB conquistou nas urnas. Um erro duplo e total. Incrível.

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